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Portela resgata história do Príncipe Custódio em enredo afro-gaúcho para 2026

A escola de samba Portela vai homenagear o líder religioso Custódio Joaquim de Almeida, do batuque no Rio Grande do Sul, destacando as raízes afro-brasileiras no Sul do país.

Redação Jornal de Brasília

04/02/2026 9h11

portela

Foto: Portela/Divulgação

A Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, apresentará no Carnaval 2026 um enredo que resgata as origens e a tradição do batuque, principal religião de matriz africana praticada no Sul do Brasil. O tema, intitulado ‘O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande’, foca na figura do Príncipe Custódio, também conhecido como Osuanlele Okizi Erupê.

Nascido no século 19 no Golfo da Guiné, no litoral ocidental da África, Custódio Joaquim de Almeida adotou o nome ao chegar ao Brasil e faleceu em Porto Alegre na década de 1930. Sua origem nobre e as datas exatas de nascimento e morte são objeto de discussão entre historiadores e antropólogos, conforme estudo publicado pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul.

O enredo busca contestar o senso comum sobre a presença de religiões de matriz africana no país, lançando luz sobre dados do Censo Populacional do IBGE de 2022. De acordo com esses números, há proporcionalmente mais praticantes no Rio Grande do Sul (3,2%) do que no Rio de Janeiro (2,6%) ou na Bahia (1%). ‘Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul’, explica o carnavalesco André Rodrigues.

Atribui-se ao Príncipe Custódio um papel fundamental de mediação entre a população negra e as elites políticas gaúchas. Como liderança religiosa protetora, ele depositava conhecimentos e liturgias de cultos africanos, ajudando a consolidar e visibilizar o batuque em Porto Alegre, muitas vezes escondido nos bairros periféricos. A antropóloga Maria Helena Nunes da Silva destaca em sua dissertação que ele legitimou uma realidade mascarada pelo fluxo de migração branca.

O samba-enredo vencedor foi composto por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena, escolhido entre 36 candidatos inscritos no concurso da escola. A interpretação principal ficará a cargo de Zé Paulo Sierra, portelense estreante que realiza um sonho de infância. ‘Meu pai era portelense. Eu morava num bairro chamado Abolição, onde minha mãe mora até hoje’, rememora ele, que se apaixonou pelo samba-enredo da Portela nos anos 1980.

O desfile da Portela ocorrerá na noite de domingo, 15 de fevereiro, como parte do Grupo Especial do Rio de Janeiro. No primeiro dia, a escola segue a ordem com Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense e Estação Primeira de Mangueira. Os demais dias incluem apresentações de Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Acadêmicos do Viradouro, Unidos da Tijuca, Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos do Grande Rio e Acadêmicos do Salgueiro, cada uma com seus enredos temáticos.

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