Aos 33 anos, Caio Blat pode ser visto na novela Joia Rara, da Globo. Ele também protagoniza o drama Entre Nós, previsto para estrear nos cinemas na próxima quinta-feira. Dirigido por Paulo Morelli (Viva Voz, Cidade dos Homens), o longa traz ainda no elenco Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena e Maria Ribeiro – esposa do ator na vida real. Em entrevista ao JBr., Blat conversou sobre sua carreira profissional, literatura, seu personagem e a passagem do tempo: o principal tema do filme. Na trama, que fala de um grupo de amigos que enterra cartas para serem lidas depois de dez anos, ele interpreta um autor que sofre angustiado por guardar um segredo do passado. Algo que está relacionado com a trágica morte do melhor amigo.
Seu personagem em Entre Nós é um escritor. Qual sua relação com a literatura?
Eu sou apaixonado pela literatura desde criança. Sempre fui um grande leitor. Eu era apaixonado por romances policiais na adolescência. Devorava Agatha Christie, Conan Doyle e vários outros autores. Eu até escrevi um romance policial quando tinha uns 13 anos e ganhei um prêmio no colégio. Sempre tive uma relação muito forte com o gesto de escrever. E quando passei a produzir teatro e cinema, sempre vou na literatura. É a minha primeira fonte de projeto. Então eu adaptei Álvares de Azevedo, Dostovéiski, no caso de Os Irmãos Karamazov, que provavelmente vai até virar uma minissérie na Globo. A gente está estudando isso. E agora quero dirigir meu primeiro filme.
Como será esse filme?
Já estou com o meu roteiro pronto, que também é a adaptação de um romance: Juliano Pavollini, de Cristovão Tezza. Uma história de formação de um garoto de 16 aos 18 anos nos anos 60. Então minha grande fonte de inspiração e o grande material sempre é a literatura. Tudo começa num grande texto.
E você tem algum livro de cabeceira atualmente?
Eu estou lendo tudo do escritor português Valter Hugo Mãe, que é muito bom. Li dois romances dele e agora quero ler todos os outros. Quando leio um autor que eu adoro, quero ler tudo.
O filme mostra que não há segredos que resistam ao tempo. Você acredita nisso?
Sim, acho que o tempo coloca todas as coisas no lugar. E quem traiu ou mentiu, isso sempre vem à tona. Acho que hoje em dia, cada vez mais, por mais que demore, as verdades aparecem e ninguém consegue fugir ou enganar os outros por muito tempo. Esse ditado é muito legal. O primeiro filme de cinema que eu fiz, Lavoura Arcaica, tem uma frase muito legal: “Só a justa medida do tempo dá a justa medida das coisas”, Essa frase tem tudo a ver com o Entre Nós também.
Como foram as filmagens de Entre Nós?
A gente fez do filme um projeto pessoal. A turma se reuniu e decidiu que esse filme seria nosso. Acreditávamos no roteiro, mas precisávamos preenchê-lo para virar um grande filme. Tomamos isso como um desafio e vivemos um processo colaborativo. Fomos para a fazenda e começamos a improvisar em cima das cenas. Têm muitas cenas que foram filmadas completamente no improviso, como a do jantar.
Então o diretor Paulo Morelli deu essa liberdade?
Foi algo conqusitado. O Paulo percebeu que a potência do filme dele estava nisso. Viu que tinha uma turma de verdade na mão e que podia dar um testemunho real. Então acho que ele foi um homem sábio e generoso porque percebeu isso e entregou para a gente. E um dos maiores orgulhos é que a gente ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio. Um roteiro que veio do Paulo, mas que todos os diálogos foram reconstruídos por nós. É a combinação perfeita entre a forma e o conteúdo.
Entre Nós fala da passagem do tempo. Como você sente isso na sua carreira?
