Lilia Lustosa
Especial para o Jornal de Brasília
Baseado no livro The Lost Child of Philomena Lee, escrito em 2009 pelo jornalista Martin Sixsmith, Philomena conta a história real de uma mãe-adolescente numa Irlanda católica dos anos 1950, expulsa de casa e enviada a um convento para encobrir sua própria existência e seu pecado.

O filho de Philomena nasce naquele ambiente de escravidão e de culpa, e vai crescendo até que, com apenas 3 anos de idade, será adotado (vendido) por uma família de americanos, sem que a jovem mãe tenha tido direito nem mesmo a um adeus! Dali em diante, a ainda adolescente Philomena (interpretada quando adulta pela magnânima Judy Dench) seguirá seu destino de castigo e culpa, dividida entre o pecado do sexo antes do casamento e o pecado da mentira mantida para preservar sua imagem e sua sobrevivência numa sociedade extremamente conservadora e preconceituosa.
A dupla culpa-pecado é o fio condutor desse filme brilhantemente roteirizado por Steve Coogan, que encarna também o papel do jornalista inglês Martin Sixsmith, responsável por revelar ao mundo a história de Philomena, bem como de outras mães-adolescentes irlandesas, depois de tê-la ajudado a descobrir o paradeiro do filho roubado.
Questionamentos
Culpa e pecado incutidos por uma cultura regida pela Igreja Católica e que vão ser constantemente questionados ao longo do filme, sem, no entanto, tomar de fato nenhum partido, sem estabelecer nenhuma conclusão fechada. Ora concordamos com Sixsmith e com sua revolta contra os absurdos incutidos pelo catolicismo, ora compreendemos e respeitamos a fé quase cega que move Philomena.
Entendemos, por exemplo, o espanto do jornalista com relação ao desejo de confissão de Philomena, em que ele agressivamente pergunta: “Se confessar por que, pra quê? Que pecados você tem pra confessar?”, sugerindo, em seguida, que quem deveria se confessar era a própria Igreja que lhe tomara o filho, vendendo-o e sonegando informações sobre seu paradeiro.
Ao mesmo tempo, apreciamos e respeitamos o desejo dela, admirando sua bondade, seu coração “largo” e sua infinita capacidade de perdão. E essa liberdade de pensamento é fantástica no filme para pensar e para se encantar, que concorre ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora Original. E Judy Dench, claro, ao de Melhor Atriz.
Dois mundos
Fora a questão religiosa, temos no filme um confronto entre dois mundos bem distintos: de um lado, o jornalista sendo o típico inglês da classe alta, egresso de Oxford e morador de Knightsbridge, bairro superchique de Londres, e do outro lado, Philomena, enfermeira aposentada.