ANDRÉ FONTENELLE
FOLHAPRESS
Ao atender a ligação da reportagem, na tarde desta quinta-feira (22), Maria Fernanda Cândido estava eufórica. “Gente, tô muito feliz, tô muito feliz, tô muito feliz!” Poucos minutos antes, saíra a notícia da indicação de “O Agente Secreto” a quatro estatuetas do Oscar -melhor filme, filme internacional, direção de elenco e ator, para Wagner Moura.
Cândido está no filme de Kleber Mendonça Filho que se tornou sucesso internacional, dando vida a Elza, o contato secreto do protagonista interpretado por Moura.
A categoria de elenco foi criada este ano, para agraciar diretores da área -no caso do filme brasileiro, Gabriel Domingues. De certa forma, é uma recompensa para todos os atores e atrizes envolvidos no projeto.
“É muito bonita essa indicação”, diz Cândido. “É um trabalho interessantíssimo, para mim tão importante quanto qualquer outra área, porque você às vezes tem um roteiro maravilhoso, um diretor incrível, mas se não tiver o elenco muito acertado, pode acabar perdendo o filme.”
A atriz nem tivera tempo de falar com Moura, que horas antes esteve com ela no Théâtre du Soleil, no dia do ensaio final da peça “Balada Sobre o Abismo” -“Ballade au-dessus de l’Abîme”, na versão francesa que entra em cartaz agora.
O ator passou rapidamente pela capital francesa, onde assistiu ao desfile da Dior na Semana de Moda de Paris. Cândido mandou-lhe uma mensagem depois da indicação, mas ainda não tinha recebido resposta. “Ele está voando para Los Angeles, não sei como é que é, se tem internet nesse voo, se ele está sabendo ou não.”
Além da indicação, 2026 começou com a reestreia em Paris do seu espetáculo baseado na obra de Clarice Lispector. “Balada Sobre o Abismo” foi brevemente encenado em São Paulo, em duas curtas temporadas no ano passado. Sônia Rubinsky a acompanha ao piano, com obras de Heitor Villa-Lobos, Sergei Rachmaninov e Alberto Nepomuceno que remetem à nostalgia, sentimento vivido por Clarice, nascida na Ucrânia.
“Acho que estou colhendo frutos de sementes que venho plantando com muita paciência e muito cuidado. Saborear essa colheita, saborear isso tudo, tem me alimentado”, diz a atriz, radicada na França há oito anos.
Em Paris, o palco é o histórico Théâtre du Soleil, fundado em 1964 por Ariane Mnouchkine, um ícone do teatro francês, hoje com 86 anos. “Devo muito à Ariane, que me acolheu, me deu esse lugar, e a Maurice Durozier [o diretor].”
A temporada em Paris será breve, somente até o dia 1º de fevereiro, mas deve ser estendida a palcos e cidades da França e de outros países francófonos nos próximos meses.
O conteúdo da peça é quase idêntico ao da versão apresentada aos brasileiros, exceto por uma ou outra frase e, claro, pelo idioma. O francês quase sem sotaque com que Cândido se exprime esconde um trabalho tenaz.
Ela sabe que o público local é extremamente exigente. “Eu também sou muito exigente, mas o francês entende que a personagem é uma ucraniana que cresceu no Brasil. Então claro que meu sotaque está presente, mas não faria sentido um francês perfeito”, afirma.
Se o texto da peça é o mesmo, a interpretação visual que é feita dele varia mais, refletindo, para a atriz, a cultura de cada país. Ela compara o trabalho de Clarice a uma moeda com “um lado luminoso e um lado mais sombrio”.
“No Brasil todo mundo enxerga o lado luminoso dessa moeda. Então a montagem tem uma coisa diáfana, etérea, o figurino esvoaçante, algo muito luminoso, inclusive a luz do Caetano Vilela é quase um personagem. Na França, a Virginie Le Coënt vai fazer uma interpretação desse mesmo objeto, mas o lado visto é o mais sombrio”, afirma, referindo-se aos diretores de iluminação das montagens brasileira e francesa.
Cândido diz que tem novos convites para o cinema, mas prefere manter os detalhes em segredo. Teriam a ver com o sucesso da peça ou do filme?
“As coisas se misturam, são propostas que eu tive no segundo semestre, não sei dizer exatamente. Mas sem dúvida nenhuma o que está acontecendo com ‘O Agente Secreto’ potencializa a minha história com o cinema. A aceitação por parte do público em todos os cantos do mundo é muito forte.”
BALLADE AU-DESSUS DE L’ABÎME
Quando Qua. a sex., às 20h. Sáb. e dom., às 16h
Onde Théâtre du Soleil – 2 rte. du Champ de Manoeuvre, 75012, Paris
Preço $20 (R$ 125)
Elenco Maria Fernanda Cândido e Sonia Rubinsky
Direção Maurice Durozier
Adaptação Catarina Brandão