Lúcio Flávio
Especial para o Jornal de Brasília
No começo dos anos 2000, o jornalista e documentarista Evaldo Mocarzel tinha ideia para um filme e levou o roteiro do que viria a ser o premiadíssimo À Margem da Imagem para avaliação de Eduardo Coutinho, já consagrado como o Papa do cinema documental nacional. O encontro foi na Rio Filmes. Conhecido pelo mau humor desconcertante, foi logo desarmando o entusiasmo do novato cineasta.
“Documentário não pode ter roteiro, joga isso no lixo”, aconselhou, com sinceridade pragmática, arrematando: “Cinema é linguagem”, ensinou. “Foi uma lição e tanto, o Coutinho foi um mestre que criou um método de fazer documentário calcado na palavra”, lembrou Mocarzel, em entrevista ao Jornal de Brasília.
Para Mocarzel, ao lado de Sérgio Muniz, João Pedro de Andrade e Vladimir Carvalho, ele formava o quarteto seminal do documentário no Brasil: “Foi uma perda absurda, ainda estou tentando entender essa tragédia shakespeariana da qual ele foi vítima”.
Emoção
Amigo de Coutinho desde os tempos de realização do icônico Cabra Marcado Para Morrer, o documentarista paraibano Vladimir Carvalho, radicado em Brasília desde os anos 70, bastante emocionado, não teve palavras para homenagear o colega.
“Os dois se conheciam havia muito tempo, desde a época do Cabra… ele está arrasado”, comentou a professora e escritora Lucília Garcez, mulher do diretor de filmes como Conterrâneos Velhos de Guerra.
Na época aluno de jornalismo da Universidade Católica de Brasília, Iberê Carvalho, hoje diretor de curtas-metragens finalizando seu primeiro longa, lembra do dia em que ele e um grupo de amigos, coordenados pelo então professor de Audiovisual, Mauro Giuntini, fizeram entrevista histórica com Coutinho. “Éramos estudantes de jornalismo, mas queríamos fazer cinema”, conta Iberê. “Logo na primeira resposta, Coutinho nos revelou seu famoso mau humor: ‘Por que eu faço cinema? Sei lá, p! Vai perguntar para meu analista’”, recorda.
O susto inicial foi abrandando, na sequência, com uma resposta profunda, inteligente e instigadora. “E assim foi durante quase uma hora de bate-papo. Uma aula! Das mais importantes e reveladoras que já tive”, confidencia.
Previsão das próximas estreias
Março
Os Últimos Cangaceiros , de Wolney Oliveira. Sinopse: Durvinha e Moreno, cangaceiros do bando de Lampião, esconderam suas verdadeiras identidades da família, até que ele, com 95 anos, decide revelar toda a história para os filhos e reencontrar seus parentes. Duração: a definir. Classificação: a definir.
Galáxias , de Fabiano Maciel. Sinopse: A história de pessoas que amam os livros. Duração: a definir. Classificação: a definir.
Abril
Tim Lopes – História de Arcanjo, de Guilherme Azevedo. Sinopse: A trajetória do jornalista Tim Lopes contada pelo ponto de vista de seu filho, dez anos depois de sua morte. Duração: 84 min. Classificação: a definir.
Conversa com JH , de Ernesto Rodrigues. Sinopse: A reação do ex-presidente da CBF e ex-presidente de honra da FIFA João Havelange com relação à publicação da sua biografia. Duração: a definir. Classificação: a definir.
Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar. Sinopse: Um jovem cineasta mergulha no passado quase desconhecido de seu pai, um intelectual preso e torturado pela ditadura militar. Duração: a definir. Classificação: a definir.
Maio
Olho Nu , de Joel Pizzini. Sinopse: Filme-ensaio sobre a vida do cantor Ney Matogrosso. Duração: a definir. Classificação: a definir.
Reserva de dignidade do cine nacional
Documentarista de filmes premiados como 500 Almas e Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, Joel Pizzini, que lançará filme neste ano, pertence à geração de Evaldo Mocarzel e diz que Eduardo Coutinho se tornou um mito ainda em vida por encarnar a reserva de dignidade que o cinema brasileiro foi perdendo ao longo do tempo. Mais do que isso, pela postura admirável, quase solitária, na contracorrente do cinema de resultados. Contraditoriamente, boa parte do interesse das novas gerações pelo gênero documentário se deve à entrega desse mestre do cinema documental.
Legado
“Coutinho é um personagem único, um caráter missionário, romântico, que se expressava em seus filmes e em suas opiniões intransigentes”, observa Pizzini, que identifica influências do mestre no futuro do gênero. “Fica um legado e um método muito pessoal que já aponta vários diluidores. Ele perseguia perguntas, como ninguém.”
“Foi um cineasta à frente do seu tempo, celebrando lá atrás o cinema digital. Na verdade, ele renasceu com o digital”, constata o agora professor de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), Mauro Giuntini.
Os Últimos Cangaceiros
Premiado no Brasil e no exterior, o longa Os Últimos Cangaceiros fala de um casal que escondeu sua identidade até da própria família. Os filhos cresceram acreditando que eles se chamavam Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, nomes falsos sob os quais haviam reconstruído suas vidas. Durvinha e Moreno fizeram parte do bando de Lampião, o mais controverso líder do cangaço. A verdade só é revelada quando Moreno, então com 95 anos, resolveu dividir com os filhos o peso das lembranças e reencontrar parentes vivos, como seu primeiro filho.