Até este domingo (1º), a CAIXA Cultural Brasília apresenta a exposição Todos falam de mim, ninguém me representa: um olhar indígena sobre a obra de Rugendas, uma mostra que propõe o confronto direto entre arquivos coloniais do século XIX e as narrativas indígenas contemporâneas. Com realização do Instituto Ricardo Brennand, a exposição estabelece um diálogo inédito entre a produção do artista alemão Johann Moritz Rugendas (1802–1858) e a obra do artista visual indígena Ziel Karapotó, um dos representantes do Brasil na 60ª Bienal de Veneza (2024).
Reconhecido por tensionar discursos historicamente impostos aos povos originários, Ziel Karapotó parte da consciência crítica como eixo central de sua pesquisa. Ao intervir sobre 12 litografias aquareladas de Rugendas pertencentes ao acervo do Instituto RB, o artista transforma um arquivo marcado pelo olhar colonial em matéria ativa de enfrentamento. “Se no século XIX essas imagens e narrativas eram predominantes sobre a gente, hoje temos um contexto sociopolítico que nos possibilita revisitar esse passado e esses arquivos e poder utilizá-los como uma espécie de substâncias para a formulação de um antídoto decolonial”, afirma.

As obras de Rugendas, conhecidas por seu caráter documental, retratando paisagens, fauna, flora, indígenas e pessoas escravizadas no Brasil e em outros países da América Latina, ganham novas camadas de sentido quando atravessadas pela poética de Karapotó. O gesto do artista não se limita à releitura estética: trata-se de uma disputa simbólica sobre quem narra a história e a partir de quais epistemologias.
Essa inversão de perspectiva é o que sustenta a noção de autorrepresentação como ato político, conceito-chave da exposição. Para Karapotó, quando povos indígenas deixam de ocupar o lugar de objeto e assumem o papel de autores dentro das instituições artísticas, todo o sistema é impactado. “Esses espaços tornam-se mais dinâmicos, acessíveis e inclusivos. Muitas questões vêm à tona, algumas impactando até a forma de gestão desses espaços, dos acervos, das coleções e das próprias interrelações”, pontua.

A curadoria da mostra é assinada pelo próprio artista em parceria com a antropóloga e diretora do Instituto Ricardo Brennand, Nara Galvão. Juntos, constroem uma contranarrativa iconográfica e pictórica que propõe novas paisagens e diálogos sobre a formação da imagem nacional e a história da arte no Brasil. A exposição reúne uma grande instalação individual, resultado de quatro anos de pesquisa sobre a obra de Rugendas, além de vídeos, performances, fotografias, pinturas e desenhos.
Para Nara Galvão, iniciativas como esta fortalecem uma museologia experimental e plural. “Essas ações oferecem uma plataforma fundamental para que artistas indígenas compartilhem suas perspectivas, culturas e histórias próprias, promovendo autorrepresentação e reconhecimento dentro do sistema da arte”, destaca.
A recente participação de Ziel Karapotó na Bienal de Veneza ampliou o alcance internacional de seu trabalho e evidenciou a presença crescente das artes indígenas no circuito global. Segundo o artista, esse movimento é marcado tanto por aberturas quanto por tensões. “Percebo as artes indígenas no circuito da arte global como as vanguardas nos dias de hoje. Há muitas aberturas, mas também muitas incompreensões”, avalia.

Além do espaço expositivo, a mostra se desdobra em ações educativas voltadas ao público visitante, em consonância com a Lei 11.645, que estabelece o ensino obrigatório da história e cultura indígena nas escolas. Entre essas iniciativas está a Vivência Curumim, conduzida pelo próprio artista, que reforça a centralidade do diálogo com as infâncias. “Como artista e arte-educador, uma arte que não está relacionada a processos educativos e às infâncias é sem utilidade. O público infantil é território fértil nesse processo de reflorestamento dos imaginários. São sementes de grande potencial para a continuidade e ampliação do que estamos realizando hoje”, afirma.

Ao valorizar a diversidade étnica e cultural de um país que abriga mais de 370 povos indígenas e 270 línguas, segundo o Censo 2023, a exposição não apenas revisita o passado, mas convoca o público a repensar os modos de ver, narrar e construir a história brasileira a partir de outras vozes. A circulação da mostra pela CAIXA Cultural Brasília marca ainda o início de um projeto nacional do acervo do Instituto Ricardo Brennand, reafirmando o compromisso da instituição com a valorização da arte contemporânea e das narrativas plurais.
Exposição: Todos falam de mim, ninguém me representa: um olhar indígena sobre a obra de Rugendas
Curadoria: Ziel Karapotó e Nara Galvão
Local: CAIXA Cultural Brasília
Endereço: SBS Quadra 4, Lotes 3/4
Visitação: Até 1º de fevereiro de 2026
Horário: das 9h às 21h, de terça-feira a domingo
Bilheteria: entrada franca
Classificação: livre para todos os públicos