Um dos pioneiros no estudos oníricos, Sigmund Freud nos ensinou que os sonhos, dentro da premissa psicanalítica, tem provado ser importante ferramenta de criação artística. Vários segmentos da arte têm se apropriado desse recurso.
No cinema, por exemplo, a referência mais forte é do seminal O Cão Andaluz (1929), um dos primeiros filmes do cineasta espanhol Luís Buñuel, realizado em parceria com o pintor Salvador Dalí. Exemplo máximo do experimentalismo surreal na sétima arte, a fita é uma colagem oníricas de cenas metafóricas.
Livro lançado recentemente pelo psicólogo mineiro Nelson Job, A Ontologia Onírica se propõe a desvendar os caminhos entre sonhos e criação artística a partir de embasamento acadêmico. O resultado tem despertado interesse entusiasmado de quem mergulhou fundo na leitura.
“Tenho me surpreendido com o relato de quem está lendo e aproveitando o livro”, comenta o autor. “Ele, definitivamente, não está restrito ao meio acadêmico, ainda que seja necessário certo esforço para apreendê-lo. Espero que o livro crie seu público, que eu não sei exatamente onde está ou como é”, defende.
A ideia de escrever a obra nasceu de uma guerra de imaginários travada entre o acadêmico e seu sobrinho de cinco anos quando a existência dos super-heróis Batman e Superman estava sendo colocada em cheque.
Para o autor, “a imaginação/sonho não pode ser encarada com um sentido pré-definido, mas pode servir de munição para o leitor expandir as experiências no dia a dia”.
Repleto de referências culturais
“Tanto na conversa com o meu sobrinho, como no livro como um todo, proponho enfraquecer a radicalidade do modelo iluminista – que está desgastado – resgatando algo dos saberes antigos”, observa.
Para nortear o leitor, o autor foi buscar referências em vários campos da cultura para construir seu conceito de ontologia onírica. Alice no País das Maravilhas (de Lewis Carrol) e Grandes Sertões (Guimarães Rosa), na literatura; Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Andy Kaufman) e A Origem (Christopher Nolan); além dos traços abstratos de Jack Polock.
“Há diversos exemplos, não só na arte, mas também na ciência. Porém, na psicanálise, o sonho não é concebido enquanto uma ‘realidade em si’, mas algo que deve ser interpretado, que esconde um significado inconsciente recalcado”, aprofunda.
Obras relacionadas
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças – Com roteiro do prestigiado roteirista Charlie Kaufman, o filme se passa todo na cabeça do personagem de Jim Carrey, confundindo o espectador com uma inteligente fusão entre a realidade do filme e as fantasias do protagonista. A discussão entre passado e memória é pertinente.
A Origem – Um dos filmes mais estranhos dos últimos tempos, cortesia de Christopher Nolan, diretor da trilogia Batman. A obra entorta a cabeça do espectador com a história de ladrões e incubadores de sonhos. “Isso te dá a habilidade de acessar o inconsciente de alguém”, explicaria o cineasta na época.
Alice no País das Maravilhas – Repleto de sátiras e paródias ao sistema britânico, e também aos inimigos do escritor Lewis Carroll, o livro é uma fábula repleta de alegorias fantásticas com criaturas bizarras e cenários inusitados. O que impera aqui é a lógica do absurdo, uma das facetas dos sonhos.
Sonho Causado pelo Voo de Uma Abelha ao Redor de Uma Romã Um Segundo Antes de Acordar – De todas as vertentes do sonho, o surrealismo é a vertente onírica mais extravagante. O espanhol Salvador Dali foi seu expoente maior com pinturas de impacto singular, a exemplo dessa tela de 1944.
Yesterday – Uma das canções mais famosas do século 20 nasceu de um fluxo do inconsciente. Foi quando uma bela manhã Paul McCartney acordou com uma melodia na cabeça e correu para registrar os acordes no piano. Com vontade de comer ovos mexidos no café da manhã a chamou provisoriamente de Ovos Mexidos.
