Uma agradável surpresa que nos faz refletir ao mesmo tempo que nos dá um soco no estômago. O sensível drama Pelo Malo mostra que a Venezuela, presença constante no noticiário nos últimos anos, sabe fazer bons filmes. Mostrado pelos olhos de uma criança, o longa traz à tona problemas que fazem parte do cotidiano de países do continente latino-americano: pobreza, preconceito racial e homofobia.
Dirigido por Mariana Rondón, que também assina o roteiro, o filme começa com planos abertos, mostrando uma realidade que poderia muito bem ser brasileira. O roteiro tem como ponto de partida a vontade que Junior (vivido com delicadeza por Samuel Lange Zambrano), um menino de nove anos, tem de alisar seu “cabelo ruim”. Nos seus sonhos, tudo que ele quer é ficar parecido com um antigo cantor famoso. A tarefa não seria difícil se não fosse pela sua mãe, Marta (a ótima Samantha Castillo), uma mulher obcecada em reaver o emprego como segurança particular, que não aceita a vaidade do filho e o rejeita de todas as formas possíveis.
Rejeição
Para Marta, que é mãe solteira e desempregada, o problema de seu filho é físico. Sendo assim, ela tenta de todas maneiras arranjar uma “cura” para seu comportamento. Quando escuta do médico que o filho não tem problema algum, Marta fica perdida e passa a agir de forma opressora, da mesma forma que o sistema age com ela.
Com muita competência e uma direção segura, a cineasta consegue fazer com que a trama não fique focada apenas na situação de pobreza do protagonista, explorando a montanha-russa de dramas psicológicos em que o menino está metido. A rejeição exposta verbalmente pela mãe de Junior dói (nele e no espectador).
Aceitar o cabelo tal e qual ele é significa reconhecer a si mesmo e ao outro. Aceitar Junior como ele é significa aceitar a dura realidade de que as coisas (e as pessoas) nunca são como a gente quer.
Três perguntas para a diretora
JBr: Fale um pouco sobre Pelo Malo.
É meu terceiro longa. O filme fala sobre o respeito ao outro, trata da intolerância e de deixar que o outro coexista. Estamos em um terreno político e tanto o racismo como a homofobia, abordados na obra de maneira bem sincera, são também discussões políticas.
JBr: O filme já passou por vários festivais internacionais. Como é a recepção da plateia?
Varia muito dependendo do lugar onde o filme é exibido. Em países onde o racismo é mais forte, por exemplo, a reação da audiência costuma ser bem mais explícita. Na verdade, cada reação é consequência do espaço bastante pensado para o olhar do espectador. Essa é a proposta de Pelo Malo: permitir que a audiência se comunique com o que está passando.
JBr: Como você vê o cinema latino-americano que é feito hoje?
Na minha opinião, estamos vivendo um momento muito feliz, tanto de projeção como de qualidade. Essa fase precisa e deve ser bastante aproveitada.
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