A arte como espaço de encontro, convivência e transformação social é a proposta do Festival Trilha da Inclusão, que chega à terceira edição reunindo apresentações culturais, oficinas e exposição gratuita, com foco na participação de pessoas com deficiência dentro e fora dos palcos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília. Com programação gratuita, o evento começa neste sábado (10), com a abertura da exposição “Além da Ataxia”, e segue nos dias 17 e 18 deste mês com apresentações de circo, teatro, dança, música, oficinas e atividades voltadas a diferentes públicos.
Criado em 2024, o festival já reuniu mais de três mil pessoas nas duas primeiras edições, realizadas no Espaço Cultural Renato Russo. Neste ano, a iniciativa ocupa o CCBB Brasília e integra a programação do Celebra Brasília, projeto que valoriza a produção artística e cultural da capital federal.
Idealizadora do Trilha da Inclusão, Cássia Lemes explica que o festival surgiu da necessidade de ampliar a participação de pessoas com deficiência no cenário cultural, não apenas como espectadoras, mas também como profissionais e protagonistas das produções artísticas.
“O Trilha nasceu da percepção de que ainda precisávamos avançar muito na forma como as pessoas com deficiência participavam da vida cultural. Não apenas garantindo recursos para que elas pudessem acessar um evento, mas criando espaços em que também pudessem ser artistas, produtoras, profissionais, formadoras e protagonistas”, afirma.
Segundo Cássia, a proposta sempre foi construir um ambiente em que a acessibilidade estivesse presente desde o planejamento, permitindo que pessoas com e sem deficiência compartilhassem experiências culturais.
“Queríamos justamente propor um espaço em que a acessibilidade não fosse uma ação isolada. Um projeto em que pessoas com e sem deficiência pudessem conviver, consumir cultura, trabalhar, trocar experiências e simplesmente estar juntas”, acrescenta.
Acessibilidade para além dos palcos
Um dos principais objetivos do festival é ampliar o debate sobre as barreiras que ainda dificultam a participação de pessoas com deficiência na cultura. Para a idealizadora, os obstáculos vão além das limitações físicas e de comunicação e também envolvem a forma como esses profissionais são reconhecidos pelo setor artístico.
“Muitas vezes, a pessoa com deficiência ainda é vista somente como público de uma ação de inclusão e não como artista, produtora, técnica, curadora, gestora ou profissional capaz de ocupar diferentes funções dentro da cadeia cultural”, destaca Cássia.
A organização busca enfrentar essas barreiras por meio da contratação de profissionais com deficiência para diferentes áreas do evento, incluindo produção, formação, consultoria e apresentações artísticas.
A iniciativa também desenvolve atividades de formação profissional, com cursos voltados à acessibilidade cultural, audiodescrição e braille. Segundo a idealizadora, a intenção é contribuir para que essas práticas sejam incorporadas permanentemente ao setor cultural.
“Existe uma diferença importante entre estar presente e ter protagonismo. Protagonismo significa participar das decisões, receber pelo seu trabalho, compartilhar conhecimento, criar, propor e ocupar espaços profissionais”, explica.
Exposição abre programação cultural
A programação começa no sábado (10), às 9h, com a abertura da exposição “Além da Ataxia”, na Galeria G4 do CCBB Brasília. A mostra apresenta 23 autorretratos da fotógrafa Pollyana Silveira, artista com Ataxia de Friedreich, uma doença genética rara que afeta o sistema nervoso.
Dividida nas séries “O Tempo e a Ataxia”, “A culpa é minha?”, “Ampulheta” e “À Espera”, a exposição aborda questões relacionadas ao corpo, à autonomia, à mobilidade, ao tempo e ao capacitismo. A mostra permanece aberta à visitação até 28 de outubro.
Para ampliar o acesso do público, o espaço contará com audiodescrição por QR Code, intérprete de Libras, placas em braille, legendas ampliadas e visitas guiadas, além de abafadores acústicos disponíveis para empréstimo.
Nos dias 17 e 18 de outubro, a programação se estende ao Jardim do CCBB, com atividades para crianças, jovens e adultos. Entre as atrações estão os espetáculos circenses “Circo Mania”, “Firula Musical” e “Splash”, além de apresentações musicais, oficinas e atividades interativas.
O público também poderá acompanhar o espetáculo de dança “Memórias”, apresentado pelo grupo Além da Pele, formado a partir de uma oficina para pessoas com síndrome de Down. O encerramento será marcado pela apresentação “Uma Sinfonia Diferente”, protagonizada por artistas autistas sob a regência da musicoterapeuta Ana Carolina Steinkopf.
A estrutura do evento contará ainda com o Espaço Acolher, destinado à descompressão sensorial de pessoas com autismo, a Feira ARTeira, com artesanato inclusivo, o Parque DiverSom, com brinquedos sonoros acessíveis, e atendimentos gratuitos de massoterapia realizados por pessoas com deficiência visual.
Festival pretende ampliar atuação
Para Cássia Lemes, a chegada ao CCBB Brasília representa uma oportunidade de aproximar o debate sobre acessibilidade de públicos que frequentam o espaço cultural, especialmente famílias e crianças.
A idealizadora destaca que o retorno das primeiras edições também contribuiu para a construção da programação deste ano. Segundo ela, a experiência mostrou que a inclusão cultural não deve se limitar ao acesso às atividades, mas também garantir condições para que as pessoas permaneçam e participem.
“Talvez o retorno mais importante seja perceber que as pessoas não querem apenas acessar o Trilha: elas querem permanecer, participar e voltar”, afirma.
Com a chegada à terceira edição, a organização considera a possibilidade de expandir o festival para outros espaços e, futuramente, para outras cidades.
“Mais do que simplesmente aumentar o tamanho do festival, queremos ampliar seu impacto e fazer com que essa Trilha chegue a cada vez mais pessoas”, conclui Cássia.
Serviço Festival Trilha da Inclusão – 3ª edição
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Brasília)
Datas: 10, 17 e 18 de outubro de 2026
Entrada: gratuita, mediante retirada de ingressos pelo site ou na bilheteria do CCBB.
Mais informações: Instagram @trilha.dainclusao.