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Cinema

Donos de salas de cinema dizem que cota de tela pode ser tiro no pé sem estímulo

Debate no Fórum de Tiradentes expõe dificuldades de público, excesso de produções nacionais sem escoamento e falta de apoio estruturado à exibição, apesar de iniciativas do Ministério da Cultura

Redação Jornal de Brasília

29/01/2026 12h50

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

EDUARDO MOURA
FOLHAPRESS

O tema da conferência era árido, mas começou com uma declaração de amor. Era um painel que discutia política pública para o mercado das salas de cinema e outros tipos de exibidores.

“Eu amo o Eryk Rocha”, diz Cláudio Marques, diretor do Cine Glauber Rocha, no centro histórico Salvador.

Quando foi oferecido a Marques a exibição do filme do filho de Glauber, “A Queda do Céu”, foi batata.

“Eu falei: ‘meu Deus do céu, eu tenho que exibir’. Imagina, lá no Cine Glauber Rocha, eu não exibir o filme do filho dele. É claro que eu vou exibir. Mas não vai ter gente”, lembra Marques, lamentando a escassez de público em determinados filmes nacionais.

Só que não dá para manter a operação de um cinema apenas com amor à sétima arte. Nesse debate, que fez parte do Fórum de Tiradentes, Marques demonstrou desconforto em relação à forma como a cota de tela vem sendo aplicada no país.

O Fórum de Tiradentes se dá em meio à tradicional mostra de cinema que acontece na cidade mineira até o último dia de janeiro deste ano.

Da parte dos exibidores, há uma sensação de que eles estão encurralados. Por um lado, a política pública favoreceu muito a produção na cadeia do audiovisual nos últimos anos, inundando o mercado com filmes novos. Por outro, as salas de cinema são obrigadas a exibir uma cota mínima de obras nacionais que muitas vezes não atraem público e, portanto, não vendem ingresso.

“Eu não sou contra a cota de tela. Mas do jeito que está sendo feito, é um tiro no pé”, diz Marques. O problema é que uma grande parte dessas obras produzidas não acha apelo ao grande público. Em outras palavras, têm sido feitos filmes que não são vistos por quase ninguém.

O diretor do Cine Glauber Rocha afirma que recebe inúmeras ligações por dia, de cineastas independentes querendo colocar em cartaz no seu cinema -“gente desesperada pedindo para entrar em cartaz”, diz. “Mas o filme não tem nenhum preparo para estar em cartaz. Ele não foi concebido para estar em cartaz. Não tem dinheiro para o lançamento, não tem trailer. Isso é uma coisa que precisa ser revista urgentemente. Tem filme que não tem uma exibição sequer.”

Isso não depõe necessariamente contra a qualidade das obras, mas tem muito a ver com hábitos de consumo na era do streaming, com o pós-pandemia e com formação de público, um processo de longo prazo.

“Não há política pública nenhuma para exibição”, diz Marques. “Isso vai se voltar contra o cinema nacional se a gente continuar operando dessa forma”, queixa-se. “Não existe nenhuma sensibilidade nem do poder público, nem do produtor, nem do distribuidor com relação a isso.”

“A gente precisa pensar urgentemente na formação de público.” André Virgens, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, estava presente na plateia.

“A Política Nacional Aldir Blanc prevê a possibilidade, sim, e concreta, de apoiar diferentes iniciativas de gestão, todos aqui mencionados”, afirmou.

Ele apontou também a Política Nacional Cultura Viva, de fomento a iniciativas de cultura comunitária, como um vetor de exibição, sobretudo com cineclubes.

“Hoje o Cultura Viva tem mais de 10.000 pontos de cultura cadastrados que são potencialmente pontos exibidores no Brasil –e muitos já são”, disse Virgens.

Além de se falar de amor, falou-se sonhos nesta mesa. “O sonho é que a gente tenha uma política pública para o setor de mostras e festivais”, diz Josiane Osório, presidente do Fórum Nacional dos Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiros –ou simplesmente Fórum dos Festivais.

“Já houve uma política melhor para festivais do que a política que a gente tem hoje”, afirmou. “O que a gente precisa é a retomada das linhas de apoio”, diz. Para ela, em um momento em que há aumento na produção de filmes nacionais, cabe aos festivais o escoamento dessa grande leva de produções. Segundo Osório, são as mostras e festivais que exibem “o que não vai ser visto em nenhum outro lugar”.

Milena Evangelista, diretora de formação e inovação audiovisual do Ministério da Cultura, também esteve presente na plateia e apresentou opções de financiamento.

Dentro da Política Nacional Aldir Blanc, existe o programa de ações continuadas. Os estados que aderirem ao programa podem destinar 10% do recurso da PNAB para ações continuadas. “E aí dentro dessa caixinha específica de ações continuadas, os festivais e mostras estão contemplados”, afirma Evangelista. “Não é obrigatório, então os estados podem optar.”

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