O documentário ‘Cheiro de Diesel’, dirigido pelas jornalistas Natasha Neri e Gizele Martins, estreou na quinta-feira (2) e aborda violações de direitos humanos em favelas cariocas durante operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para os megaeventos de 2014 e 2016.
Desde a Eco 92, o Brasil registrou mais de 150 GLOs, muitas no Rio de Janeiro. A Operação São Francisco, decretada dois meses antes da Copa do Mundo de 2014, mobilizou 2,5 mil militares para 15 favelas do Complexo da Maré, com duração de 14 meses e custo estimado em R$ 350 milhões. Moradores denunciam torturas, invasões de residências, coerções e assassinatos.
Gizele Martins, co-diretora e moradora da Maré, relata que a operação inicialmente foi vendida como garantia de segurança, mas rapidamente gerou reações negativas, com detenções de crianças e invasões logo no primeiro dia. O Complexo da Maré, estrategicamente localizado próximo a vias importantes e ao Aeroporto do Galeão, foi escolhido para testes desse modelo militar.
Entre 2016 e 2018, o Rio viu outras três GLOs: uma para as Olimpíadas de 2016 e outra em 2018, com intervenção federal liderada pelo general Walter Braga Netto, que mais tarde foi condenado a 26 anos de prisão por participação em atos golpistas.
O filme narra casos específicos, como o de Vitor Santiago, alvejado por um cabo do Exército em fevereiro de 2015, que resultou em coma de 98 dias, amputação de uma perna e paralisia. O militar foi absolvido na Justiça Militar. Outros episódios incluem a Chacina do Salgueiro, em novembro de 2017, com oito jovens mortos por soldados, e a tortura de 11 jovens na ‘Sala Vermelha’, em 2018, no Complexo da Penha.
Natasha Neri critica o uso de GLOs por motivos políticos para criar sensação de segurança ilusória, e aponta a inconstitucionalidade da Justiça Militar julgar crimes contra civis. A Lei 13.491, sancionada por Michel Temer, transferiu investigações de crimes militares contra civis para essa instância, promovendo impunidade, pois as próprias Forças Armadas conduzem os inquéritos.
A produção, iniciada em 2014 com inquéritos, relatos de vítimas e acervo de comunicadores comunitários, foi apresentada no Festival do Rio em outubro. Estreias ocorreram no Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Caxias do Sul, com debates em São Paulo. Em Brasília, a sessão está prevista para quinta-feira (9), também com debate. A programação está disponível no Instagram oficial do documentário.