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Literatura

Autoras defendem papel transformador da literatura inclusiva durante Bienal de Brasília

No Estande 70, AIAB e ALETRAS apresentam obras acessíveis, valorizam novos escritores e mostram como a leitura pode romper barreiras

Agência UniCeub

22/08/2026 13h10

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Livros expostos no Estande 70 mostram diferentes formas de acessar a literatura, com obras de Dinorá Couto Cançado e outros autores da AIAB e da ALETRAS

Por Bernardo Costa

Com o tema “Ler o Amanhã”, a 6ª Bienal do Livro de Brasília garantiu espaço para a literatura inclusiva. Uma parceria entre a Academia Inclusiva de Autores Brasilienses (AIAB) e a Academia Aguaslindense de Letras (ALETRAS) traz discussões e obras sobre o tema.

A academia é liderada pela autora Dinorá Couto Cançado, e a ALETRAS, presidida pela escritora Keula Rodrigues. No dia a dia do estande, escritores se revezam para conversar diretamente com o público. Esse contato aproxima leitores e autores.

Dinorá atua há 31 anos com pessoas com deficiência visual. Com a experiência de quem acompanha essa realidade de perto, ela é categórica ao definir o espaço: “Esse é o estande mais inclusivo”. As entidades mostram que o livro só cumpre seu papel quando pertence, de fato, a todo mundo.

Literatura inclusiva

Mais do que garantir o acesso aos livros, a proposta envolve permitir que diferentes pessoas possam se reconhecer nas histórias e também ocupar nelas o lugar de protagonistas.

Braille, audiolivros, Libras e audiodescrição são alguns dos recursos que ajudam a ampliar esse acesso, mas a inclusão também passa pela representação da diversidade e pela valorização de diferentes formas de viver e enxergar o mundo.

No Estande 70, essa proposta ganha forma em um acervo voltado à literatura infantil acessível. As instituições trouxeram audiolivros, exemplares em Braille e fantoches para apresentações interativas. Os recursos permitem que crianças com diferentes tipos de deficiência interajam com as narrativas de forma autônoma e divertida.

Para ela, os recursos físicos e tecnológicos são apenas parte do processo. “Considero a acessibilidade atitudinal a mais importante de todas. Não adianta vir a acessibilidade comunicacional, como o Braille, libras e audiodescrição, se a pessoa não tem dentro de si aquele espírito inclusivo”, defendem Dinorá.

Livros de autores da AIAB e da ALETRAS ficam expostos no estande 70 da 6ª Bienal Internacional de Brasília.

Obras

Essa visão aparece também na escolha das obras infantis. O objetivo vai além do entretenimento e busca identificação e empoderamento desde a infância. “Queria que o deficiente que lesse a história se sentisse completamente acolhido e protagonista daquela história”, emociona-se a escritora.

Entre as obras está Uai pai, que bicho é esse?, de Dinorá. O livro ganhou uma versão em Braille com a capa adaptada ao tato, permitindo que a criança explore a história também pelas mãos.

Outros trabalhos da escritora seguem a mesma proposta. Produzidos quase de forma artesanal, esses exemplares acessíveis nem sempre estão disponíveis para venda, o que torna a experiência no Estande 70 ainda mais especial. Ali, o público pode tocar, ouvir e conhecer de perto uma literatura pensada para diferentes formas de leitura.

Versão acessível de Uai Pai, que bicho é esse? tem capa adaptada ao tato para ampliar a experiência de leitura.

O trabalho de Dinorá também passou pela Biblioteca Braille e ganhou reconhecimento nacional em 2005, quando recebeu o Prêmio ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio). Na ocasião, uma manchete do Ministério da Educação estampava: “A leitura opera milagres”.

Mais de duas décadas depois, ela mantém a convicção. “Eu sou a prova viva disso. Se não fosse a leitura na minha vida, e o tanto que eu trabalhei literatura infantil com alunos em 129 escolas e nessa biblioteca Braille, eu não estaria aqui. A literatura cura, principalmente a infantil, que serve para quaisquer idades”.

Sem preconceito

Esse impacto não se limita a quem encontra nos livros uma representação de si. A escritora, poeta e palestrante Sharlene Serra, autora da Coleção Incluir, acredita que as histórias também podem ensinar crianças sem deficiência a conviver com as diferenças. “Criança orientada não tem preconceito”, resume.

Segundo Sharlene, quando essas narrativas chegam a crianças sem deficiência, o contato acontece de forma positiva. “Quando essas histórias chegam numa criança sem deficiência, chegam de uma forma positiva”, afirma.

Para ela, é preciso entender que cada pessoa percebe o mundo de uma maneira. “Se tem uma pessoa com deficiência visual, ela vai enxergar da forma dela.” E completa: “A diferença já faz parte do ser humano, e quando entendemos isso, passamos a respeitar e ter um olhar completamente diferenciado”.

A inclusão também alcança quem está do outro lado das páginas. Poeta e escritora de A Dama dos Anéis, Célia da Silva Soares encontrou na ALETRAS espaço para desenvolver sua escrita e publicar suas obras. A academia promove atividades em escolas, coletâneas, encontros e saraus. “A ALETRAS vai em colégios, promove coletâneas, encontros, saraus, então através dos livros só acrescenta”, conta.

Para Célia, a experiência também trouxe mudanças pessoais. “Elevou meu grau de discernimento e cultura. Me ajudou a publicar livros e me tornei melhor como pessoa e escritora.” Em A Dama dos Anéis, suas poesias carregam memórias e percepções sobre a vida, transformando experiências em versos.

Célia da Silva Soares apresenta A Dama dos Anéis, obra em que reúne poesias, memórias e percepções sobre a vida.

Tecnologia

A palestrante e poeta Luh Veiga destaca justamente a importância de criar oportunidades para novos autores. Para ela, a tecnologia amplia o alcance dessas histórias. “Poder transformar palavras em arte é maravilhoso e hoje, com a tecnologia avançada, a gente atinge o mundo.”

Presidente da ALETRAS, Keula Rodrigues também leva ao estande sua própria obra, Prenderam o Saci, livro bilíngue em português e iorubá. Para ela, a literatura cumpre sua missão quando desperta no leitor a liberdade de imaginar outros caminhos.

“Se o leitor puder imaginar um final diferente para essa história, como o Saci disputando as Paralimpíadas, o trabalho está feito”, afirma.

A fala de Keula resume parte do encontro entre as duas academias. Enquanto a acessibilidade amplia o número de pessoas que podem chegar aos livros, a valorização de novos autores abre espaço para que mais histórias sejam contadas. A parceria entre AIAB e ALETRAS junta essas duas frentes e transforma o Estande 70 em um espaço de inclusão, representatividade e descentralização cultural.

Escritoras e representantes da AIAB e da ALETRAS durante a 6ª Bienal Internacional do Livro de Brasília.

Entre as visitantes, estava Stefany, de 33 anos, mãe de Louise, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para ela, a presença da Bienal em uma região de fácil acesso amplia as possibilidades de famílias que nem sempre conseguem chegar a outros espaços culturais.

“É super importante, né? Imagina pra quem não tem condição nenhuma? (…) Mas tá aqui do lado da rodoviária, vem dar uma volta e acaba descobrindo um universo de coisas que normalmente a pessoa não teria acesso”, conta.

Enquanto a mãe falava, Louise também participou da entrevista e disse ao microfone que tinha gostado do estande e dos bonequinhos para brincar. Em poucos segundos, a fala da criança deu sentido concreto ao que a AIAB, ALETRAS e a Bienal propõem: tornar a literatura e a cultura mais próximas, acessíveis e acolhedoras.

A discussão também ultrapassa os limites do estande. Durante a programação da Bienal, a escritora Fernanda Boaventura palestra sobre seu novo livro, Ser ou Não Ter, em que compartilha experiências de sua trajetória como pessoa com deficiência.

Ao falar sobre inclusão, diversidade e vida, a autora transforma a própria vivência em narrativa e reforça que a literatura inclusiva também está nas histórias que ganham voz.

Fernanda Boaventura palestra na 6ª edição da Bienal Internacional do Livro de Brasília (BiLB).

Mais do que apresentar livros, o espaço propõe uma mudança de olhar. Seja pelo Braille, pelo áudio, pelos fantoches ou pela oportunidade de um novo escritor encontrar seu público, a literatura apresentada na Bienal rompe barreiras e amplia horizontes.

No Estande 70, “Ler o Amanhã” ganha um significado simples e necessário: imaginar um futuro em que ninguém precise ficar de fora da história.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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