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Cinema com ela
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“(Des)controle” revela o esgotamento feminino em atuação marcante de Carolina Dieckmann

Com estreia marcada para esta quinta-feira (5), o drama mergulha na sobrecarga emocional e nos limites da lucidez em uma narrativa intensa e contemporânea

Tamires Rodrigues

05/02/2026 5h00

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Foto: Sony Pictures/Elo Studios

Em (Des)controle que estreia nesta quinta-feira (5), o drama não pede licença para ser incômodo. O filme se instala naquele território onde a exaustão deixa de ser apenas um sintoma e passa a moldar decisões, relações e silêncios. Não é uma obra sobre vício em seu sentido mais óbvio, mas sobre o cansaço como estado permanente da vida contemporânea, sobretudo feminina.

Carolina Dieckmann atravessa esse universo com uma atuação que dispensa sublinhados. Sua Kátia Klein não surge em colapso desde o início; ao contrário, aparece funcional, organizada, produtiva, admirada. É justamente essa aparência de controle que torna a queda mais perturbadora, porque o longa entende que o desmoronamento raramente começa em grandes explosões.

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Foto: Sony Pictures/Elo Studios

A personagem vive a ilusão de que dar conta de tudo é uma virtude incontestável. Escritora reconhecida, mãe dedicada e esposa presente, ela administra agendas, afetos e prazos enquanto o mundo ao redor naturaliza essa sobrecarga. O roteiro evita discursos diretos e prefere mostrar o peso por meio da repetição e da urgência constante.

Quando o álcool reaparece, não assume o papel de vilão imediato. Surge como promessa de alívio, quase como ferramenta funcional. O primeiro gole não é tratado como transgressão moral, mas como resposta possível a um cotidiano já operando no limite, o que torna a espiral posterior ainda mais dolorosa.

A relação com o marido, interpretado por Caco Ciocler, é desenhada com precisão desconfortável. Não há antagonistas explícitos, apenas um desequilíbrio cotidiano de responsabilidades embalado por discursos de autocuidado que soam vazios quando não são compartilhados. Tudo ali é reconhecível justamente por sua banalidade.

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Foto: Sony Pictures/Elo Studios

O celular se impõe como símbolo central da narrativa. Alertas, mensagens e lembretes criam uma trilha sonora de ansiedade que acompanha a protagonista mesmo nos momentos de pausa. É um recurso simples e eficaz, que traduz visualmente a sensação de aprisionamento à produtividade.

Dieckmann impressiona sobretudo nos silêncios. Seu trabalho se constrói nos gestos contidos, nos olhares que antecedem a queda, no corpo que denuncia antes da palavra. A dor de Kátia não precisa ser explicada, porque se manifesta em cada tentativa frustrada de seguir funcionando.

A direção compartilhada por Rosane Svartman que brilhou com todas as palavras em  Câncer com Ascendente em Virgem (2025) e Carol Minêm aposta na empatia sem condescendência. A câmera acompanha a protagonista de perto, mas não a protege das consequências de suas escolhas. O fundo do poço, quando chega, não é espetacularizado, e sim tratado como ruptura inevitável de uma lógica já insustentável.

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Foto: Sony Pictures/Elo Studios

Há uma honestidade rara na forma como o filme se comunica com o público. Ele não se apresenta como obra pedagógica nem como relato exemplar de superação. Prefere permanecer na zona cinzenta onde recaída, culpa e desejo de recomeço coexistem sem soluções fáceis.

Conclusão

No conjunto, (Des)controle se mostra como um retrato duro e necessário do nosso tempo. Uma produção que entende que, para muitas mulheres, perder o controle não é fraqueza, mas consequência direta de um sistema que exige tudo e devolve pouco. Carolina Dieckmann sai desse encontro definitivamente reposicionada em sua trajetória, em um papel que ecoa muito além da tela.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Rosane Svartman, Carol Minêm;
Roteiro: Iafa Britz, Felipe Sholl;
Elenco: Carolina Dieckmmann, Caco Ciocler, Júlia Rabello, Irene Ravache, Daniel Filho, Stéfano Agostini, Rafael Fuchs Müller, Iafa Britz, Felipe Haiut, Janamô, Betina Vianny, Manu Guimarães;
Gênero: Drama;
Duração: 97 minutos;
Distribuição: Sony Pictures/Elo Studios;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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