Até 1º de março, o Parque Olhos d’Água torna-se palco de uma experiência artística que propõe uma escuta ampliada da paisagem natural. A instalação imersiva Botânica, criada pelo artista australiano Iain Mott, convida o público a percorrer o parque guiado por uma composição sonora espacializada que se integra ao ambiente, sem alterar visualmente o espaço.
A obra parte da ideia de reconectar tecnologia e natureza de maneira sensível. Em vez de inserir novos elementos visuais, a intervenção se dá de forma quase invisível, ativada pelo deslocamento do visitante. Com fones de ouvido e um sistema de rastreamento por GPS de alta precisão, os participantes acessam camadas sonoras que se revelam conforme caminham pelo parque, criando uma relação direta entre corpo, movimento e escuta.
Durante o percurso, cada visitante carrega uma maleta a tiracolo com os equipamentos necessários e é acompanhado por uma equipe de mediação. Os deslocamentos são captados por um sistema de GPS RTK (Posicionamento Cinemático em Tempo Real), que permite mapear os sons com exatidão no espaço físico. A experiência é complementada por um sistema de rastreamento de cabeça acoplado aos fones, responsável por gerar uma imersão tridimensional que responde aos micromovimentos do usuário.

Para Iain Mott, o uso de tecnologia não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para estabelecer um diálogo com o ambiente. “Embora claramente a hiperconectividade se torne parte da estética, da minha perspectiva, é simplesmente um meio para um fim. Eu de fato preferiria que fosse mais simples alcançar o que desejo fazer, que é criar uma nova forma de composição espacial que interage com o ambiente natural ou aquele de jardins. Então não há necessidade de impor qualquer novo elemento visual a esses espaços, mas sim de criar um diálogo com aquilo que já está lá”, afirma o artista.
A experiência não segue um roteiro fechado. As áreas do parque onde os sons foram mapeados são indicadas pela mediação, mas a forma de exploração é definida por cada participante. “As guias na exposição darão alguma orientação sobre a região do parque onde os sons foram mapeados, mas o percurso, o ritmo e o tempo que cada participante leva para explorar aquela região, fica inteiramente a seu critério. Então sim, a experiência de cada ouvinte será única”, explica Mott.
A dimensão tecnológica da obra também se manifesta na forma como o som responde à orientação do corpo. “Junto com o posicionamento, há um sensor de orientação montado nos fones de ouvido. Isso permite que a paisagem sonora virtual mapeada gire quando o ouvinte vira sua cabeça. Assim, quando um som virtual se torna audível pela primeira vez, o ouvinte pode se virar de frente para o som e caminhar em sua direção se desejar”, detalha.

Desenvolvida a partir de anos de pesquisa em ambisonics, Botânica deriva do projeto Ambisonic Cerrado e utiliza o software de código aberto Mosca, criado pelo próprio artista. Segundo Mott, a inexistência de soluções prontas exigiu a criação de ferramentas específicas para viabilizar a obra. “A base para o projeto é um software que desenvolvi conhecido como Mosca, que é escrito na linguagem de síntese de áudio SuperCollider. Este foi feito para permitir o posicionamento de som no espaço tridimensional e para permitir que um ouvinte virtual se mova dentro desse espaço”, afirma.
A opção pelo código aberto é parte central da prática do artista, que atua também como pesquisador. “Como artista e pesquisador que trabalha com tecnologia, acredito no compartilhamento de conhecimento e das ferramentas de criação artística”, diz. Mott destaca que o Mosca foi disponibilizado como software de código aberto em 2015 e passou a ser aprimorado de forma colaborativa, com contribuições internacionais. “Ao disponibilizar ferramentas para todos, ‘devolve-se’ conhecimento e facilidades para a comunidade artística. Há uma troca”, observa.
Botânica se apresenta como uma “fantasia sonora” inspirada na paisagem, na biosfera e nos elementos naturais do Cerrado. Ao propor uma escuta atenta e individualizada, a obra transforma o caminhar pelo parque em uma experiência estética singular, na qual tecnologia e natureza coexistem em equilíbrio, ativadas apenas pela presença e pelo movimento de quem se dispõe a ouvir.
Serviço
Botânica – um jardim de som
Quando: 6 de fevereiro a 1º de março de 2026 (sexta a domingo, das 10h às 18h)
Onde: Parque Olhos d’Água – Quadras 413 e 414, Asa Norte, Brasília/DF
Agendamento e informações pelo site