Mais uma noite da Mostra Competitiva Nacional da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, nesta segunda feira (14), reúne três produções marcadas pela memória, pela política e pela ancestralidade negra: o longa “Tudo é Tempo”, de Marcos Guttmann, e os curtas “Fundura”, de Catapreta, e “Cidão”, de Alessandra Gama. Ao Jornal de Brasília, os três diretores falaram sobre os processos por trás de cada obra.
“Tudo é Tempo” acompanha, ao longo de vinte anos, a transformação de personagens que declararam voto em Lula desde 2002. Marcos Guttmann contou como nasceu o projeto. “O projeto Tudo é Tempo nasceu do desejo de acompanhar como a vida de pessoas comuns se transformaria ao longo do governo Lula. Tudo começou em 2002, período marcado por um forte sentimento de esperança e pela expectativa de profundas mudanças no Brasil. Não imaginava que a obra levaria vinte anos para ser concluída”, disse Marcos Guttmann ao JBr.
Entre as trajetórias acompanhadas pelo documentário, o diretor destacou a de um dos personagens centrais. “A mais marcante das mudanças ao longo desse período talvez tenha sido a trajetória do Fernando, um homem negro, morador da Cidade de Deus, que declarava seu voto em Lula baseando se em critérios práticos, como a variação nos preços do arroz e do cimento. A mudança de opinião dele em 2018 foi um momento de grande impacto para mim”, relatou.
O diretor também citou a influência do documentarista Eduardo Coutinho na construção de seu olhar sobre os personagens. “Esse exercício de alteridade e a prática do não julgamento foram desenvolvidos, em grande medida, a partir da observação da obra de Eduardo Coutinho, o grande mestre do documentário brasileiro, cuja influência é notável neste filme”, finalizou.
Curtas discutem religiosidade de matriz africana e memória
Na disputa de curtas, “Fundura”, de Catapreta, parte de uma reflexão sobre o esvaziamento dos terreiros de candomblé e umbanda no Brasil contemporâneo. Ao Jornal de Brasília, o diretor explicou a origem do projeto.

“Minha oposição ao sistema dos terreiros remonta à infância. O conceito de fundura nasce da minha observação sobre a hegemonia das igrejas evangélicas no Brasil, que resulta no esvaziamento dos terreiros e em seu consequente embranquecimento. Busco traçar um retrato do homem negro contemporâneo no Brasil, reunindo suas diversas contradições”, disse Catapreta.
O diretor também comentou por que optou pela animação para contar essa história. “Dedico me exclusivamente à animação desde o início da pandemia, período em que concebi o roteiro que agora finalizei. A narrativa apresenta elementos que seriam complexos de transpor para o cinema convencional, razão pela qual o projeto foi estruturado, desde a origem, para ser desenvolvido especificamente como uma animação”, pontuou.
Já “Cidão”, de Alessandra Gama, nasce de uma memória pessoal transformada em narrativa política sobre a violência urbana letal contra a população negra. A diretora falou ao Jornal de Brasília sobre o processo de transpor essa história para o cinema.

“A urgência e a latência de conviver com essas memórias acompanharam me ao longo do tempo. Os índices e o impacto da violência urbana letal sobre a população negra elevam esta questão a uma pauta coletiva, transcendendo o arquivo pessoal. Este filme configura se como um gesto de poesia visual contra o esquecimento”, afirmou Alessandra Gama.
A diretora também refletiu sobre a relação entre memória e fabulação na construção do filme. “Toda lembrança é, por natureza, um processo de fabulação, visto que nunca a alcançamos em sua plenitude. Busco reconstruir essas memórias a partir de convicções e fatos concretos, integrando os a vivências que me constituíram como indivíduo, filha e sujeito no mundo”, concluiu.