Quando nasci, automaticamente me tornei a 4.740.645.672ª pessoa viva na Terra e a 79.498.544.945ª pessoa que já viveu desde o início da história. A iniciativa foi lançada pela BBC, há alguns anos, e você também pode se “situar”. Basta acessar o endereço da ferramenta (bbc.co.uk/news/ world-15391515) e digitar sua data de nascimento.
É muita gente. Chegamos recentemente à marca dos sete bilhões. E Stephen Emmott, cientista e professor de Oxford, dá a previsão para o final deste século no título de seu livro: 10 Bilhões, que acaba de ser lançado pela Intrínseca. Segundo ele, se as taxas de natalidade atuais se mantiverem, o número ainda pode ser bem maior: 28 bilhões.
Ecologicamente correto
O livro tem sido criticado por outros cientistas, sob a alegação de que o autor teria exagerado, sem bases consistentes. Emmott, de fato, escreve para impactar e chocar, mas merece elogios pela racionalidade e pelo combate a alguns modismos do discurso ecologicamente correto.
Apesar de ser adepto da culpa humana pelos desastres ambientais em curso, ao contrário dos chamados céticos – que imputam tudo aos próprios ciclos da natureza –, ele não adota a visão romântica dos ecocentristas.
Na obra, Emmott afirma que o problema não é a perda dos ursos-polares, por exemplo, mas sim a perda da biodiversidade de maneira geral. Uma perda humana, acima de tudo.
A velha metáfora do beija-flor que procura apagar o incêndio com gotículas de água (e que oferece uma lição de moral “profunda” e serena ao ser criticado por sua inocência e impotência) também é indiretamente afastada. Não adianta fazer xixi durante o banho, escovar os dentes com pouca água e andar de bicicleta.
Não adianta entrar na onda do engajamento consciente como se isso fosse realmente relevante, enquanto indústrias esgotam em grande escala os recursos naturais.
O escritor afirma, depois de mostrar a insuficiência das soluções tecnológicas, que a única saída possível é uma mudança radical do comportamento político global. Menos consumo no atacado com consequências no varejo, e não o contrário.
Em quem confiar
Pessimista, ele conclui que “estamos ferrados”. E ainda agrava o cenário, com a citação de um dos colegas cientistas que, perguntado sobre “apenas uma coisa que tivesse que fazer quanto à situação que enfrentamos”, responde sem pestanejar: “Ensinar meu filho a usar uma arma”.
Não podemos, de fato, confiar em nós mesmos para uma saída. Seria como tentar convencer um torcedor fanático e violento a frequentar o estádio sem exaltações. Seria esquecer que o ser humano caminha irracional e arfante em busca da satisfação momentânea. Resta, portanto, confiar em quem não é humano, e você sabe muito bem que não estamos falando das baleias, dos pandas ou do beija-flor.