Demorou, mas O Rappa finalmente voltou. Com som artesanal, a banda perpetua sua história marcada pela crítica social, com direito à poesia com dedo na ferida no novo trabalho, Nunca Tem Fim…. A pausa de cinco anos não abalou as estruturas do grupo, tampouco seus ideais. Antes do lançamento do CD, os cariocas fizeram barulho com o hit Vem pra Rua, jingle de um comercial de carro, cantado por Marcelo Falcão, que acabou virando hino das manifestações que assolaram o País em junho deste ano. Além de não fazer parte do setlist dos shows, a música não está no álbum. A música Cruz de Tecido faz parte do repertório. Na letra, a banda recorda o acidente aéreo de 2007 da empresa Tam, em São Paulo. Em entrevista ao JBr., o guitarrista Xandão explica como foi o processo de produção do disco, inspirações, regravações, além de contar um pouco sobre o que realmente move O Rappa.
Após cinco anos, vocês aparecem com um trabalho inteiramente inédito. Por que essa pausa?
É um hiato de cinco anos se falarmos sobre lançamento de disco, mas estamos desde 2011 na estrada com força total. Tanto que, nesse período, tocamos em duas edições do Lollapalooza, uma em São Paulo e outra em Chicago, nos EUA. Estamos juntos há 20 anos e, em um certo momento, paramos para perceber que nunca tínhamos tirado férias. Resolvemos tirar esse tempo, entre 2009 e 2011, para nós mesmos, para fazer outras coisas. Voltamos mais fortes e com o material que está nesse disco.
Vocês estão acostumados a colocarem o dedo na ferida. O que move o trabalho do Rappa?
É um desejo sincero de mostrar o que a gente acredita. De olhar o que acontece nas ruas, ler os jornais e continuar se incomodando, questionando.
A poesia vem aliada a protesto. Onde buscam inspirações para compor?
A personalidade das nossas letras vem da liberdade que temos para criar. Falamos sempre sobre temas que consideramos pertinentes. Não planejamos protestar, falamos sobre o que pensamos e acreditamos. Mas, infelizmente, nosso País é rico em matéria-prima para letras com esse viés. Do nosso lado, posso dizer que vamos continuar falando sobre esses assuntos enquanto eles continuarem existindo.
E o processo de produção do disco?
Nos últimos anos, cada um de nós criou muito material em estúdio. Isso vai de pequenos sons a trechos de bases e partes de letras. Para se ter ideia, começamos a gravar esse disco com mais de 400 materiais na cabeça. Ao longo dos meses, fomos selecionando e misturando as ideias, até ver o Nunca tem Fim… tomar a forma que tem hoje. O Tom Saboia, que já tinha trabalhado com a gente no 7 Vezes, é peça importante nesse processo. Ele nos ajudou a ligar os pontos e selecionar nosso material.
São 20 anos de carreira. O que O Rappa traz de novo?
O disco é uma resposta a sua pergunta no sentido mais amplo. Nele, é possível ver a identidade de uma banda transitando por sonoridades e timbres novos, temas novos, músicas com duração explorada ao máximo. Tudo isso traz ao ouvinte uma experiência mais contemplativa. Podemos dizer que O Rappa hoje é mais direto em suas letras.
O público de vocês tem rejuvenescido. Hoje, os fãs mais velhos levam os filhos aos shows. Essa mudança é visível?
Isso já acontece há algum tempo. Tem o pai que vai com o filho, tem o fã mais antigo, mas tem também a molecada que se juntou para ir ao show. Ver isso se repetir por todo o País é muito gratificante.
Vocês regravaram Vapor Barato, que acabou se tornando um grande sucesso. É uma música marcante?
Com certeza. A música (com letra de Jards Macalé e Waly Salomão) já tinha um efeito sobre a gente antes mesmo de pensarmos em gravá-la. É um clássico. Waly, com quem tivemos contato direto, foi um cara que incentivou a gente no começo de carreira. Na turnê que fizemos do CD/DVD O Rappa ao Vivo na Rocinha, usamos um poema sampleado de Waly Salomão em cima de um beat para abrir a faixa O Salto. É uma referência até hoje.
Hoje, o País vive um momento delicado, em meio a explosões de corrupção e manifestações. Como enxergam este momento?
Com os melhores olhos. Não podemos, de modo algum, se acostumar com a impunidade. Ela alimenta o ciclo da corrupção. As pessoas querem romper com isso para que o Brasil se torne o país que tantas vezes foi prometido por aí. Havia um vazio crítico e as manifestações ocuparam essa lacuna.
Há muita gente talentosa surgindo. O que vocês têm ouvido de novos talentos?
Tem muita coisa e de estilos diferentes. O rap teve uma safra muito boa. Pouca gente sabe, mas o primeiro disco do Dexter foi produzido por mim e pelo DJ Negralha. Ele ainda estava preso naquela época. Também vi boas bandas saírem de Curitiba.
Tem mais um DVD nos planos do Rappa?
Com certeza. A gente já adotou o registro dos shows e da estrada como uma parte do nosso trabalho. Nosso canal no YouTube tem uma série enorme de mini-documentários feitos a partir dos nossos shows.
Mas há algum projeto especial em que estejam envolvidos?
Nosso foco agora está na turnê do novo trabalho. Percorrer o País com o Nunca Tem Fim… e voltar a visitar cidades que não tocamos há mais tempo.