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Cinema

Três caminhos que a Plataforma Brasil de Audiovisual aponta para o futuro do cinema nacional

Iniciativa lançada durante o Festival de Xangai busca ampliar parcerias, fortalecer a produção brasileira e criar novas oportunidades para o audiovisual no mercado internacional

Aline Teixeira

21/08/2026 16h36

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Foto: Divulgação

A participação brasileira no Festival Internacional de Cinema de Xangai (SIFF), na China, abriu novas perspectivas para o audiovisual nacional. Lançada durante o evento, a Plataforma Brasil de Audiovisual levou ao país asiático uma delegação de 90 profissionais, considerada a maior participação brasileira da história do festival.

Durante a missão, representantes do setor participaram de rodadas de negócios e encontros com empresas e instituições chinesas, conheceram estruturas de produção e fortaleceram os laços culturais entre os dois países. A programação também contou com a Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai, que apresentou nove produções nacionais ao público local.

A partir das experiências e conexões estabelecidas durante a viagem, a Plataforma aponta três caminhos que podem contribuir para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro.

1. O público internacional quer conhecer as histórias brasileiras

A Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai mostrou que as produções nacionais podem encontrar espaço mesmo em mercados com realidades culturais diferentes. Realizada em parceria com o Festival de Xangai, a programação reuniu nove títulos brasileiros, incluindo dois filmes que também concorreram a prêmios no SIFF.

A procura do público fez com que algumas sessões esgotassem os ingressos. Inicialmente planejada para um número menor de exibições, a mostra terminou com 52 sessões, quase três vezes a quantidade prevista.

A seleção passou por diferentes gêneros e formatos, incluindo animações, clássicos e documentários. Entre os títulos estava “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário de Eliza Capai que acompanha o crescimento de um grupo de meninas de Guaribas, no interior do Piauí, cidade que recebeu o Programa Fome Zero no início dos anos 2000.

Mesmo retratando uma realidade distante da vivida pelo público chinês, o filme encontrou identificação entre os espectadores. Mariana Genescá, produtora que acompanhou a obra durante a missão, relatou que algumas pessoas procuraram a equipe após a sessão e demonstraram emoção ao comentar a história e as personagens.

A experiência reforça a possibilidade de ampliar a circulação internacional de produções brasileiras e apresentar diferentes aspectos da cultura e da sociedade do país a novos públicos.

2. A China pode ser uma parceira também no campo cultural

A aproximação com o mercado chinês também evidencia o potencial das relações internacionais para além dos negócios. No campo das coproduções, a Argentina ainda ocupa posição de destaque para o Brasil, favorecida pelo Acordo Latino-Americano de Co-Produção Cinematográfica, firmado em 1989 por dez países da região.

Segundo dados do Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015-2024, divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), o acordo foi o instrumento mais utilizado para viabilizar coproduções no período, correspondendo a 32% do total.

O Brasil também vem buscando ampliar suas relações com países integrantes do BRICS. O país negocia atualmente um acordo de coprodução com a Rússia e trabalha para aprofundar a aproximação com a China, que é seu principal parceiro comercial desde 2009.

A relação audiovisual entre Brasil e China já possui alguns marcos. Em 2017, os dois países assinaram um Acordo de Coprodução de Filmes. Seis anos depois, em 2023, foi firmado também um Acordo de Coprodução Televisiva.

A aproximação cultural, porém, antecede esses acordos. Nos anos 1980, a novela “Escrava Isaura” se tornou um fenômeno na China. A produção foi a primeira telenovela estrangeira exibida no país após a Revolução Cultural e levou Lucélia Santos a receber o prêmio Águia de Ouro, considerado um dos principais reconhecimentos da televisão chinesa.

3. O fortalecimento do audiovisual depende de investimentos de longo prazo

A missão brasileira também permitiu conhecer de perto a estrutura da indústria audiovisual chinesa. Além das reuniões com representantes do mercado, a delegação visitou estúdios e complexos cinematográficos, entre eles o Hengdian World Studios, considerado o maior centro de produção cinematográfica e televisiva do mundo.

O modelo de Hengdian vai além da construção de estúdios. O complexo integra um ecossistema que reúne audiovisual, tecnologia, turismo e outros setores da economia. A estrutura é resultado de investimentos e de um projeto de desenvolvimento pensado no longo prazo.

Em 2025, a China produziu mais de 400 filmes e registrou mais de 50 bilhões de yuans, aproximadamente R$ 38,6 bilhões, em bilheteria. O país também possui o maior circuito exibidor do mundo, com cerca de 90 mil telas em funcionamento, número que pode chegar a 100 mil.

No Brasil, iniciativas recentes também apontam para uma estratégia de desenvolvimento do setor a médio e longo prazo. Em 2026, o país alcançou o maior volume de investimento público da história destinado ao cinema, com R$ 1,41 bilhão, aumento de 29% em relação ao ano anterior.

Os recursos fazem parte do Plano de Ação 2026 do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), coordenado pela Ancine. A iniciativa prevê investimentos em diferentes regiões do país e em áreas como cinema, televisão e plataformas de streaming.

A integração entre audiovisual e outros setores também começa a ganhar espaço em projetos municipais. No Rio de Janeiro, a RioFilme trabalha na criação de um Distrito Criativo na área do antigo Parque Olímpico de 2016. A proposta é transformar o espaço em um polo de cinema e entretenimento, com a instalação de centros de emissoras e 16 estúdios audiovisuais.

O projeto tem como uma de suas referências o modelo do Grupo Hengdian, com quem a RioFilme negocia uma parceria. Segundo Leo Edde, diretor-presidente da RioFilme, a proposta é adaptar ao contexto brasileiro um modelo que conecta produção audiovisual, infraestrutura e desenvolvimento econômico.

Uma indústria em busca de novas conexões

A participação brasileira em Xangai reuniu empresas, produtoras, associações e profissionais de diferentes estados. Entre os representantes estavam Vitrine Filmes, Gullane, Sato Company, ORI Imagem & Som, Otto Desenhos Animados, Flamma Produções, Copa Studio, Pinguim Content, Coração da Selva, Olhar Filmes, Estúdio Giz, Movioca, Mixer Films, Quanta Works, FICA – Federação da Indústria e Comércio Audiovisual, Boulevard Filmes, Amorim Filmes, Cinema do Brasil, Formata, Las Margaridas, Lemos Consulting LTDA, Têm Dendê Productions, Abrasia e Instituto Cine+.

A experiência da Plataforma Brasil de Audiovisual em Xangai evidencia um movimento de expansão das conexões do cinema brasileiro. A busca por novos públicos, o estabelecimento de parcerias internacionais e a construção de estruturas de produção integradas aparecem como possibilidades para ampliar a presença do audiovisual nacional dentro e fora do país.

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