É emocionante porque a gente vai crescendo junto com os nossos personagens e cada personagem é como se a gente morresse um pouco. Essa é uma frase do Matheus Nachtergaele. Quando a gente faz um personagem, de certa maneira não pode voltar. Então você vai eliminando os tipos que já fez e fica cada vez mais difícil encontrar novos desafios. É um certo processo de envelhecimento dentro da carreira, também para não se tornar um artista repetitivo. O filme fala de um período de dez anos e em dez, doze anos eu estava começando a fazer cinema. Então, de certa maneira, o que a gente construiu no cinema nesse tempo é um testemunho. A gente amadureceu na frente da câmera e, mais do que isso, contamos a história do nosso País. Têm vários filmes que eu considero testemunhos, como Proibido Proibir, por exemplo, que é um testemunho do que é ser jovem no Brasil. A gente amadureceu junto com a nossa história, construiu um pouco a história do País e acho que nossa história está ligada no cinema.
E o que podemos esperar dessa nova geração?
Acho que mais dúvidas do que respostas. Estamos vivendo um momento fascinante, uma revolução das comunicações. Um momento que tudo pode ser inventado e o artista pode ter seu próprio canal direto com o público. A TV aberta como a gente conhece está se transformando radicalmente. Não sei mais quantos anos ela vai existir antes de se tornar um portal de conteúdo. Tudo agora está perto. Uma nova tecnologia surgiu e nossas ideias surgiram, então acho que a gente está vivendo um momento que temos uma liberdade total. Qualquer um pode criar um canal no YouTube e publicar suas ideias. Ao mesmo tempo, não nos sentimos representados por nada. Nem pelos políticos ou pelas grandes corporações. Estamos vivendo uma fase de democratização e renovação dos meios de comunicação. E está nas mãos da minha geração ocupar esse espaço e saber o que fazer com esses veículos.
Na sua opinião, quem pode se identificar com o filme?
O que esse filme fala com todas as pessoas é a passagem do tempo e a sua turma na juventude. Todo mundo teve a sua turma, que saía para beber, fumar ou passar o fim de semana juntos. E conforme a vida adulta chega, muitas vezes essa turma se espalha, se perde. Quantas vezes você encontra um amigo da faculdade e fala: ‘Cara, quem é essa pessoa que está barriguda e que largou o que a gente estudou e está fazendo uma coisa totalmente diferente?’ Então isso e uma coisa que pega todo mundo: onde você estava há dez anos, onde está hoje e onde acha que estará daqui dez anos. E é muito bonito ser feito com esse grupo de atores. O fato de sermos atores conhecidos faz com que as pessoas lembrem da nossa carinha quando éramos jovens. Até cinco anos a gente fazia a galera jovem. Eu fiz uma novela com o Paulinho (Vilhena) chamada Coração de Estudante, em 2003. A gente vivia em república e tal. Então a galera tem essa memória da gente jovem. E Entre Nós mostra pela primeira vez os primeiros sinais do tempo chegando. Isso é comovente, mostrar como ficamos adultos. É um registro carinhoso. O mais comovente é a passagem do tempo.
Você está atualmente em Joia Rara como um monge. Você se aproximou do budismo por causa do papel?
Sempre fui muito espiritualista e tive um interesse grande pelo espiritismo. Sempre gostei das culturas orientais. Tenho estudado o taoísmo e adoro a cultura chinesa. E o budismo eu tinha breves noções, mas com a novela conheci melhor e me identifiquei. Fazia a meditação taoísta, mas passei a experimentar a meditação tibetana e virou um hábito. Mesmo que seja só cinco minutos por dia é uma coisa fundamental. É legal porque o budismo, de uma certa maneira, diz que a vida é um sonho, que não é para ser levada tão a sério. Então nada garante que essa vida exista. Ela pode ser um sonho. Então, desse ponto de vista, é muito legal achar que tudo pode ser uma projeção.
E isso é ótimo para um ator…
Não é? Eu só estou aqui atuando (risos).
*O repórter viajou à convite da Paris Filmes