Em 3 de maio de 2026, completa-se o centenário de nascimento de Milton Santos, geógrafo negro baiano que revolucionou os estudos sobre espaço urbano e desigualdades sociais. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, em 1926, Santos faleceu em 2001, aos 75 anos, deixando um legado de resistência ao racismo e crítica ao capitalismo global.
Formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado pela Universidade de Strasbourg, na França, Santos enfrentou o exílio durante a ditadura militar brasileira. Lecionou em instituições na Europa, África e América Latina antes de retornar ao país, onde foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP). Sua obra articule uma visão crítica do espaço geográfico, influenciada por sua experiência como negro na academia, onde superou barreiras raciais sem vitimização.
Uma de suas principais contribuições é a teoria dos circuitos econômicos urbanos, desenvolvida na década de 1970. Ela divide a economia das cidades em dois circuitos: o superior, dominado por grandes empresas com alta tecnologia e capital; e o inferior, composto por pequenos comércios e serviços adaptáveis às necessidades da população periférica. Em São Luís, no Maranhão, a pesquisadora Livia Cangiano, pós-doutoranda na USP e colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), aplica essa teoria para analisar mercadinhos e feiras populares que atendem comunidades com poucos recursos, permitindo compras fracionadas, como ovos unitários.
As ideias de Santos transcendem o Brasil. O projeto de Cangiano estende a teoria a dinâmicas urbanas em Gana, Londres e Paris, destacando adaptações locais à exclusão. Para a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a obra de Santos, embora não centralize a negritude, oferece ferramentas para analisar desigualdades raciais e sociais, inspirando gerações de intelectuais negros.
Santos via o espaço não como mero cenário, mas como produto de decisões políticas e econômicas que geram desigualdades, como a falta de infraestrutura em periferias. Em ‘Por uma outra globalização’, ele critica como grandes obras de infraestrutura aprofundam disparidades mundiais. Seu conceito de ‘meio técnico-científico-informacional’ descreve como tecnologias moldam territórios, conectando elites enquanto marginalizam outros.
Apesar dos diagnósticos pessimistas, Santos via potencial transformador nas periferias, propondo que populações apropriem tecnologias para criar alternativas econômicas e resistências locais. Cangiano enfatiza que sua abordagem incentiva estudos de campo e compreensão do cotidiano periférico.
O centenário é marcado por eventos acadêmicos e culturais. O Seminário Internacional ‘Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21’ ocorre de 4 a 8 de maio na USP, em formato híbrido, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc promove um ciclo de palestras em maio. Já a Universidade Federal do Tocantins realiza, de 26 a 29 de agosto, o evento ‘Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional’, debatendo sua obra em âmbito internacional.