A Semana Santa em Planaltina é marcada mais uma vez por um dos eventos religiosos mais tradicionais do Distrito Federal. A Via-Sacra ao Vivo, completa 53 anos de história, volta a mobilizar fiéis, voluntários e visitantes em uma programação que mistura teatro, devoção e identidade cultural. Considerada uma das maiores encenações da Paixão de Cristo no Brasil, a celebração deve repetir em 2026 o público superior a 100 mil pessoas registrado no ano passado no Morro da Capelinha.
A programação ontem, quinta-feira (2), às 20h, no estacionamento do Complexo Cultural de Planaltina, com a encenação da Santa Ceia, que este ano foi transmitida ao vivo. O momento foi precedido por celebração eucarística presidida por Dom Denilson e, em seguida, o público acompanhou a representação de Jesus à mesa com os apóstolos, em uma narrativa que percorre a partilha, a tentação, a traição de Judas e a prisão de Cristo. A apresentação tem duração estimada de uma hora e meia. Nesta Sexta-feira Santa (3), as atividades seguem para o Morro da Capelinha, principal cenário da tradição em Planaltina. A partir das 15h ocorre a Celebração da Cruz. Logo depois, às 16h, começa a encenação da Paixão de Cristo, ao longo das 14 estações distribuídas em cerca de 800 metros do morro. O percurso retrata o julgamento, a prisão, a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus, em um ato que transforma a paisagem da cidade em palco de peregrinação e fé. Neste ano, o papel de Jesus Cristo será interpretado pelo padre Rafael Gonçalves.
Para quem acompanha a celebração de perto, a importância do evento vai além do espetáculo. É o caso de Cheila Dias, de 49 anos, professora e psicóloga, ela é moradora de Planaltina, e participou da Via Sacra por mais de dez anos. Ela começou ainda criança, atuou como integrante do povo e chegou a interpretar o primeiro anjo a levitar, na época de Cláudio Abrantes. Com o passar do tempo, precisou se afastar por causa das exigências do trabalho, dos estudos e, depois, da maternidade, mas nunca deixou de frequentar a encenação como devota.
Católica praticante e hoje ministra da Eucaristia, ela define a Via Sacra como “o maior espaço de evangelização público que nós temos”. Segundo Cheila, a força da encenação está no impacto espiritual que permanece mesmo depois do fim da apresentação. “A encenação acaba, mas Cristo sai de lá caminhando conosco, nós saímos de lá caminhando com Cristo”, afirma. Para ela, o momento da ressurreição segue sendo o mais marcante e, mesmo depois de tantos anos, a emoção continua a mesma. “É de emocionar, é de arrepiar a alma”, resume. Ao ver de Cheila, a tradição ajuda a formar a identidade cultural e religiosa de Planaltina e dialoga com outras manifestações históricas da cidade, como a Festa do Divino Espírito Santo e a Folia de Reis. Para quem nunca participou, o convite, segundo ela, independe da religião. “A Via Sacra é muito mais do que a evangelização. A Via Sacra é um movimento de fazer com que as pessoas retornem a Deus”, diz.
A força dessa tradição também é destacada por quem já viveu a encenação no palco. Ex-secretário de Cultura do Distrito Federal e ex-intérprete de Jesus na Via Sacra, Cláudio Abrantes afirma que o evento ultrapassa o caráter de espetáculo e ocupa um lugar de memória e pertencimento para a população. “A Via-Sacra de Planaltina faz parte da minha história e da história cultural do Distrito Federal. Eu tive a honra de viver o papel de Jesus por alguns anos, e isso me marcou profundamente – não apenas como experiência de fé, mas como exercício de entrega coletiva, de pertencimento. Ali, a gente entende que não se trata apenas de um espetáculo, mas de uma manifestação viva da nossa cultura, construída pelo povo, com emoção, trabalho voluntário e identidade. Preservar e fortalecer essa tradição é valorizar a memória, a arte e a espiritualidade que formam o DF”, afirma.

Uma tradição que se mantém viva há 53 anos
Há 53 anos, o Grupo Via-Sacra ao Vivo de Planaltina desenvolve um trabalho de evangelização por meio da arte e do teatro, envolvendo voluntários de diversas idades na preparação das encenações que marcam a Semana Santa na região. Ao longo desse período, a organização investiu na profissionalização das áreas técnicas e teatrais, sem deixar de lado a principal missão do grupo: a vivência da fé cristã. Com estrutura formada por diretoria, coordenação e monitoria, a iniciativa mantém a participação ativa dos integrantes em todas as etapas das atividades. Em 2026, as ações são inspiradas pelo tema “Nada te aflija! Não estou aqui eu que sou tua mãe?”, frase atribuída a Nossa Senhora de Guadalupe é escolhida para convidar os fiéis à confiança, à esperança e à espiritualidade durante a Quaresma.
Os preparativos para a edição deste ano começaram ainda em fevereiro, com reunião geral e ensaios realizados ao longo de março. O grupo também promoveu outros momentos tradicionais da programação, como a Via-Sacra das Crianças, no último dia 28, e o Domingo de Ramos, em 29 de março, quando atores e fiéis percorreram cerca de 12 quilômetros em procissão pelas ruas de Planaltina antes das encenações no Complexo Cultural. A expectativa agora se concentra nos dois momentos mais aguardados da programação, que devem voltar a reunir uma multidão entre o centro da cidade e o Morro da Capelinha.