Aconteceu ontem (20), o II Encontro de Lideranças Quilombolas na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, na vila de São Jorge/GO. Na ocasião esteve presente o representante da Secretaria de Cultura Estadual, João Luis Prestes, a Superintendente da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), Raimunda Montelo Gomes, e lideranças de comunidades Quilombolas. O Encontro de Lideranças foi também uma Pré Conferência Regional de Igualdade Racial que elegeu 10 delegados para a conferência estadual, que deve ocorrer entre os dias 12 e 14 de setembro, em Goiânia, sob o tema “Democracia e Desenvolvimento”.
Participaram da plenária cerca de 80 pessoas que discutiram projetos de inclusão e igualdade racial. Em especial a população Kalunga, a maior comunidade remanescente quilombola do país, que destacou as dificuldades enfrentadas. Para eles um dos principais problemas que precisa ser solucionado é a falta dos documentos oficializando as posses das terras em que vivem e a viabilização de recursos que os garantam direitos básicos como: educação, energia, saúde, esgoto e água encanada.
Kalunga é uma comunidade de negros, originalmente formada por descendentes de escravos fugidos que formaram quilombos ao norte da região que hoje é conhecida como Chapada dos Veadeiros. Por anos esse grupo viveu no esquecimento, escondendo-se dos antigos donos. Depois da definitiva abolição da escravatura esse grupo formou pequenas comunidades nessa área. O grande problema é que essas comunidades ficaram isoladas do mundo exterior que continuava em franco desenvolvimento resultando em comunidades sem representação política e com graves problemas de infra-estrutura, saúde e educação.
Hoje essas comunidades são extremamente pobres e sofrem com as desigualdades sociais. À frente da luta por mais aparatos estão pessoas simples que embora tenham dificuldades em entender complexas organizações administrativas sabem que além de Kalungas, são cidadãos brasileiros e o caminho para as conquistas é a pressão social e a persistência.
Dona Procópia dos Santos Rosa, 80, é uma das muitas lideranças femininas dos Kalunga. Filha de Manoel Pereira e Maria dos Santos, a provocadora que foi em 2005 uma das 52 brasileiras indicadas ao prêmio Oscar da Paz, nasceu em terras Kalunga na comunidade Monte Alegre, por anos viveu sem conhecer o que tinha depois das Serras. Ela até tinha notícia dos avanços tecnológicos e dos benefícios dos municípios vizinhos, mas não entendia porque aquilo não chegava à sua comunidade.
Foi com 60 anos que Dona Procópia saiu de Monte Alegre pela primeira vez para reivindicar escolas, asfalto e energia na capital do estado, Goiânia. “Todos pensavam que era besteira, eu e uma velha amiga a Santinha, já falecida, fomos as únicas que tivemos coragem, e deu certo viu.” –explica Dona Procópia que saiu vitoriosa do Palácio do Governo, levando para sua comunidade escola e energia.
“Mas, ainda não tô satisfeita não viu?! Ainda falta muito! A gente precisa de asfalto, água tratada, e não desses programinhas de pesca e criação de horta. Mas tâmo no caminho. Se Deus abençoar eu ainda arranjo alguém pra continuar nessa luta minha, porque os Kalunga não pode acabar!”- Completou Procópia que incentiva a comunidade a se interessar pelas discussões políticas por acreditar que a cultura Kalunga só continuará viva se permanecerem unidos.
Os Kalungas de “Vão das Almas”
Nem todas as comunidades remanescentes dos quilombolas tiveram a mesma sorte. A comunidade “Vão das Almas”, localizada no município de Cavalcante, por exemplo, até hoje não possui energia em todas as casas, além de não ter asfalto nem esgoto para as famílias que moram ali. Essa foi mais uma das reivindicações feita por outra líder Kalunga, Natalina dos Santos Rosa, ou como é conhecida Dona Daíndia.
“É verdade lá em Vão das Almas ta faltando coisa demais! E nóis, os Kalunga, precisamos cuidar de todos. Falta energia, esgoto, água. A única coisa que tem é escola e isso num é o bastante. Nós temos direitos. Precisamos lutar por isso.”
“Dona” Procópia, “Seu” Neco, Calixto, kalungas de “Vão das Almas”, também se reuniram a outros quilombolas para discutir políticas públicas voltadas aos povos tradicionais.
O povo kalunga de “Vão de Almas” é conhecido por viver em região remota, de difícil acesso. Após uma recente divisão do grupo, os membros liderados por Procópia – célebre representante de 84 anos –, estão localizados em Uruçu, região de Tocantins. Segundo os moradores, é difícil viver no local. “Sem energia elétrica, saneamento básico e estradas a gente fica sem acesso às coisas”, confessa Calixto Santos.
Participando do debate, José Dulcino, músico de 44 anos, expressa a importância de conhecer sua origem e participar ativamente das melhorias em sua comunidade. “Ainda bem que trabalho na produção dos eventos. Posso conhecer mais o meu povo. Aqui tá todo mundo reunido: Comunidade de Monte Alegre, Teresina, Diadema…”, acrescenta. Para José, a participação de seu povo na discussão de políticas públicas é algo importante.
Lucilene Rabelo, uma das organizadoras do evento, apresenta sua trajetória através de sua interação profissional. “Tive que sair da comunidade para fazer segundo grau e fui para Cavalcante. Me formei em Turismo, trabalhei no Sebrae, em Goiânia, promovendo a cultura. Em 2009, fui convidada pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial para trabalhar com os Kalunga”, explica.
Todas as reivindicações discutidas no Encontro foram transformadas em propostas que serão apresentadas na Conferência Estadual de Igualdade Racial.
Kalunga, a maior comunidade quilombola do Brasil
A maior comunidade quilombola do Brasil em extensão territorial, atualmente é a Kalunga. O Sítio Histórico do Patrimônio Cultural Kalunga fica em Cavalcante-GO. Distante da cidade, os habitantes são encontrados nas regiões de Vão de Almas, Vão do Moleque, Ribeirão dos Bois e Contenda.
Ainda hoje, às 20hs, acontece a Procissão e Levantamento do Mastro do Divino Espírito Santo da Comunidade Kalunga com direito a dança da Sussa no pé do mastro. Um ritual típico da etnia. Até o dia 22, o encontro pretende reunir 22 comunidades quilombolas.