Como mesmo disse o ministro da cultura, Gilberto Gil, no texto de abertura do catálogo da exposição Arte da África: “As máscaras, as esculturas, o artesanato, os instrumentos musicais estão ao alcance dos nossos sentidos dizendo: brasileiro, lembra-te que também és africano”.
O ministro, antes de tudo, brasileiro, ativista negro, não apenas faz um convite ao brasiliense para conferir a exposição que está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil a partir de hoje. Ele conclama para que todos tenham esse encontro com os antepassados e nossa história comum, e vislumbrem com isso, nossa memória e, conseqüentemente, nosso futuro.
A exposição tem curadoria de Peter Junge, curador-chefe do departamento de África Museu Etnológico de Berlim. É a maior e mais importante mostra já realizada sobre o continente africano no Brasil e já passou pelo Rio de Janeiro e, depois de Brasília, segue para São Paulo. No Rio, ela foi vista por mais de 700 mil pessoas.
São esculturas figurativas, máscaras, instrumentos musicais e objetos de uso cotidiano, como jóias em ouro e marfim, pentes com decorações, apoios para a nuca, e tantos outros artefatos. São tesouros absolutos, do século 15 ao 20, de 31 países da África, com ênfase no Congo, em Camarões e Angola. São peças criadas por artistas em grande parte desconhecidos, mas que hoje são consideradas obras-primas mundiais.
Em quantidade e variedade, o conjunto que será exposto em Brasília é semelhante ao que permanece em exposição em Berlim. No total, o Museu Etnológico de Berlim tem um acervo africano de 75 mil peças, constituindo um dos mais importantes do mundo, mas mantém apenas 200 em exposição.
As obras da coleção do museu foram compradas de colecionadores particulares europeus ou adquiridas diretamente na África, pelos próprios pesquisadores do museu, principalmente durante o século 20. “Os etnólogos percebiam a ameaça do fim dessas culturas e intensificavam a sua atividade colecionadora para os museus etnológicos. Pretendia-se assim salvar o que ainda podia ser salvo para documentar o estado das culturas africanas antes da sua suposta destruição”, explica o curador Peter Junge.
Um dos grandes méritos da exposição é explicitar o elo que une Europa, África e América. Com ela é possível vislumbrar uma África diferente daquela à qual nos habituamos a ter contato: associada à miséria e à violência.
Ao contrário do que se pode imaginar, a exposição não tem um caráter antropológico e não pretende fazer um levantamento histórico. Quer falar de arte. “O fato de as obras de arte desempenharem uma função específica num contexto cultural, não as distingue das obras de arte criadas na Europa desde a Antiguidade”, diz o curador.
Arte da África será acompanhada por um programa de atividades paralelas visando tratar o assunto de forma multidisciplinar, que inclui mostra cinematográfica – Encontro com o Cinema Brasileiro 2004 (veja retranca abaixo)–, debates e um amplo programa educativo.
Para facilitar a visitação, a mostra está dividida em três centros temáticos: esculturas figurativas; máscaras e instrumentos musicais, partes integrantes das artes performáticas; e por último, objetos de uso cotidiano, como pentes de madeira e saleiros de marfim.