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Cinema

Longa filmado em Brasília revisita o caso Ana Lídia em thriller sobre memória e impunidade

Cerrado Seco, primeiro filme do diretor Bruno Caldas, foi gravado na capital com elenco que reúne Rafael e João Vitti no mesmo personagem em épocas distintas

Tamires Rodrigues

02/06/2026 5h00

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Foto: Divulgação/Isabele Luise (@iluisephoto)

Com as gravações concluídas na capital federal, Cerrado Seco chega como um dos projetos mais ambiciosos do cinema brasiliense nos últimos anos. Inspirado no assassinato da menina Ana Lídia, ocorrido em 1973 e ainda sem resolução definitiva, o longa-metragem de Bruno Caldas transita entre o thriller psicológico e o drama para falar daquilo que permanece quando a justiça não vem: a memória, o silêncio e a revolta. Com equipe majoritariamente brasiliense e fomento da Lei Paulo Gustavo, o filme tem planos de circular em festivais nacionais e internacionais.

Bruno Caldas não hesita ao explicar como chegou a esse projeto. Ao Jornal de Brasília, o diretor contou que “essa história creio que tenha me escolhido, pois não é meu único projeto e por muito tempo era o que eu mais tinha medo que andasse.” O cineasta, que tem em seu currículo curtas-metragens de forte carga emocional como Colapso e os documentários Utopia Distopia e A Terceira Margem, encontrou no caso Ana Lídia uma matéria-prima que dialoga diretamente com temas que sempre o moveram: a perda familiar, a redenção e o peso da punição que não chega. Para estruturar sua visão, contou com o roteirista Rafael Leal. “Busquei os fatos nos autos e preenchi com a história que eu gostaria de assistir, me desprendi do compromisso de me tornar um documentário e trouxe muito de mim e de várias camadas que Brasília tem no seu escopo político, econômico e social, com uma verdade própria enraizada na memória coletiva”, afirma o diretor.

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Foto: Divulgação/Isabele Luise (@iluisephoto)

O resultado é um filme que não quer dar respostas fáceis. Ao deslocar o foco do crime para suas consequências, Cerrado Seco propõe uma experiência em que memória, poder e desejo por vingança se entrelaçam ao longo de duas épocas, 1973 e 2005, revelando como o passado enterrado de uma elite pode transformar vítimas em suspeitos e a verdade em perigo. “Espero que o filme leve uma sensação de revolta, questionamentos, que as pessoas partam para suas próprias pesquisas e que, com o nosso filme, visualizem essa absurda situação dessa família. Que se coloquem em seu lugar e provoquem respostas reais para o caso”, diz Caldas.

Uma cidade que fala antes de qualquer personagem

Se há um elemento que une todos os envolvidos na produção, é Brasília. Não como pano de fundo, mas como argumento, tensão e símbolo. O diretor foi preciso ao explicar como traduziu a arquitetura modernista em linguagem cinematográfica. “Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Burle Marx trouxeram paletas e formas com propostas linguísticas. Entendê-las me permitiu trabalhar com elas como cenário. O espaço vazio entre os monumentos traz a solidão, os vitrais de Marianne Peretti com cores vermelho-sangue exaltam a paixão. Em uma cena de conflito, o verde dos bosques com o céu infinito imprime a doença sob o azul da paz, flambada pela enorme bandeira do Brasil que fala sobre a institucionalidade. Tudo é linguagem que se adequa ao nosso recorte dramático.”

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Foto: Divulgação/Isabele Luise (@iluisephoto)

Essa leitura da cidade atravessou também o trabalho de Carmem San Thiago, diretora de arte que estreia em longas-metragens após quinze curtas. Junto com o diretor de fotografia Elder Miranda Jr. e o próprio Caldas, ela construiu uma Brasília menos turística e mais cotidiana. “Havia uma memória muito viva nos relatos, nos objetos guardados, nas pequenas histórias do cotidiano. Muitas pessoas trouxeram móveis, fotografias e objetos pessoais, ajudando a construir espaços carregados de lembranças e verdade”, conta ela ao JBr, que recebeu o desafio de diferenciar visualmente as duas épocas do filme. “Em 1973, buscamos essa Brasília mais silenciosa, ainda em formação, enquanto 2005 já traz outra ocupação da cidade, outro ritmo e outra relação com os espaços.”

