Aos quase seis anos, a narradora de Apneia deixa Brasília após a morte do pai. A mudança marca o início de uma infância distante da cidade onde nasceu e de uma história familiar cheia de conflitos. Anos depois, essas lembranças ganham espaço no primeiro romance da escritora e artista plástica Esther Faingold, que apresenta a obra ao público brasiliense no dia 4 de novembro, às 19h, na Livraria Platô. O encontro terá a participação de Regina Dalcastagnè, professora e pesquisadora de literatura brasileira da Universidade de Brasília (UnB).
No livro, a personagem escreve para a filha com o objetivo de contar como era sua vida antes de se tornar mãe. Ao recuperar lembranças da infância e de sua família, ela tenta explicar acontecimentos que marcaram sua trajetória e que também fazem parte da história das gerações anteriores.
A inspiração para essa forma de contar a história veio de Glikl, uma comerciante judia de Hamburgo que, em 1691, começou a escrever suas memórias para os 12 filhos após ficar viúva. Os textos eram uma maneira de deixar aos descendentes o registro de sua vida. A história chamou a atenção de Faingold pela possibilidade de uma mãe contar aos filhos quem foi antes de eles nascerem. “O romance nasceu desse ofício antigo, uma mulher escreve para que alguém, mais tarde, saiba quem ela foi”, explica a autora.

Na história, a relação entre mãe e filha também aparece quando a menina precisa falar sobre as tradições de sua família em uma atividade escolar. Ao ser questionada sobre os costumes de casa, ela afirma que não existe nenhuma tradição familiar. A resposta incomoda a mãe, que percebe como a filha desconhece parte de sua história.
O que fica preso na memória
O título Apneia faz referência à falta de ar, mas também ao esforço de guardar sentimentos e lembranças. Quando criança, a narradora costumava ficar no quarto com o irmão durante as brigas dos avós. Os dois permaneciam em silêncio, tentando não fazer barulho enquanto ouviam as discussões.
Na vida adulta, já em Nova York, a personagem passa a nadar com frequência e tenta descobrir quanto tempo consegue ficar sem respirar. A experiência na água se relaciona às lembranças da infância e à dificuldade de lidar com situações que marcaram sua família. “Há famílias que passam gerações assim”, observa Faingold.
A morte do pai também é um dos acontecimentos que acompanham a personagem. Como era muito pequena quando ele morreu, parte do que sabe sobre o episódio veio dos relatos dos familiares. As histórias que ouviu fizeram com que ela carregasse um sentimento de culpa desde a infância.

Brasília entre lembranças e ausências
Brasília tem um papel importante na história. A personagem nasceu na Asa Sul, mas deixou a cidade ainda criança e passou a conhecer parte de seu passado pelas lembranças e relatos de outras pessoas.
Ao falar sobre a capital no romance, Faingold lembra a visita da escritora francesa Simone de Beauvoir, em 1960. Na ocasião, ela questionou se Brasília conseguiria desenvolver uma vida urbana própria. A autora apresenta outro olhar sobre a cidade e destaca os nomes populares dados pelos moradores a algumas áreas comerciais das superquadras, como Rua das Farmácias, Rua da Moda e Rua dos Restaurantes.
A escolha da Livraria Platô, na 405 Sul, também tem relação com essa ideia de convivência. Para Faingold, o espaço representa um ponto de encontro em uma cidade que muitas vezes é criticada pela falta de esquinas e lugares de circulação entre moradores. A escritora lembra uma frase da livreira Marilia Santos, publicada anteriormente pelo Jornal de Brasília: “Brasília tem esquina, sim. E a Platô é uma delas”.
A distância da cidade também aparece na relação da narradora com a filha, que cresce em Nova York sem conhecer muito da cultura brasileira. A mãe se questiona por não ter apresentado à menina paisagens e elementos do país, como o cerrado, o agreste e as primeiras chuvas que chegam depois do período de seca.
Literatura como encontro de histórias
A participação de Regina Dalcastagnè no encontro propõe uma conversa sobre as diferentes histórias e experiências presentes na literatura brasileira. Professora e pesquisadora da UnB, ela estuda a produção literária e a maneira como questões sociais aparecem nas obras.
Uma das referências lembradas por Faingold é o escritor Samuel Rawet, nascido na Polônia e radicado no Brasil desde a infância. Judeu, ele trabalhou como engenheiro durante a construção de Brasília e publicou, em 1956, Contos do imigrante, obra que aborda experiências de pessoas que deixam seus lugares de origem e precisam construir uma nova vida.
Ao apresentar Apneia em Brasília, Esther Faingold também retoma sua própria ligação com a cidade. No romance, a personagem deixa a capital ainda criança levando um livro nas mãos. Agora, a escritora retorna para apresentar uma história que revisita as lembranças e os acontecimentos que marcaram sua trajetória.
SERVIÇO
Lançamento e conversa sobre o livro Apneia, de Esther Faingold
Data: 4 de novembro
Horário: 19h
Local: Livraria Platô, 405 Sul, Brasília
Participação: Regina Dalcastagnè, pesquisadora e professora de literatura brasileira da UnB.