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Cinema

Mostra Todd Haynes transforma CCBB Brasília em território de melodrama, dissidência e reinvenção

Retrospectiva inédita no Brasil reúne 23 filmes, debates, curso, catálogo exclusivo e ações de acessibilidade para aprofundar o diálogo sobre cinema queer e linguagem cinematográfica

Tamires Rodrigues

03/03/2026 5h00

Atualizada 02/03/2026 21h50

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Longe do Paraíso, 2002. — Foto: Divulgação

Brasília recebe, a partir desta terça-feira (3) a 22 de março, uma das retrospectivas mais relevantes do ano para quem acompanha o cinema contemporâneo. A Mostra Todd Haynes ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil com 23 filmes, 13 dirigidos pelo cineasta estadunidense e outros 10 em diálogo direto com sua obra, além de debates, sessões comentadas, curso e lançamento de catálogo inédito. Com entrada gratuita e ações de acessibilidade, a programação transforma a sala de cinema em espaço de encontro, reflexão e formação de público.

Associado ao New Queer Cinema dos anos 1990, Todd Haynes construiu uma filmografia que tensiona convenções narrativas e questiona estruturas sociais por meio do melodrama, da alegoria e da reinvenção de gêneros clássicos. Títulos como Longe do paraíso, Carol, Velvet Goldmine, Não estou lá, Mal do século e Segredos de um escândalo, revelam um diretor atento às máscaras sociais e às fissuras que atravessam família, desejo, identidade e poder.

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Segredos de Um Escândalo, 2023. — Foto: Divulgação

Para a curadora Camila Macedo em entrevista ao Jornal de Brasília, a própria natureza da obra de Haynes orientou a construção da mostra como uma constelação de atravessamentos estéticos e políticos. Ela explica que “o Todd Haynes tem uma formação cinéfila, por assim dizer, então a sua filmografia evoca de maneiras muito diretas, ainda que inventivas e singulares, outras obras e autorias”. Segundo Camila, o mergulho nesse universo permitiu identificar tanto referências assumidas quanto filmes atravessados por influências dele, reforçando a ideia de aproximação entre diferentes cinemas.

Essa rede de diálogos se materializa na presença de realizadores como Chantal Akerman, Rainer Werner Fassbinder e Douglas Sirk. Ao serem vistos em conjunto, os filmes revelam ecos formais e temáticos que atravessam décadas. Carol Almeida, também curadora da mostra, observa que há conexões evidentes, como a relação entre Longe do paraíso e Tudo que o céu permite, mas também aproximações mais sutis. Para ela, “é muito bom ver os três filmes e entender as diferentes formas como cada diretor vai explorar esse tema”, especialmente quando o amor proibido ameaça ruir um conforto social.

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Velvet Goldmine, 1998. — Foto: Divulgação

Um dos eixos centrais da retrospectiva é o melodrama, frequentemente tratado como gênero menor. Carol destaca que “o melodrama é uma linguagem da qual Todd Haynes vai se alimentar justamente para tensionar e perturbar códigos morais e pedagogias sobre o que deve ser uma família tradicional ou um amor romântico”. Ao utilizar uma forma narrativa reconhecível, o diretor provoca o espectador a questionar as regras que essas histórias historicamente ajudaram a consolidar.

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Carol, 2017. — Foto: Divulgação

Melodrama como ferramenta de ruptura e crítica social

A figura feminina ocupa lugar central nesse percurso. Na mesa dedicada às donas de casa encarceradas nas estratégias melodramáticas, a discussão parte de personagens como Carol White, Cathy Whitaker e Carol Aird para refletir sobre sintomas de enclausuramento e sobre os imaginários que moldam o que se convencionou chamar de mulher. Carol afirma que “todas elas nos ajudam a discutir sobre produções de imaginários que afetam a vida real das pessoas até hoje, ou talvez nos afetam mais do que nunca”.

Já a mesa sobre o legado de Haynes para os novíssimos cinemas queer amplia o olhar para as reverberações contemporâneas. Camila também identifica uma geração herdeira do New Queer Cinema menos interessada apenas em políticas de representação e mais empenhada em reinventar a linguagem. Segundo ela, “filmes queer que dialogam com codificações de gêneros cinematográficos, em especial as do melodrama, ecoam interesses de Haynes”.

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Safe, 1995. — Foto: Divulgação

Cinema queer, formação de público e legado contemporâneo

A mostra também se desdobra para além da experiência da sala escura. O catálogo inédito, com textos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros e entrevista exclusiva com o diretor, funciona como extensão crítica do evento. Camila ressalta que “produzir registro e memória, inscrever a efemeridade do acontecimento em outra materialidade, é importante para fomentar outras reverberações e expandir as reflexões provocadas pela programação”.

Já para Carol, a obra de Haynes permanece viva porque revela aquilo que se esconde sob as superfícies. Ela observa que “se existe algo em comum nas várias fases do cinema de Todd Haynes é essa habilidade que ele tem em criar situações e personagens que criam máscaras sociais”, lembrando que o diretor não oferece moral pronta, mas devolve ao espectador a responsabilidade pelo julgamento.

