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Cinema

Documentário resgata história de músico cego que compôs 500 músicas

Documentário destaca a atuação de João Tomé em diferentes áreas e sua importância para a formação da cena cultural brasiliense

Redação Jornal de Brasília

21/09/2026 14h58

documentário resgata história de músico cego que compôs 500 músicas

Foto: Reprodução

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Lia Ribeiro

A história de Brasília também foi construída por personagens que, embora tenham desempenhado papéis importantes na formação cultural da cidade, acabaram permanecendo à margem das narrativas mais conhecidas sobre a capital.

É nesse espaço de esquecimento e memória que se insere Nem Todos Sabem, documentário dirigido por Edileuza Penha de Souza, que recupera a trajetória de João Tomé, músico, poeta, professor e um dos pioneiros da cena cultural brasiliense. 

Com 83 minutos de duração, o longa integra a Mostra Competitiva Brasília – Longas do 59o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

A obra acompanha a trajetória de João Tomé (1920-1971), homem negro e cego de nascimento que chegou à região antes mesmo da inauguração de Brasília e construir um trajetória marcada pela música, pela educação e pela criação artística.

Ao longo da vida, deixou mais de 500 composições, muitas delas registradas em braille, e participou da fundação da Escola de Música de Brasília.

Para Edileuza Penha de Souza, diretora do documentário, recuperar essa trajetória significa também devolver a João Tomé um lugar na história cultural da cidade. Durante a entrevista, a diretora o definiu como um “grande visionário” e destacou a dimensão de sua atuação em uma Brasília ainda em formação. 

Segundo a diretora, Tomé chegou à futura capital inicialmente para inaugurar uma boate, mas decidiu permanecer. Depois, retornou a Uberaba e Uberlândia para buscar a mulher, que estava grávida, a parteira e os cinco filhos. Em Brasília, ele recomeçou a carreira que já havia construído como músico e professor e desenvolveu um método próprio para ensinar música a pessoas que enxergavam. 

A atuação de João Tomé, no entanto, não se restringiu ao ensino. Edileuza chama a atenção para seu protagonismo no choro e para sua participação na criação da Escola de Música. Na visão da cineasta, esses elementos ajudam a compreender a dimensão de sua contribuição para a cultura da capital. 

“Eu penso que esse homem faz parte desse cenário cultural da história de Brasília”, declarou. Para ela, apesar de ter sido esquecido ao longo do tempo, o documentário representa uma oportunidade de devolver à cidade “toda essa grandiosidade do João Tomé”.

Foto: Arquivo Pessoal

Uma história marcada pela memória

A construção de Nem Todos Sabem também foi atravessada por dificuldades. O projeto recebeu financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), mas a pandemia interrompeu o cronograma previsto e provocou consequências que ultrapassam as questões financeiras. De acordo com Edileuza, o período entre a aprovação do projeto e suas realizações fez com que o orçamento inicialmente disponível já não fosse suficiente. 

Na entrevista, a diretora mencionou especialmente a perda de Dona Vera, viúva de João Tomé e uma das protagonistas da obra, que morreu em 9 de setembro, dois dias antes do início do festival, outras pessoas importantes também partiram durante o processo de realização, algumas antes mesmo de serem entrevistadas.

Apesar das perdas, Edileuza rejeita a ideia de que o documentário seja definido apenas pela dimensão dolorosa dessas ausências. Para ela, Nem Todos Sabem é, sobretudo, um filme sobre afeto e permanência. 

“Nem Todos Sabem é um filme de amor. É um filme de memória e de identidade”

Reconstruir uma memória a partir dos arquivos 

Outro desafio enfrentado pela equipe foi a ausência de registros audiovisuais de João Tomé. A pesquisa passou por diferentes acervos, entre eles o Arquivo Público Nacional, no Rio de Janeiro, e o Arquivo Público do Distrito Federal. Segundo Edileuza, a equipe não encontrou imagens em vídeo de Tomé nem na EBC de Brasília nem na unidade do Rio de Janeiro.

A ausência de imagens ganha uma dimensão ainda mais significativa porque João Tomé teve a participação em um momento importante da história da comunicação brasileira. Segundo a diretora, ele apresentou um programa de auditório na Rádio Nacional, que recentemente completou 90 anos. 

“Foi um trabalho de formiguinha também”, explicou Edileuza, ao falar sobre o processo de recomposição e recuperação das imagens. 

O documentário parte de depoimentos de familiares, amigos e companheiros de trajetória, combinados a um acervo considerado raro, para recuperar a presença na história cultural do Distrito Federal. 

Cinema como reconstrução   

Para Edileuza, trabalhar com documentário e material de arquivo significa lidar justamente com as lacunas deixadas pelo tempo. A linguagem cinematográfica passa, nesse caso, a ser uma ferramenta para reorganizar fragmentos e permitir que uma  história esquecida volte a ocupar espaço no presente. 

“Quando você trabalha com cinema documental, quando você trabalha com filme de arquivo, é essa reconstrução da memória”, explicou. 

A equipe técnica conta com Cled Pereira e David Alves Mattos na direção de fotografia e operação de câmera, Larô Gonzaga na direção e técnica de som, Herison Pedro no desenho de som e mixagem e Rodrigo Trindade na edição e montagem. A trilha sonora é composta por obras de João Tomé, em homenagem ao músico. 

Mais do que recuperar um personagem, recuperar uma cidade

Ao contar a história de João Tomé, Nem Todos Sabem também propõe um novo olhar sobre Brasília e sobre aqueles que ajudaram a construir sua identidade cultural. Músico, professor e um dos fundadores da Escola de Música de Brasília, João Tomé teve papel importante na formação artística da capital, embora sua trajetória tenha permanecido pouco por décadas.

Para Edileuza Penha, o documentário amplia a compreensão sobre a história da cidade e seus pioneiros, indo além das narrativas tradicionais. Assim, mais do que resgatar memórias de um artista, o filme recupera parte da própria história cultural de Brasília. 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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