O dia 12 de agosto ganhou um novo significado para a cultura brasileira. A data celebra todas as formas de expressão artística, do teatro à dança, da música ao circo, do cinema à literatura e às artes visuais, e reconhece não apenas o trabalho de quem transforma ideias em arte, mas também a relação de quem encontra nela uma forma de expressão, memória e pertencimento. Mais do que homenagear artistas, o Dia Nacional das Artes reforça que a cultura é essencial para a vida em sociedade e um direito tão fundamental quanto a saúde e a educação.
Em Brasília, artistas de diferentes linguagens encontram na produção cultural não apenas uma profissão, mas também uma forma de ocupar espaços, contar histórias e dar voz a diferentes realidades. É o caso de Thiago Afonso, um dos representantes do movimento rapper do Distrito Federal. Para ele, o reconhecimento do rap como manifestação artística representa uma conquista depois de anos de resistência e de enfrentamento ao preconceito.
“A verdade é que, por muitos anos, o rap sempre foi marginalizado ou associado unicamente à apologia ao uso de drogas ou ao crime. Com o avançar do tempo e com as bandeiras erguidas pelo rap e pelo hip hop em geral, significa muito o reconhecimento como manifestação artística, pois é exatamente a sua essência. As batalhas de rima, que são a minha origem, são um bom exemplo disso”, afirma.
Segundo Thiago, a própria história das batalhas de rima no Distrito Federal é marcada por episódios de repressão e dificuldades para ocupar espaços públicos. Ele lembra que, durante anos, houve casos de interrupção de batalhas pela polícia e condução de rimadores às delegacias. “Hoje as batalhas são vistas como atividade cultural e como ocupação de espaço público. O reconhecimento do rap como manifestação artística e sua lembrança no Dia Nacional das Artes são reflexos de anos de resistência e luta”, destaca.
Para o rapper, a importância da manifestação também está na possibilidade de transformar experiências em discurso. “O rap, desde sua origem, é a manifestação artística falada sobre as mazelas sociais. A população menos favorecida, moradores de comunidades pobres, nunca tiveram espaço de fala nas altas rodas sociais ou políticas, mas precisavam ser ouvidas. A solução para isso foi o rap”, explica.
A relação entre arte e transformação também aparece no teatro. O ator e professor Ricardo César vê a atividade artística como uma necessidade humana e defende que o contato com diferentes manifestações culturais pode contribuir para uma sociedade mais consciente. “A arte é uma necessidade humana, assim como comer, beber água e respirar. Somos os únicos seres vivos que produzem arte. O teatro, então, é o espelho de uma sociedade, onde podemos nos curar e nos tornar seres melhores”, afirma.

Para ele, o teatro também cria uma oportunidade de encontro entre diferentes perspectivas. “Ninguém assiste a uma peça de teatro e sai da mesma forma. O processo de transformação se dá no olhar do outro no momento do aqui e agora. Sobrevivemos a uma pandemia graças às artes”, acrescenta.
Os desafios de quem vive da arte
Apesar do reconhecimento simbólico da data, os artistas também chamam atenção para dificuldades que ainda fazem parte da rotina de quem trabalha com cultura. Entre elas estão a falta de políticas públicas, a precariedade dos espaços de apresentação e a dificuldade de transformar a produção artística em fonte de renda.
A artista visual Clarice Gonçalves conta que, até ser procurada para falar sobre a pauta, não conhecia a data. Para ela, a ocasião poderia ser uma oportunidade para discutir justamente as condições de trabalho de quem produz arte no país. “Se fosse para aproveitar essa visibilidade, seria para colocar em pauta a precariedade das condições de trabalho dos artistas, a falta de políticas públicas e o reconhecimento da profissão. Para você ter ideia, nem no cadastro para MEI temos um descritivo para a profissão do artista visual, mas tem para fabricante de linguiça, por exemplo”, critica.

