Lúcio Flávio
*Especial para o Jornal de Brasília
Numa vibe meio beatnik, em meados de 1999 e 2000, Fernando Brasil botou o mochilão nas costas e saiu lá em Londres. A ideia inicial era trabalhar como jornalista na capital londrina, mas o jornal que o contratou faliu. Sem se abalar, colocou o violão nas costas e foi ganhar a vida como busking (artista de rua). Não demorou muito e logo estava enturmado com a cena independente local de compositores. O passo seguinte era cair na estrada e as turnês foram surgindo.
“Quando vi, estava num esquema de cinco meses de shows na Grécia com um parceiro sueco”, lembra. “Aprendi muito porque tocava todos os dias, era meio Beatles em Hamburgo, ajudou a talhar o artista”, compara, brincando.
De volta ao Brasil, o artista deu início ao projeto Phonopop. Formada com os amigos Ju, na guitarra; Bruno Daher, na bateria; e Daniel Cariello, nos teclados (ex-integrante), a banda norteada por pegada britpop logo chamou atenção da imprensa especializada. Com a gravação do primeiro disco em 2005, Já Não Há Tempo, um pequeno fã clube se formou na cidade. Quase uma década depois, um segundo álbum gravado com o grupo, Film (2013), Fernando Brasil embarca agora num novo projeto solo.
Despretensioso
Já disponível na internet (reverbnation.com/johnnynit), The Johnny Nit Circus traz na essência reflexos de seus tempos de artista folk na Inglaterra. O nome circense foi tirado da página online sobre música que o cantor escrevia, Blog do João Lêndea. “Esse projeto nasceu da necessidade de liberar mais músicas que não cabiam na banda. É algo bem despretensioso, uma espécie de válvula de escape”, explica. “E tinha também uma cobrança dos amigos: ‘poxa, você canta tão bem em inglês, poderia fazer alguma coisa assim’”, relembra.
Desenvolvido desde 2011, mas só agora colocado em prática em sua plenitude, The Johnny Nit Circus é intimista e tocante, surpreendendo pela produção simples, mas muito bem cuidada. Uma cortesia do produtor AMU, velho amigo dos tempos de Brasília. As cinco faixas cantadas em inglês foram gravadas num processo bem diferente. “Cada canção traz músicos diferentes convidados, o que acabou criando certa unidade, sem ter unidade”, observa Fernando, que contou com nove músicos ao longo de todo o processo.
Repertório com influência de Dylan e Lennon
A base sonora do EP online é calcada no folk americano que Fernando Brasil estudou a fundo. O ponto de partida, claro, foi o mestre Bob Dylan. O britânico Donovan e bandas como The Byrds e The Band, entre outros artistas, foram referências.
Algumas faixas foram resgatadas dos tempos de Londres, como é o caso de Spring Coming By, pontuada por gaita comovente. Outras composições guardam o frescor dos dias atuais, a exemplo de Dreamscape, com forte influencia de John Lennon. Já Killing Words conta com traços autobiográficos.
O ponto alto de The Johnny Nit Circus inegavelmente é Heavy Silent, de uma delicadeza ímpar. O clipe da música, gravado em São Paulo, está disponível no site reverbnation.com/johnnynit.
Saiba mais