Enquanto o cinema internacional mantém os super-heróis em evidência, o audiovisual brasileiro apresenta uma aventura que parte de referências conhecidas do gênero para construir uma mitologia própria. Manual do Herói chega hoje aos cinemas com direção e roteiro de Fáuston da Silva e coloca Ceilândia no centro de uma narrativa que combina ação, comédia, ficção científica e fantasia.
Distribuído pela O2 Play e coproduzido por Esmero Filmes e Hoje Filmes, o longa marca a estreia de Fáuston na direção de um filme de longa-metragem. Conhecido pelo curta Meu Amigo Nietzsche, que acumulou mais de 100 prêmios e reconhecimentos em festivais nacionais e internacionais, o cineasta brasiliense parte agora para um universo inspirado nos quadrinhos de super-heróis, mas construído a partir de referências sociais, culturais e geográficas do Distrito Federal.
A escolha de Ceilândia não é apenas uma decisão estética. Para Fáuston, a cidade contribui diretamente para a identidade da história por carregar uma trajetória própria, marcada por formação, resistência e construção de identidade.
“Ceilândia nasceu de um processo de remoção e reassentamento ligado à Campanha de Erradicação das Invasões e, com o tempo, construiu uma identidade cultural e social muito forte. É uma cidade que carrega uma história de superação e protagonismo. Uma cidade fictícia poderia ser inventada para servir à história; Ceilândia já chega com uma história própria. E isso dá uma verdade especial ao filme”, afirma o diretor.

Um herói que nasce da vida cotidiana
A história acompanha Agnus, jovem que recebe um livro misterioso durante um assalto. O objeto, que dá nome ao filme, apresenta a ele um universo em ruínas, no qual um pacto entre vilões e pessoas omissas ameaça destruir o que ainda resta de virtude. A partir daí, o protagonista é levado a enfrentar situações sobrenaturais, confrontos e descobertas que colocam em questão o papel que deseja assumir.
A aventura utiliza elementos recorrentes das histórias de super-heróis, mas desloca o foco dos grandes centros urbanos e dos personagens com poderes extraordinários para uma realidade mais próxima do cotidiano. O resultado é uma narrativa que incorpora a cultura urbana e as periferias do Distrito Federal, além de referências à ancestralidade indígena.
A própria concepção do protagonista segue essa lógica. Agnus não é apresentado apenas a partir de uma capacidade extraordinária, mas pelas dificuldades comuns à juventude, entre estudos, trabalho, família e responsabilidades. Eduardo Ydiriuá, intérprete do personagem, vê nessa dimensão cotidiana um dos principais pontos de identificação com o público.
“Ele está na correria de todos os dias. É focado nos estudos, no trabalho, com problemas em casa e fora de casa”, descreve o ator.
Nascido em Samambaia e descendente do povo indígena Karajá, do Pará, Ydiriuá recebeu o prêmio de Melhor Ator no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro por sua atuação no longa. A premiação antecipou o reconhecimento do filme antes da chegada ao circuito comercial.
Para Fáuston, a ideia central da obra também passa por uma noção de heroísmo que não depende de poderes ou feitos extraordinários.
“Em Manual do Herói, nossos personagens enfrentam dificuldades e crises, mas também ajudam suas famílias, suas comunidades e outras pessoas. Esse é um ponto importante do filme: o heroísmo não começa quando alguém ganha superpoderes. Começa quando uma pessoa decide ser protagonista da própria vida e fazer alguma diferença ao seu redor”, explica.

Entre quadrinhos e identidade brasileira
A construção do universo de Manual do Herói parte justamente do desafio de trabalhar com um gênero historicamente associado às grandes cidades e à cultura pop norte-americana. Em vez de reproduzir cenários e códigos estrangeiros, a produção procura adaptar essa linguagem a um contexto brasileiro.
“Uma das perguntas que deram origem a Manual do Herói foi: como transportar para o Brasil uma mitologia tão ligada aos quadrinhos urbanos americanos? A partir daí, nosso esforço foi imaginar como esse universo poderia ganhar sotaque, ritmo, humor e contradições brasileiras”, conta Fáuston.
A proposta levou a equipe a buscar na própria paisagem brasiliense elementos para construir a identidade visual e narrativa do filme. Ceilândia ocupa, nesse sentido, um papel que ultrapassa o de simples locação e se relaciona com a própria origem do universo ficcional.
“Em vez de importar Gotham ou Nova York, a gente parte de Brasília e, mais especificamente, de Ceilândia, que funciona um pouco como o nosso Bronx: um território periférico, vibrante, cheio de identidade, tensão, cultura e personagens coloridos que parecem prontos para saltar de uma página de quadrinhos”, completa o diretor.
Essa combinação também se manifesta na presença de elementos ligados à cultura urbana, às periferias do Distrito Federal e à ancestralidade indígena. A intenção é utilizar os códigos reconhecíveis do gênero para desenvolver uma história situada em outro contexto cultural.

Agnus e o sentido de persistir
A trajetória do protagonista também estabeleceu uma relação particular com Eduardo Ydiriuá. A experiência de interpretar Agnus levou o ator a refletir sobre a persistência do personagem diante das dificuldades.
“Essa frase do personagem, ela é muito forte, né? Ser herói não é poder, é querer. E isso eu trouxe pra mim até nos dias de hoje, porque ali o Agnus, ele não desiste, né? Ele vê as dificuldades, ele tá estudando, ele tá passando pela correria do dia a dia, mesmo sendo jovem, e ele não desiste”, afirma.
A construção do personagem, segundo o ator, também provocou uma identificação que ultrapassou o período das filmagens. A postura de Agnus diante dos obstáculos se tornou uma referência para Ydiriuá.
“Diferente da gente, que a gente desiste todos os dias. Então, o Eduardo também, por mais que eu seja como personagem, acredito que essa era a minha parte mais falha. Eu desistia muito, eu via que não ia conseguir, eu ficava triste logo, eu já desanimava, porque eu acreditava que eu não ia conseguir”, completa.
O filme, assim, utiliza a estrutura da aventura de super-herói para abordar uma dimensão mais cotidiana do conceito de heroísmo. A jornada de Agnus se desenvolve entre conflitos fantásticos e questões pessoais, mantendo a ideia de que a transformação do personagem também depende de suas escolhas.
Reconhecimento antes da estreia
Antes de chegar ao circuito comercial, Manual do Herói passou por diferentes espaços de exibição e reconhecimento. O longa integrou a seleção oficial da 4ª OJU – Roda Sesc de Cinemas Negros e da Mostra de Cinema Rolê 22.
O reconhecimento também veio do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde Eduardo Ydiriuá recebeu o prêmio de Melhor Ator pela interpretação de Agnus. A participação no festival reforçou a trajetória do filme dentro do circuito audiovisual antes da estreia nacional.
O elenco reúne ainda Elaine Amaro, Aline Araújo, Lila Kamayurá, Pablo Magalhães, Luiz Senna, Lino Ribeiro, João Gott, Luana Wernik e Fabrizia Posada. Bruno Torres e Sérgio Sartório participam especialmente da produção.
Serviço
Manual do Herói
Estreia: 13 de agosto de 2026
Duração: 99 minutos
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos