Uma cicatriz pode contar uma história sem dizer uma palavra. Na exposição fotográfica “Cicatrizes”, as marcas deixadas pelo câncer de mama aparecem como parte de trajetórias atravessadas pelo medo, pelas mudanças no corpo, pelas perdas e, também, pela possibilidade de recomeçar. A mostra reúne 11 mulheres e um homem que passaram pelo diagnóstico e pelo tratamento da doença e chega ao Distrito Federal durante o Outubro Rosa.
Promovida pela Recomeçar, Associação de Mulheres Mastectomizadas de Brasília, a exposição chega à sua décima edição justamente no ano em que a entidade completa 15 anos de atuação. As fotografias serão apresentadas na Câmara Legislativa do Distrito Federal, de 5 a 31 de outubro, e no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, de 15 a 30 de outubro.
A proposta é mostrar o que existe por trás delas. Para Joana Jeker dos Anjos, presidente da Recomeçar, as cicatrizes também estão relacionadas a sentimentos que não podem ser vistos em uma fotografia. “A ideia nasceu da vontade de revelar, por meio da fotografia, as cicatrizes que fazem parte da vida de quem enfrentou o câncer. São marcas físicas, mas também marcas invisíveis, inscritas na memória, nas emoções, nos medos, nas perdas e nas transformações vividas ao longo dessa jornada”, explica.
Histórias diferentes diante de uma mesma doença
Entre os participantes estão pessoas de idades e histórias distintas. Arminda Abrantes, de 82 anos, encontrou apoio na filha e na fé durante o tratamento. Bruna Furlan, de 25, recebeu o diagnóstico aos 24 anos e passou por quimioterapia, mastectomia e radioterapia. Já Pedro Mascarenhas, de 45 anos, descobriu que também poderia desenvolver câncer de mama, uma informação que, segundo a associação, ainda é desconhecida por muitas pessoas.
A presença de Pedro também amplia a discussão proposta pela exposição. Embora seja raro, o câncer de mama também pode atingir homens. Para a Recomeçar, incluir essa história ajuda a mostrar que a atenção aos sinais da doença e o acesso ao diagnóstico não devem ser associados somente ao público feminino.
As experiências são diferentes, mas existe um ponto de encontro entre elas, a necessidade de seguir depois do diagnóstico. Algumas pessoas convivem com o medo de uma nova doença, outras precisam reconstruir a relação com o próprio corpo ou lidar com perdas que aconteceram durante o tratamento. “São pessoas de diferentes idades e trajetórias, com diagnósticos, tratamentos e desfechos diferentes, mas que carregam marcas que vão muito além do corpo”, afirma Joana.
Quando o tratamento termina, outra etapa começa
A fotografia também abre espaço para uma discussão que nem sempre aparece quando se fala sobre câncer, que é o que acontece depois do tratamento. A cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia podem terminar, mas as consequências da experiência continuam presentes na rotina de muitas pessoas.
A mastectomia, por exemplo, pode mudar a forma como uma mulher se reconhece diante do espelho. Há ainda sentimentos que não ficam visíveis, como o medo de a doença voltar, a insegurança e as lembranças do período de tratamento. Para Joana, falar sobre essas marcas também é uma forma de acolhimento. “Não há um único jeito de viver o pós-câncer. Cicatrizes não precisam ser motivo de vergonha. Elas fazem parte da história de cada pessoa e podem também representar sobrevivência, resistência e recomeço”, diz.
Além da exposição, a campanha da Recomeçar foi planejada para ocupar espaços diferentes da capital. Na Rodoviária do Plano Piloto, entre 7 e 16 de outubro, haverá um estande com orientações sobre sinais de alerta, fatores de risco e acesso aos serviços de saúde. A programação também inclui ações educativas em uma escola e em uma unidade básica de saúde de Ceilândia.
A ideia é levar a conversa para além dos espaços tradicionalmente ligados à saúde. Nas escolas, a associação pretende abordar saúde e autocuidado. Nas unidades de saúde, o foco está nos sinais, sintomas e na busca por atendimento. Já no Congresso Nacional, a campanha também pretende chamar atenção para as políticas públicas relacionadas ao enfrentamento da doença.
Informação para reconhecer os sinais
A programação inclui ainda um ato solene no Congresso Nacional, em 13 de outubro, seguido de projeção mapeada nas torres e cúpulas do Congresso. O encerramento da campanha está previsto para 28 de outubro, com uma ação na rampa do Congresso Nacional. Para Joana, ocupar lugares diferentes faz parte da estratégia de fazer a informação chegar a quem nem sempre está procurando por ela. “Informação precisa sair dos ambientes tradicionais e alcançar a população”, afirma.
O movimento também se conecta a uma questão central no enfrentamento do câncer de mama, que é o diagnóstico. No Distrito Federal, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 1.410 novos casos da doença por ano no triênio 2026–2028. No Brasil, são estimados 78.610 casos anuais. Segundo o oncologista Márcio Almeida, do Hospital Brasília e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), identificar a doença no início pode ampliar as possibilidades de tratamento. “Detectar a doença no início pode permitir cirurgias mais conservadoras e, em determinados casos, reduzir a necessidade de tratamentos mais agressivos”, explica.
O especialista também reforça que o rastreamento tem justamente o objetivo de encontrar alterações antes que elas sejam percebidas pela própria paciente. “O rastreamento serve justamente para procurar a doença quando a mulher se sente bem e não percebe nenhuma alteração. Esperar aparecer um caroço pode significar perder a oportunidade de investigar e tratar o câncer mais cedo”, afirma.
Serviço
Exposição “Cicatrizes”
Câmara Legislativa do Distrito Federal
5 a 31 de outubro
Câmara dos Deputados — Salão Nobre
15 a 30 de outubro
Estande de conscientização — Rodoviária do Plano Piloto
7 a 16 de outubro
Piso inferior da Rodoviária do Plano Piloto, próximo à Administração da Rodoviária
Ato solene e projeção mapeada
13 de outubro
Salão Nobre da Câmara dos Deputados
Ação educativa — Centro de Ensino Médio 12 de Ceilândia
23 de outubro
Das 10h às 12h
QNP 13, Área Especial, Setor P Norte — Ceilândia Norte
Ação educativa — UBS 11 Ceilândia
29 de outubro
EQNO 17/18, Área Especial, Expansão do Setor O — Ceilândia
Encerramento do Outubro Rosa
28 de outubro
Rampa do Congresso Nacional