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Viva

Filosofia escancarada

Arquivo Geral

04/08/2013 16h00

O filósofo Martin Heidegger foi fundamental ao existencialismo, encarava o ato de pensar como uma atenção à linguagem. Pensamos em português, de fato, e é sabido que os idiomas influenciam nossa cognição, sendo mais ou menos propícios ao raciocínio complexo. Essa importância transcendente das palavras fez Heidegger assumir, numa segunda fase de sua vida, um olhar mais poético.

 

A filosofia não era mais suficiente, pois a poesia (ou a literatura, ou mesmo a arte em geral) seria mais rica e profunda, não se restringindo à troca racional de ideias. A obra de arte, segundo ele, tem sua origem naquele acontecimento que por ela ocorre, o acontecimento da verdade.

 

É por isso que ler o romance de estreia de Thaisa Frank, Os Óculos de Heidegger (Intrínseca, 2013), é uma experiência que vai além do envolvimento com um enredo instigante e bem trabalhado. É possível filosofar por meio da literatura, sem conceitos entediantes ou abstrações longínquas. E a certeza da veracidade de alguns pontos de partida da narrativa concretiza em nós o pensamento do próprio Heidegger, escancarando a verdade que origina a arte e que, ao mesmo tempo, é por ela originada.

 

Operação Postal

 

O Holocausto existiu, por mais inacreditável que seja (não há espaço aqui para comentar as possíveis inclinações nazistas do próprio Heidegger). E a Operação Postal também, obrigando judeus poliglotas aprisionados a responderem e escreverem cartas aos que ainda estavam livres: “Você não deve acreditar no que as pessoas dizem. Este lugar é bom, e se você receber esta carta, só posso lhe pedir que venha. Traga a mamãe e o papai. Por favor, traga todos. Com amor…”.

 

Quando não estavam chorando a sorte dos destinatários, os chamados escribas se divertiam, por exemplo, “procurando a melhor palavra para ‘pão’ nos diferentes idiomas”: “A melhor é pain, basta dizê-la para ver uma baguete com manteiga. “Brot” é melhor, eu a pronuncio e vejo uma sopa à minha frente” (novamente a importância da língua para o pensamento).

 

Trama

 

De repente, então, surgiu uma carta de Martin Heidegger ao seu amigo e oculista Asher Englehardt, e os escribas tiveram que responder de modo a ocultar o que se passava. Essa é a brilhante trama do livro. E é possível revelar um pensamento final de Asher sem comprometer a curiosidade do futuro leitor: a filosofia não passa de “uma série infinda de argumentos inventados”.

 

Quando a neta dele experimentou os óculos de Heidegger, empoeirados em um baú, “ela viu o mundo se transformar num borrão, num lugar sem contornos distintos, e seu avô lhe disse para tirá-los”. Vale a pena ler o livro, enfim, mas é preciso ter coragem para usar os óculos filosóficos da literatura.

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