Clarice também chama atenção para a ideia de que a visibilidade, por si só, seria suficiente para compensar o trabalho artístico. “Colocaria em pauta a questão da importância da remuneração de artistas em projetos, exposições e convites, visto que muitas instituições e produtores culturais ainda acreditam que a visibilidade do trabalho é suficiente para nossa sobrevivência enquanto artistas”, afirma.
Ela lembra que, por trás de uma obra, existe uma cadeia de custos e anos de formação. “O artista que não é herdeiro paga contas, impostos, tem família, se alimenta, usa transporte e materiais caros. As vendas são eventuais e tudo o que conseguimos de retorno financeiro é sempre um retroativo de anos, décadas de esforço e investimento em formação, pesquisa e aprimoramento de técnicas e materiais”, completa.
No teatro, Ricardo aponta ainda para a dificuldade de encontrar espaços adequados para a produção e apresentação de espetáculos no Distrito Federal. Segundo ele, teatros públicos estão fechados ou em condições precárias, enquanto espaços privados também enfrentaram dificuldades nos últimos anos. “Estamos sem espaços para nos apresentarmos. Nos sobra, com muita dificuldade, os teatros do Sesc, que colocam à disposição pautas que chegam a ser desrespeitosas com o artista, que leva no mínimo três meses para montar seu espetáculo e fica no máximo três dias em cartaz”, afirma.
O professor defende investimentos não apenas na manutenção dos equipamentos culturais, mas também na formação de público e na continuidade dos grupos artísticos. “Precisamos de uma política séria de formação de plateia, investimentos nas pesquisas, manutenção de espaços e manutenção dos grupos que se debruçam ano após ano no fazer artístico da cena. Investir nas artes é essencial para uma economia sólida de um povo”, destaca.
A arte que atravessa gerações
Entre as manifestações celebradas pela data está também o circo, linguagem que, para o palhaço ChouChou, reúne diferentes formas de expressão e acompanha a humanidade há séculos. Para ele, ter a atividade reconhecida é uma forma de valorizar uma tradição que permanece viva justamente por sua capacidade de dialogar com diferentes públicos.

“Para mim, significa muito prestígio. O circo, junto com o teatro, é uma das artes-mães de todas as outras. Desde o início da humanidade, as pessoas se expressam de alguma forma. Ter esse trabalho reconhecido dentro dessa data é mais do que uma obrigação, é um reconhecimento”, afirma.
ChouChou também destaca a capacidade de adaptação do circo ao longo da história. Guerras, mudanças sociais e até uma pandemia não impediram a manifestação de continuar encontrando espaço junto ao público. “O circo passa por guerra, passa pela história, passa por pandemia justamente por isso: as pessoas precisam se divertir. É uma celebração da humanidade, da própria humanidade”, resume.
Para Clarice, a arte também é uma maneira de estabelecer uma relação com o mundo e provocar reflexões. “Fazer arte é minha forma de existir no mundo, de me comunicar, pensar e trazer reflexões para o público de forma imagética, sensorial, inconsciente”, diz. A artista defende que valorizar a cultura também significa reconhecer e remunerar quem produz. “Consumir arte, comprar de artistas vivos e engajar na remuneração de artistas são formas eficazes de apoiar nossas existências, criações e poéticas”, afirma.
Entre diferentes linguagens, trajetórias e experiências, o Dia Nacional das Artes acaba funcionando não apenas como uma celebração, mas como um lembrete de que a cultura depende de quem cria, de quem trabalha e também de quem prestigia. Em Brasília, artistas de diferentes áreas seguem ocupando palcos, ruas, telas, páginas e outros espaços para manter essa produção viva.
Serviço | Agenda cultural
Show – Brasília Mostra o Brasil
Dias 14 e 15, às 21h
Sala Martins Pena, Teatro Nacional Claudio Santoro.
Teatro – Aquário de Peixes Perdidos
Dias 13, 14 e 15, às 16h e 19h
Teatro de Sobradinho. Entrada gratuita, com ingressos pelo Sympla. Classificação: 16 anos.
Música – Projeto Tom e Vinicius
16 de agosto a 4 de outubro. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Brasília). O projeto segue até 11 de outubro, com programação também no Clube do Choro e no Eixão Norte.
Dança – Raízes do Brasil – A Espera do Reencontro
Dia 16, às 11h30
Torre de TV de Brasília. Entrada gratuita.
Circo – Programação cultural ChouChou
16 de agosto: apresentações às 16h no Águas Claras Shopping, às 12h30 no Na Praia e às 15h no JK Shopping.