ALÉXIA SOUSA
FOLHAPRESS
No barracão da Beija-Flor de Nilópolis, entre blocos de isopor, serragem e latas de tinta, uma estrutura metálica de dois metros e meio de altura deposita plástico derretido camada por camada até formar esculturas que irão à Marquês de Sapucaí. Trata-se da maior impressora 3D do país aplicada ao Carnaval, tecnologia que estará presente em cerca de 10% do desfile da escola no Grupo Especial do Rio de Janeiro.
Parte das peças produzidas na máquina integra a cenografia dos carros e alegorias, como máscaras e elementos decorativos de grande escala que imitam materiais como barro e cerâmica.
A decisão de investir na tecnologia começou a ser amadurecida há dois anos, com testes realizados dentro do próprio barracão, na Cidade do Samba, no Centro do Rio, onde as agremiações do Grupo Especial mantêm seus galpões e produzem de forma independente seus desfiles.
“Quando me trouxeram o projeto, a primeira coisa que eu observei foi a qualidade do produto. Quando você precisa fazer várias peças iguais, a perfeição é nítida em relação ao artesanal”, afirma o presidente da escola, Almir Reis. “O futuro é esse aí, não tem para onde correr.”
Segundo ele, os ganhos são múltiplos. “Primeiramente, em custo. Em tempo, porque o tempo que eu levo para fazer um produto na máquina é totalmente diferente do manual. E sustentabilidade, que é o mais importante para gente.”
O investimento inicial foi um aporte extraordinário feito pelo próprio presidente, que não especificou o montante investido. “Se deu certo, eu trago para todo mundo. Se der errado, a responsabilidade é toda minha”, diz.
Responsável técnico pelo projeto, o engenheiro mecânico Luiz Lolli trabalha com impressão 3D há seis anos. Ele explica que a tecnologia escolhida é a FDM (modelagem por deposição fundida), método em que filamentos de plástico são derretidos e depositados sucessivamente até formar o objeto tridimensional.
“É como se a máquina imprimisse em 2D várias vezes, em alturas diferentes, até ganhar volume”, explica.
As peças impressas podem chegar a cerca de 1,60 metro de altura. Quando ultrapassam a área da impressora, são produzidas de forma modular e depois coladas, em processo semelhante ao utilizado com blocos de isopor.
Uma escultura desse porte pode ficar pronta em um dia. No método tradicional, até chegar à etapa de pintura, o mesmo elemento pode levar três ou quatro dias, considerando colagem, secagem e acabamento.
O material utilizado é o ABS, plástico comum na indústria automotiva, resistente ao calor e à umidade.
Segundo Lolli, trata-se de um material reciclável e menos tóxico que outras técnicas de impressão 3D, como as feitas com resina. Após o desfile, as peças podem ser trituradas e reutilizadas como matéria-prima.
Além do potencial de reaproveitamento, a equipe destaca que o processo gera menos desperdício de material e permite produção sob demanda. A máquina foi projetada e desenvolvida no próprio barracão.
A introdução da impressão 3D não elimina o trabalho artesanal, segundo a escola. As peças saem da máquina sem acabamento e dependem de pintura, adereços e intervenções manuais. “O produto sai cru da máquina. A gente precisa do artesão para dar vida a ele”, diz Almir. “É um trabalho conjunto.”
Para Lolli, a impressão 3D funciona como ferramenta, não como substituição. “Ela não imprime algo do nada. Existe uma modeladora que esculpe digitalmente, assim como os artesãos esculpem o isopor. Isso também é arte.”
O debate não é inédito na Sapucaí. Ao longo das últimas décadas, o Carnaval incorporou fibra de vidro, estruturas metálicas mais leves, iluminação em LED e, mais recentemente, sistemas de luz cênica na avenida que transformaram a experiência visual dos desfiles. A impressão 3D passa agora a integrar essa linhagem de inovações que alteram, aos poucos, o modelo produtivo das escolas.
Para o presidente da Beija-Flor, a aposta não é pontual. “O 3D é o futuro. Essa máquina está mostrando que é o futuro do Carnaval e de diversos outros segmentos.”
Ele afirma que, caso o projeto se consolide, a intenção é ampliar o acesso à tecnologia. “Quando estiver totalmente pronto, quero colocar à disposição da Liga Independente das Escolas de Samba do RJ para que, se quiser, monte um galpão na Cidade do Samba para que todas as escolas possam usufruir.”
A tecnologia estará a serviço do enredo que a escola levará à avenida neste ano. Intitulado “Bembé do Mercado”, o desfile vai homenagear a celebração realizada desde 1889 em Santo Amaro (BA), considerada o maior candomblé de rua do mundo, exaltando a ancestralidade afro-brasileira, a força do candomblé e a resistência cultural do povo de santo.
Atual campeã do Carnaval carioca, a Beija-Flor conquistou seu 15º título em 2025 e será a segunda escola a desfilar na segunda-feira (16) no segundo dia de apresentações do Grupo Especial.