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Cinema com ela
Cinema com ela

Hamnet transforma dor e ausência em poesia sobre amor e criação

Com direção de Chloé Zhao, com Jessie Buckley e Paul Mescal no elenco, o filme estreia nesta quinta-feira (15) e apresenta um olhar delicado para perda, memória e legado

Tamires Rodrigues

15/01/2026 5h00

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

O vencedor de Melhor filme de drama no Globo de Ouro deste ano, “Hemnet: A Vida Antes de Hamlet” chega nesta quinta-feira (15), como uma daquelas experiências raras em que o cinema não apenas conta uma história, mas transforma a maneira como encaramos memória, perda e criação artística. Sob a direção delicada e profundamente imagética de Chloé Zhao, o longa mergulha na intimidade de uma família marcada pela tragédia e encontra na arte um caminho possível para que a dor ganhe forma, gesto e permanência.

Desde os primeiros minutos, Zhao guia o olhar do público para Agnes, figura central e silenciosa, que ocupa o mundo com uma intensidade quase espiritual. A câmera a observa com respeito, como se cada respiração carregasse séculos de ancestralidade e presságio. O filme anuncia ali sua escolha narrativa fundamental. Shakespeare pode ser o nome histórico, mas é Agnes quem conduz a nossa travessia.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Ambientada no interior da Inglaterra do século XVI, a narrativa acompanha o encontro entre Agnes e William Shakespeare, ainda um jovem em formação artística. O romance acontece com suavidade, mas já marcado por tensões familiares e sociais. Dessa união nascem três filhos, e com eles a promessa de um cotidiano que, apesar das dificuldades, parece seguro o suficiente para abrigar afetos sinceros.

Quando a tragédia atinge o pequeno Hamnet, o longa abandona qualquer ilusão de estabilidade. A dor que se instala na casa não é um evento isolado, mas um terremoto silencioso que desestrutura relações, expectativas e certezas. Agnes se recolhe ao próprio silêncio. Shakespeare canaliza a perda para o teatro. Os dois caminham em direções opostas, ainda que unidos pelo mesmo abismo.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

O que impressiona é como Zhao escolhe tratar o luto com uma honestidade quase crua, mas jamais apelativa. Nada soa forçado. Nada soa calculado. O sofrimento que vemos em cena se constrói a partir de gestos contidos, olhares quebrados e pequenos rituais que revelam o abalo interno das personagens. A empatia nasce disso. Do reconhecimento da vulnerabilidade humana.

A fotografia de Lukasz Zal funciona como extensão emocional desse universo. Cores intensas convivem com sombras delicadas e composições que parecem pintadas à mão. A sequência final é de uma beleza que ultrapassa o tempo. Cada quadro poderia ser emoldurado, mas permanece vivo justamente porque carrega movimento e despedida.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

As interpretações ajudam a sustentar essa densidade. Jessie Buckley constrói Agnes com profundidade rara, oscilando entre força e fragilidade sem jamais exagerar. A maternidade, o trauma e a perda atravessam o corpo da personagem, e a atriz entrega tudo com verdade e precisão. É uma performance que permanece na memória muito depois do fim da sessão.

Paul Mescal também se destaca ao humanizar Shakespeare. O dramaturgo surge menos como mito e mais como homem em conflito com o próprio silêncio. Seus momentos de ruptura emocionam porque revelam aquilo que esteve represado por tanto tempo. A criação artística aparece, então, não como glória, mas como recurso de sobrevivência.

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Foto: Divulgação/Universal Pictures

Mais do que um filme de época, “Hamnet” fala sobre algo profundamente contemporâneo. A tentativa de compreender o que fazer com as ausências. O roteiro encontra poesia justamente na relação entre o que se perde e o que permanece. A arte surge como ponte. Não resolve. Não consola por completo. Mas dá forma ao indizível.

Conclusão

No fim, o longa produzido por Steven Spielberg e Sam Mendes se firma como uma obra sobre amor, memória e transmissão. “Hamnet” não é apenas uma leitura ficcional sobre a origem de um clássico teatral. É uma reflexão delicada sobre como transformamos a dor em permanência. E sobre como, em algum lugar entre a página e o palco, a vida insiste em continuar existindo.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção:
Chloé Zhao;
Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell (baseado no livro homônimo de O’Farrell);
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe;
Gênero: Drama, História, Biografia;
Duração: 125 minutos;
Distribuição: Universal Pictures;
Classificação indicativa: 18 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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