A paleta de cores não foi uma escolha aleatória. Caldas trouxe desde o início a narrativa visual como base da direção de arte. “O amarelo aparece ligado à culpa, o verde à doença e ao desconforto, o vermelho ao perigo e à paixão, enquanto o azul, muito presente no figurino da protagonista Lidiana, representa uma certa pureza e delicadeza dentro daquele universo mais denso”, explica Carmem. A fotografia fecha esse triângulo com referências explícitas ao cinema noir, nos contrastes, nas sombras, nos vazios que ampliam a sensação de mistério e inquietação.

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Foto: Divulgação/Isabele Luise (@iluisephoto)

Rafael Vitti, que interpreta o protagonista Cláudio jovem em 1973, sentiu a força da cidade na própria preparação. “Brasília não é só o cenário, ela é um personagem silencioso. A arquitetura monumental, aquele horizonte infinito e a secura do Cerrado trazem uma sensação de isolamento e exposição ao mesmo tempo”, diz o ator, que foi além dos sets para se conectar à cidade. “Busquei ter muitas vivências enquanto estive em Brasília: fui ao lago, a cachoeiras, andei de skate no Eixo Monumental, visitei o Parque Ana Lídia. Eu, particularmente, me apaixonei. E essa conexão com a cidade foi muito importante para a execução do filme.”

Pai e filho, um personagem, duas épocas

Uma das apostas mais ousadas de Cerrado Seco é escalar Rafael Vitti e seu pai João Vitti para interpretar o mesmo personagem em fases distintas da vida, 1973 e 2005 respectivamente. A semelhança física entre pai e filho deixou de ser detalhe e virou argumento narrativo. Os dois dividem o peso emocional de Cláudio irmão da protagonista, o agente provocador de uma tragédia familiar cujas consequências atravessam décadas.

João Vitti foi preciso ao descrever a natureza inédita da experiência. “Na verdade, nós não contracenamos juntos, e sim, dividimos o mesmo personagem. Essa experiência, profissionalmente, é inédita para nós e, no âmbito pessoal, o personagem Cláudio expandiu ainda mais nosso espaço de diálogo como pai e filho, como parceiros de vida e como colegas de profissão.” A preparação foi intensa e anterior às filmagens. “Há um intervalo de 32 anos entre a fase representada pelo Rafael e a minha. Desde o momento em que recebemos o roteiro, viemos conversando e trocando impressões sobre o Cláudio. Antes do início das filmagens, durante uma semana, trabalhamos com o diretor improvisando cenas, investigando e definindo algumas conexões entre os dois Cládios. Também não podemos desprezar a semelhança física que existe entre nós nessa ascensão e queda do personagem.”

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Foto: Divulgação/Isabele Luise (@iluisephoto)

Para Rafael, a troca com o pai funcionou como bússola emocional. “O que ele vive na juventude é o que molda o homem que meu pai interpreta depois. Trocamos muita figurinha sobre o peso que esse personagem carrega. Eu plantei as sementes da angústia e ele colheu os frutos do amargor. Ter esse espelho genético ajudou muito na verossimilhança.” O ator também falou sobre o desafio de habitar o universo noir. “No noir, o silêncio e o olhar dizem muito mais do que o texto. Eu vinha de trabalhos com uma energia mais solar ou dinâmica, então precisei abaixar o volume da atuação, buscar uma densidade mais sombria. O Bruno Caldas tem uma visão estética muito clara, e o uso das sombras ajudou a esconder e revelar as fragilidades do personagem no tempo certo.”

A responsabilidade com a memória real também pesou sobre o elenco. “Estamos tocando em uma ferida que ainda não cicatrizou no imaginário de Brasília. O caso Ana Lídia exige um respeito absoluto à memória da vítima e à dor das pessoas envolvidas”, afirma Rafael ao JBr. João, por sua vez, situou o crime no contexto da ditadura para explicar o que o filme tem a dizer sobre o presente. “Em 1973 vivíamos uma ditadura militar, regime onde imperava a opressão e a repressão, e cujo modus operandi recorrente era o silenciamento e o apagamento de pessoas e narrativas que ameaçavam o status quo. O mais triste é que hoje, em 2026, parece que nada mudou, pois o poder e o dinheiro continuam silenciando a justiça e apagando vidas em prol da impunidade.”

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