Raquel Martins Ribeiro
raquel.martins@jornaldebrasilia.com.br
Uma manifestação artística que surgiu em meados da década de 1970, mas que até hoje é cercada por preconceitos. Ser uma drag queen (artistas performáticos que se vestem com roupas femininas) requer paixão e, acima de tudo, resistência, mas, nos últimos anos, artistas de todo o mundo têm conseguido sair das boates para galgar espaço também no cinema, teatro e nas TVs abertas.
Quem assina a TV paga ou o Netflix já deve ter se deparado com o reality RuPaul’s Drag Race, que tem sua oitava temporada prevista para estrear ainda no primeiro semestre de 2016, no canal Multishow. Idealizado e apresentado pela famosa drag queen RuPaul, o programa procura carisma, singularidade, coragem e talento para entregar o título de “America’s Next Drag Superstar”, em alusão ao reality de modelos America’s Next Top Model, apresentado por Tyra Banks.
Nesta sexta, os fãs brasilienses da série vão poder assistir de pertinho ao show das performers Tatianna e Yara Sofia, participantes das 2ª e 3ª temporadas do RuPaul’s Drag Race, respectivamente. As artistas marcam presença na festa Wow, da Victoria Haus (Setor de Armazenagem e Abastecimento Norte), a partir das 22h.
Quebrando paradigmas
No Brasil, artistas como Silvety Montilla, Deena Love, Leo Aquila, Isabelita dos Patins e Nany People, entre outras, têm ajudado a popularizar a arte e reduzir a discriminação. “As drags já alcançaram algum espaço na TV, mas sempre de maneira muito banalizada, caricata mesmo. A maneira como o assunto é abordado no programa Amor & Sexo (leia quadro ao lado) veio quebrar esse paradigma. Mostrar que ser drag não tem nada a ver com sexualidade. Que todos podem ser, basta querer”, afirma o ator e performancer Bruno Nascimento, de 25 anos, que há quatro encarna a poderosa Aretuza Lovi.
Goiano radicado em Brasília, Bruno lembra que essa arte entrou na vida dele como uma brincadeira entre amigos, mas que acabou tomando proporções que nem ele mesmo esperava. “Acredito que o diferencial do meu trabalho esteja nos elementos brasileiros que busquei inserir na Aretuza, como os cabelos crespos e o fato de ela cantar e dançar o tecnobrega. A maioria busca inspiração nas divas norte-americanas. Eu quis fazer uma homenagem às nossas mulheres e ao nosso País”, explica Bruno. “É preciso mudar a mentalidade das pessoas que acham que as drags não possuem conhecimento. Além de existirem cursos de drag, a nossa profissão exige leitura e muita pesquisa, como qualquer outra”, conclui o artista.
Em Brasília, a professora de Artes Cênicas da Universidade de Brasília Cyntia Carla ministra mini-cursos sobre o universo drag e suas performances.
“Montados” por um dia
No último dia 23 de janeiro, o programa global Amor & Sexo, comandado pela apresentadora Fernanda Lima, estreou nova temporada com um quadro que chamou a atenção dos telespectadores. Com formato de reality show, o Bishow é “um jogo a favor da diversidade e informação”, resumiu Fernanda ao apresentar a atração. Nele, Aretuza Lovi, Sarah Mitch e Gloria Groove ensinam homens heterossexuais (ou bofes como são chamados na gíria drag) a se transformarem em verdadeiras drags queens. Lorelay Fox é consultora da competição.
Experiência e reconhecimento
Silvio Cássio Bernardo, mais conhecido como Silvetty Montilla, é além de drag queen, ator, humorista, cantor, apresentador, repórter e bailarino. Considerada uma das maiores artistas brasileiras deste segmento, ao longo dos 28 anos de carreira, Montilla participou de diversas peças teatrais, além de fazer participações em programas de TV como o Toma Lá, Dá Cá, da Globo. Silvetty também comandou o reality Academia de Drags, exibido em seu canal do YouTube.
“Tinha prestado concurso e tudo mais, mas quando vi que dava para viver dos shows que fazia não pensei duas vezes”, afirma o veterano. O artista garante não copiar nenhuma outra diva na hora de interpretar Silvetty. “Todas as características do personagem foram surgindo de maneira muito natural, inclusive os bordões”, revela.
No caminho certo
A Ru Paul brasileira, como é chamada nos bastidores do mundo drag, acredita que ainda falta, no Brasil, um programa inteiramente voltado para o universo performático. “Ainda assim acho que estamos no caminho certo, isso é o que importa”, completa.
Com todas as dificuldades da carreira, Silvio mantém o otimismo quando fala sobre o momento em que as drags vivem atualmente. “Não sei se o preconceito diminuiu, mas as pessoas estão nos respeitando mais”, finaliza.