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Curta-metragens: quando tamanho não é documento

Arquivo Geral

03/06/2014 8h00

Não importa o tamanho do filme. O prazer de ver sua produção nas telonas fascina cineastas em começo de carreira e veteranos. Por falta de verbas, dificuldades de capacitação para produções maiores ou mesmo para experiência e aprendizado, o caminho mais certeiro para adentrar o mundo da sétima arte é por meio da produção de curtas-metragens, que são menos trabalhosos, mais experimentais e fácil fonte de reconhecimento.

Em Brasília, a produção desse tipo de produção tem seu espaço. Cineastas da capital veem nos curtas – que podem ter até 30 minutos de duração – o pontapé inicial na carreira. Apesar disso, “diretores de curtas-metragem sofrem com a restrita circulação comercial, limitada a festivais, veiculação online e alguns poucos canais de televisão”, explica o diretor e presidente da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo, Johil Carvalho.

“O curta funciona como escola. Os cineastas têm que passar por ele para experimentar antes de encarar um longa-metragem”, completa.

Programação inteligente

Diretor e idealizador do canal de TV a cabo Curta!, o carioca Júlio Worcman mostra que o formato de filmes menores ocupa hoje de 5% a 10% da programação. “A ideia é ganhar cada vez mais espaço. Medimos a audiência pelo Facebook e YouTube e observamos que existe um crescente número de pessoas gratas por termos suprido uma lacuna de programação inteligente que não tinha lugar na televisão”, comemora.

O canal fechado começou com há dois anos com dez milhões de assinantes. Hoje tem 11. “Temos um público fiel ao gênero, mas ainda restrito. Vamos reorientar a curadoria de curtas do canal, selecionando filmes mais divertidos do que experimentais, exatamente para angariar mais interesse no gênero”, conclui.

Produções e pesquisas intensas
 
Apesar da circulação restrita, a produção de curtas é intensa no Brasil. Pesquisador e cinéfilo, Antônio Leão da Silva Neto lançou, em 2011, o Dicionário de Filmes Brasileiros – Curta e Média Metragem para retratar a recheada produção dos filmes no País. Ele investigou o período de 1897 a 2011 e catalogou 21.686 produções de curtas e médias-metragens.
 
Foram dez anos de pesquisa para conceber o livro, que consta também com mais de cinco mil diretores. “É uma produção gigante, mas não reconhecida pela falta de espaço para divulgação”, lamenta.
Diretor de cinema e professor da Academia Internacional de Cinema e TV, Jorge Monclar acredita que a exibição de curtas deveria ser obrigatória, “inclusive, antes das novelas, em horário de pico na programação das TVs”.
 
“Não dá para viver de curtas”
 
O diretor brasiliense Thiago Moysés, que conta com produtora própria, a I-Mage, começou sua carreira fazendo curta-metragens. Entre seus filmes premiados, destaque para Fobia e Crises. Apesar do reconhecimento adquirido com as produções menores, ele destaca: “Não há circulação comercial ou incentivo. Os cineastas fazem (curtas) para experimentar e o retorno se restringe a prêmios em festivais”.
Já inserido no mercado de longas, Thiago acrescenta que existe uma diferença gritante entre os gêneros. “É como diferenciar um romance de um conto. Os longas são feitos para comercialização. É uma produção cara, que demanda mais tempo, mas a circulação é totalmente diferente”.
 
Mineiro radicado em Brasília, o cineasta Cássio Pereira dos Santos também arrematou vários prêmios com a produção de filmes curtos, dentre eles, A Menina Espantalho, consagrado em Brasília, em 2008. Com prêmios em Tóquio, Washington, Buenos Aires e no Rio, a obra conta a história de Luzia, que sonha em aprender a ler, mas é impedida pelo pai. “O reconhecimento é importante, mas não dá para viver de curtas. Afinal, não é todo filme que será premiado”, resume.
 
