Histórias Para Lembrar Dormindo é o novo livro de Braulio Tavares, escritor e compositor paraibano reconhecido no campo da literatura fantástica e da ficção científica. Se há exemplos densos do gênero no mundo, como explica Tavares na entrevista abaixo, no Brasil ele é um dos poucos escritores que alcança profundidade e que faz jus a críticas realmente literárias.
Com o viés surreal, reforçado pelas ilustrações geométricas e quase inconscientes de Christiano Menezes, o título não poderia ser melhor. E Tavares garante que boa parte dos textos nasce mesmo em sonhos, comunicando-se com uma mistura de arquétipos junguianos, narrativas interessantes e informações chacoalhadas. Uma agradável confusão para o leitor, que não sabe mais se dorme acordado ou acorda dormindo. O autor sabe. Sem se perder, Tavares revela como se mantém tão produtivo e mostra que é possível aproveitar o sono para a arte. Algo como o Ibis Sleep Art App (aplicativo que transforma os padrões de sono do usuário em obras de arte personalizadas), mas com o toque da consciência e da decisão que só os humanos (agora e sempre, independentemente dos avanços científicos e tecnológicos) podem ter.
Você tem algum conceito próprio de literatura fantástica e/ou ficção científica?
Literatura fantástica é a história em que acontece algo que não poderia acontecer no mundo real. A ficção científica é a história em que as coisas (fantásticas ou não) acontecem como consequência de alguma inovação na ciência ou na tecnologia. (Isto seria a mais ampla definição possível; há inúmeros “casos especiais”).
Seus textos trazem reflexões sociais (Notas de Um Mendigo Taciturno) e políticas (A Guerra do Izaque), apenas para citar alguns exemplos. Seria uma nova conformação do gênero fantástico?
O gênero FC (Fantasy & Co, em inglês) é avaliado de maneira errônea por muita gente. Não é só entretenimento. Existe FC de vanguarda, politicamente engajada, sociológica etc. O gênero sempre tratou de temas relevantes: avanços científicos e avanços tecnológicos. É uma literatura que trata constantemente dos temas sociais e políticos mais importantes. E já tratava deles (ecologia e crise ambiental, por exemplo) décadas antes do público (e da “literatura séria”) se interessar. Infelizmente, o que mais aparece é sua face comercial, popularesca, para adolescentes, contando historinhas de aventuras. Mas grande parte da FC tem a mesma relevância que qualquer outra literatura.
Você escreveu acordado as Histórias Para Lembrar Dormindo? Qual é o papel dos sonhos em seu processo criativo?
Eu costumo anotar sonhos há mais de 30 anos. Muitas das minhas histórias nascem de sonhos. Se eu não entendo o sonho, melhor ainda. Claro que nem tudo deste livro teve essa origem, mas acho que o sonho pode ser uma fonte de enredos, situações, personagens e cenas isoladas.
Há alguma intersecção desses contos com a essência da crônica, no sentido da exposição de um cotidiano real e não imaginário?
Eu não me preocupo se o que estou escrevendo é uma “crônica”, um “conto”. Chamo tudo isso de “textos”. Cada texto se desenvolve de acordo com a inspiração do momento. Para mim, é irrelevante como o crítico ou o leitor irão classificá-lo. Basta que seja um texto interessante pelo que diz e como o diz.