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Sem Fôlego, 2017. — Foto: Divulgação
PROGRAMAÇÃO COMPLETA POR DIA:

03 de março 2026 (terça-feira)
18h30 – Sessão apresentada (Mariana Souto) + Não estou lá (I’m not there, Todd Haynes, 2007, 135 minutos, EUA / ALE, digital) – 12 anos

04 de março 2026 (quarta-feira)
16h30 – Sem fôlego (Wonderstruck, Todd Haynes, 2017, 116 minutos, EUA, digital)  – 10 anos
19h00 – Segredos de um escândalo (May December, Todd Haynes, 2023, 117 minutos, EUA, digital)  – 16 anos

05 de março 2026 (quinta-feira)
16h30 – O preço da verdade (Dark waters, Todd Haynes, 2019, 126 minutos, EUA, digital) – 12 anos
19h00 – Sessão apresentada (Ana Caroline Brito) + Carol (Carol, Todd Haynes, 2015, 118 minutos, EUA / GBR, digital) – 14 anos

06 de março 2026 (sexta-feira)
17h30 – Tudo que o céu permite (All that heaven allows, Douglas Sirk, 1955, 89 minutos, EUA, digital) – 16 anos
19h15 – Longe do paraíso (Far from heaven, Todd Haynes, 2002, 107 minutos, EUA / FRA, digital) – 14 anos

07 de março 2026 (sábado)
16h00 – The Velvet Underground (The Velvet Underground, Todd Haynes, 2021, 121 minutos, EUA, digital) – 16 anos
18h15 – Velvet Goldmine (Velvet Goldmine, Todd Haynes, 1998, 123 minutos, GBR / EUA, digital) + Sessão comentada (Parceria Cinebeijoca) – 18 anos

08 de março 2026 (domingo)
15h15 – Uma mulher sob influência (A woman under the influence, John Cassavetes, 1974, 146 minutos, EUA, digital) – 16 anos
18h00 – Mal do século (Safe, Todd Haynes, 1995, 119 minutos, EUA / GBR, digital) + Sessão comentada (Parceria Cinebeijoca) – 14 anos

10 de março 2026 (terça-feira)
17h00 – Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles, Chantal Akerman, 1975, 201 minutos, BEL / FRA, digital) – 16 anos

11 de março 2026 (quarta-feira)
18h30 – Canção de amor (Un chant d’amour, Jean Genet, 1950, 26 minutos, FRA, digital) + Veneno (Poison, Todd Haynes, 1991, 85 minutos, EUA, digital) + Sessão comentada (Marcus Azevedo) – 18 anos

12 de março 2026 (quinta-feira)
17h30 – Desencanto (Brief encounter, David Lean, 1945, 86 minutos, GBR, digital) – 14 anos
19h15 – Carol (Carol, Todd Haynes, 2015, 118 minutos, EUA / GBR, digital) – 14 anos

13 de março 2026 (sexta-feira)
19h00 – O suicídio (The suicide, Todd Haynes, 1978, 22 minutos, EUA, digital) + Assassinos: um filme sobre Rimbaud (Assassins: a film concerning Rimbaud, Todd Haynes, 1985, 43 minutos, EUA, digital) + Peggy e Fred no inferno: o prólogo (Peggy and Fred in hell: the prologue, Leslie Thornton, 1984, 20 minutos, EUA, digital)  + Sessão comentada (Carol Almeida) – 16 anos

14 de março 2026 (sábado)
10h00 – Curso “Uma leitura da in/visibilidade lésbica a partir de ‘Carol’, de Todd Haynes” – 16 anos
17h00 – Debate 1: Donas de casa encarceradas nas estratégias melodramáticas de Todd Haynes, com Emilia Silberstein, Lila Foster e mediação de Carol Almeida (com LIBRAS) – 16 anos
19h00 – Segredos de um escândalo (May December, Todd Haynes, 2023, 117 minutos, EUA, digital) – 16 anos

15 de março 2026 (domingo)
10h00 – Curso “Uma leitura da in/visibilidade lésbica a partir de ‘Carol’, de Todd Haynes” – 16 anos
16h00 – O medo devora a alma (Angst essen Seele auf, Rainer Werner Fassbinder, 1974, 93 minutos, ALE, digital) – 16 anos
18h00 – Longe do paraíso (Far from heaven, Todd Haynes, 2002, 107 minutos, EUA / FRA, digital) + Sessão comentada (Letícia Bispo) – 14 anos

17 de março 2026 (terça-feira)
18h30 – Sessão com acessibilidadeCarol (Carol, Todd Haynes, 2015, 118 minutos, EUA / GBR, digital) + Conversa com a curadoria – 14 anos

18 de março 2026 (quarta-feira)
19h00 – O preço da verdade (Dark waters, Todd Haynes, 2019, 126 minutos, EUA, digital) – 12 anos

19 de março de 2026 (quinta-feira)
Jollies, Dottie leva palmadas e Primavera, comentada por Camila Macedo

SERVIÇO
Mostra Todd Haynes
Data: De 3 a 22 de março
Local: CCBB Brasília
Endereço: Asa Sul Trecho 2 – Asa Sul, Brasília – DF
Website: https://ccbb.com.br/brasilia/
Ingressos: Entrada gratuita. Retirada dos ingressos 1h antes, presencialmente, na bilheteria do CCBB Brasília.
Classificação: ver programação

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