Sergipano radicado em Brasília, Johil Carvalho é dono da produtora Muviola Filmes. Com ela, já dirigiu seis curtas-metragens, todos importantes para o seu reconhecimento na cidade. “Inscrevi todas as produções em festivais, que é a saída para os curtas. O problema é que o retorno é muito pequeno pois dependemos do governo para conseguir captar verba. Ás vezes, ainda acaba faltando dinheiro para conclusão”, lamenta.
 
Pouca repercussão 
 
Segundo ele, as soluções para captação e investimento em curtas normalmente se restrigem a editais e ao Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Johil explica também que, diferentemente de um longa-metragem, o curta não atrai tanto patrocinador exatamente pela pouca repercussão comercial e pelo tempo de duração.
 
Primeiro curta-metragem produzido pela Muviola, Hereditário só saiu do papel em 2012, oito anos depois da criação do roteiro. O filme, que contou com o apoio do FAC, retrata as relações entre três irmãos e um pai machão à moda antiga. Hereditário foi exibido em diversos festivais, como o Festival de Brasília e Anápolis, onde foi premiado, mas sua circulação morreu ali. “Para sobreviver, trabalho em vários curtas. Me viro daqui e dali. Agora, dirigi meu primeiro longa-metragem, Jeitosinha. Temos que ter muito amor para fazer cinema”, atesta.
 
Lei caiu em desuso
 
No Brasil, existe uma lei para a produção e divulgação de curtas-metragens. A Lei do Curta tem como base o artigo 13 da Lei Federal 6.281, de dezembro de 1975.
 
De acordo com o artigo, “em todos os programas que constarem filmes estrangeiros de longa-metragem deverá ser exibido um filme nacional de curta duração, além de um jornal cinematográfico, ambos de natureza científica, técnica, cultural ou informativa”.
 
A lei sofreu várias regulamentações do Conselho Nacional de Cinema (Concine), órgão gestor do cinema brasileiro criado em 1976, pelo então presidente Ernesto Geisel. O órgão foi extinto em 1990, pelo então presidente Fernando Collor, período em que a lei também entrou em desuso, e assim permanece.
 
Criada em 2001, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) ainda não tomou nenhum posicionamento sobre a regulamentação da lei. Procurada pela equipe de reportagem do Jornal de Brasília, a Ancine não quis se pronunciar sobre o assunto.
 
Empurra-empurra
 
Os últimos passos tomados para se fazer valer a lei datam de 2006, período que o Ministério Público determinou que a agência regulamentasse a Lei do Curta num prazo de 90 dias. A diretoria da Ancine também postergou decisão sobre o caso, alegando que não seria da sua responsabilidade.
 
Para o autor Antônio Leão da Silva Neto, “a lei que trata do curta-metragem virou uma lenda”. “Seria de grande importância se os diretores conseguissem exibir seus curta-metragens antes da exibição dos longas. Para que o público se acostumasse e aderisse à rica cultura dos filmes de pequena duração”, explica.
 
O diretor Jorge Monclar também opina e é taxativo: “Infelizmente, não há regulamentação para essas produções. A Lei do Curta morreu com o Collor”.
 
Na televisão
 
Apesar da limitação comercial, alguns canais como a TV Brasil e o Curta! tentam suprir essa lacuna. Lançado em 2012, o canal Curta! tornou-se uma das opções mais viáveis para quem curte o gênero. Além de ser um meio de repercutir as produções, aquém dos festivais. No canal são exibidos diariamente 12 curtas, divididos entre os programas: A Vida é Curta, Curta Relâmpago, Momento Porta Curtas e Acervo Porta Curtas.
 
Ponto de vista
 
Para o produtor, diretor e sócio da Caza Filmes, Érico Cazarré, curta-metragem é o melhor caminho para investir na carreira de cineasta, mas há ressalvas. “Brasília tem grande produção de curtas. O problema é a baixa circulação desse tipo de filme, o que às vezes desanima”, destaca. Cazarré soma mais de 35 trabalhos neste formato. Destaque para Macacos Me Mordam, que ganhou duas estatuetas no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “As produções menores são boas para ganhar reconhecimento. Mas chega uma hora em que é preciso migrar para os longas. Os curtas não dão retorno financeiro e têm circulação restrita ”, analisa.

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