Brasília recebe hoje a exposição Corpo-coisa-planta-bicho, que propõe um olhar sensível e reflexivo sobre as delimitações, muitas vezes instáveis, entre o humano, o animal, o vegetal e o objeto. Com obras dos artistas Isabel Se Oh e Rodrigo Machado, a mostra transforma o barro em linguagem crítica e poética, convidando o público a uma experiência que vai além da contemplação estética.
A exposição abre ao público hoje, às 19h, na galeria A Pilastra, com a presença das curadoras e dos artistas para um brinde inaugural. A visitação segue até fevereiro, de quarta a sábado, das 14h às 19h, com entrada gratuita. Durante todo o período, monitoras acompanham os visitantes, ampliando o diálogo com as obras.

Segundo a curadora Gisele Lima, a materialidade é o ponto de partida, mas não o destino da exposição. “A materialidade é o ponto de partida da exposição, mas não seu destino. Corpo-coisa-planta-bicho propõe uma reflexão sensível sobre as fronteiras, porosas e instáveis, entre corpo e objeto, entre o reino animal e o vegetal, entre aquilo que é natureza e aquilo que se torna cultura pelas mãos humanas”, afirma.
A escolha dos artistas reforça essa investigação. Isabel Se Oh, nascida no Rio Grande do Sul, filha de imigrantes coreanos e atualmente radicada em Brasília, desenvolve uma pesquisa marcada pela cerâmica e pela porcelana, explorando narrativas internas de tempo e espaço. Seus trabalhos abordam temas como espera, resiliência, convalescença e luto, resgatando memórias pessoais e coletivas em uma abordagem delicada e autobiográfica.

Já Rodrigo Machado, natural de Sobradinho (DF), traz para a cerâmica uma trajetória pouco convencional. Após quase 25 anos atuando como assessor de imprensa cultural, o artista construiu uma prática intuitiva e investigativa, na qual o barro assume papel central no processo criativo. Suas formas orgânicas e exuberantes recusam limites técnicos rígidos e provocam o olhar do espectador por meio do estranhamento e da transformação contínua.
Para Gisele Lima, o encontro entre os dois artistas acontece justamente na forma como ambos se relacionam com a matéria. “Em suas pesquisas, o barro deixa de ser apenas suporte e se torna pensamento. Isabel opera a partir de uma poética do gesto, acessando camadas sensíveis ligadas ao corpo, à memória e ao inconsciente. Rodrigo, por sua vez, constrói formas orgânicas e exuberantes que tensionam a ideia de corpo e de natureza, sugerindo estados de transformação contínua”, explica.

Instalada na galeria A Pilastra, localizada em uma área periférica da cidade, a exposição também assume um posicionamento político ao defender a descentralização do acesso à arte contemporânea. A curadoria aposta na ocupação de diferentes territórios como forma de romper com a noção de que a produção artística de qualidade deve se restringir a espaços tradicionais ou centrais, ampliando o alcance e o impacto cultural da mostra.
Ao questionar a separação histórica entre artesanato e arte, Corpo-coisa-planta-bicho apresenta a cerâmica como suporte legítimo de discurso crítico. As esculturas, que dialogam com a instalação, destacam o processo manual, lento e imprevisível do barro como contraponto ao ritmo acelerado e digital da vida contemporânea, reconectando o espectador a noções de tempo, ancestralidade e presença.

Serviço:
Corpo-coisa-planta-bicho
Local: A Pilastra, Guará II – QE 40 Rua 09 Lote 8
Abertura: hoje, 29 de janeiro, quinta-feira, às 19h
Visitação: de quarta a sábado, das 14h às 19h
Entrada franca e livre para todos os públicos