
“Matogrosso é um grande enigma que tentamos explicar”. A frase foi dita pelo cineasta Joel Pizzini sobre o documentário Olho Nu, que tem estreia prevista para maio deste ano. Segundo ele, o filme é uma grande colcha de retalhos de declarações de Ney Matogrosso em seus 40 anos de carreira, algumas feitas especialmente para o longa. “Não é um filme ‘sobre’, mas ‘com’, ou ‘através’ de Ney”, definiu Pizzini em Manaus, meses atrás, quando lá esteve com Matogrosso para representar o filme na mostra competitiva do 10° Amazonas Film Festival. Os centos e poucos minutos da fita são o resultado de uma minuciosa pesquisa feita com mais de 300 horas de arquivo que não se limita ao formato de cinebiografia. Apesar de parecer não ter nada que o sereno senhor Ney de Souza Pereira, de 72 anos, não tenha falado ou explicado sobre o extravagante Ney Matogrosso, o público parece nunca perder o interesse sobre o artista que subverteu o cenário musical tupiniquim na década de 1970, época endurecida pelo regime militar. Em entrevista ao Jornal de Brasília, o cantor fala sobre o eterno personagem que interpreta nos palcos; os trabalhos no cinema; seu último disco, Atento aos Sinais; e o breve – porém marcante – relacionamento com Cazuza; além de relembrar, com carinho, a época que morou na capital, onde deu seus primeiros passos na música.
Você já disse em diversas entrevistas que só conseguiu subir no palco, na época dos Secos & Molhados, quando elaborou um personagem. Depois de todos esses anos, você segue interpretando um papel?
Sim, claro. Um personagem muito mais elaborado. Na verdade, quando comecei era pura intuição, nada pensado. Não era um ator porque não me via assim, mas tinha um papel, uma história que queria contar. Um alter-ego que criei naturalmente. Tinha a cara escondida atrás de uma forte maquiagem inspirada pelos atores do teatro kabuki. Escondendo o rosto, sentia muito mais coragem.
Essa atuação também é levada para o cinema?
Nos filmes que atuo, sou um personagem ao sabor dos diretores. Estou disponível para tudo o que eles pedirem. Acho que o ator precisa fazer o que for preciso e solicitado. Considero cada apresentação minha como se fosse uma performance.
Tem formação de ator?
Fiz um curso de teatro quando morava em Brasília, na década de 1960, porque era tão tímido que entrava e saía de festas sem conseguir trocar uma palavra com ninguém. Me ajudou muito, mas isso foi muito antes de pensar em ser artista, queria me forçar a ser mais sociável e a liberar minha personalidade.
A timidez continua?
Não sou mais tímido. Agora sou recatado, é diferente. Na minha vida pública, tudo é muito exposto. Na particular, prefiro observar a ser observado. Não sinto necessidade de aparecer. Ando na rua e algumas pessoas nem sabem que sou eu porque não tem essa afetação, um monte de gente. Ando sozinho pelas ruas do Leblon, onde moro.
Você citou o curso de teatro em Brasília. No documentário, a cidade também é bastante lembrada por você. Qual a importância da capital na sua vida?
Foi em Brasília onde comecei a exercitar todas as coisas relacionadas a arte que me interessavam. Foi na cidade, aliás, que cantei pela primeira vez, num coral em que participava com mais de 60 pessoas. É um lugar especial, onde tive grandes amigos. Sempre será.
Falando de amigos, em Olho Nu são mostradas várias pessoas importantes da sua história. O cantor Cazuza, no entanto, aparece rapidamente em apenas duas cenas.
Não tive restrições para contar minha história, me expor. Eu e ele ficamos juntos muito antes dele virar cantor. Foram três meses de relacionamento intenso.
Você ficou satisfeito com o filme?
Olho Nu tem muitos pedaços de mim, me desvenda. Tem histórias sobre minha infância e minhas andanças. A ideia de digitalizar meu acervo foi do Paulo (Mendonça, amigo e diretor do Canal Brasil, autor de canções do Secos & Molhados, como Sangue Latino e O Doce e o Amargo). Foram cinco anos de trabalho e eu acompanhei tudo.
Os 40 anos de estrada são comemorados com o show de seu último disco, Atento aos Sinais. Fale um pouco desse trabalho.
É um espetáculo que eu considero lindo, vibrante e muito colorido, com uma banda sensacional. Em cena, interpreto Itamar Assumpção, Lenine, Criolo, Vitor Ramil… O show é impactante porque me ver cantando tanta coisa nova é inesperado. Tem gente que me diz que não conhece as músicas, mas gosta mesmo assim. Isso é o que importa.