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Cinema

Como Gabriel Domingues, no Oscar, foi de ‘Agente Secreto’ à potência artística

“Vim de Jacarepaguá [bairro do Rio], tenho feito um esforço enorme e cheguei até aqui. Só posso pensar que vou vencer”, afirma ele, que recentemente foi várias vezes para Nova York e maratonou debates para promover o longa

Redação Jornal de Brasília

09/03/2026 13h21

gabriel domingues

Gabriel Domingues. Foto: Reprodução/ Redes Sociais

DAVI GALANTIER KRASILCHIK
FOLHAPRESS

Gabriel Domingues tem certeza de que vencerá o Oscar de melhor direção de elenco, ao qual concorre por “O Agente Secreto”. Responsável por selecionar os atores que hoje compõem o filme de Kleber Mendonça Filho, ele diz que a vitória seria só mais um passo em uma série de conquistas que já lhe parece surreal.

“Vim de Jacarepaguá [bairro do Rio], tenho feito um esforço enorme e cheguei até aqui. Só posso pensar que vou vencer”, afirma ele, que recentemente foi várias vezes para Nova York e maratonou debates para promover o longa. Ao justificar o otimismo, ele cita ainda uma curiosidade —diferente dos adversários de categoria, boa parte dos intérpretes que dividem a tela com Wagner Moura são desconhecidos nos EUA.

“Muitos são uma completa novidade. Isso fortalece a mitologia do ineditismo que a Academia quer trazer com a categoria.” Ainda que a curiosidade americana pelo Brasil tenha sido reforçada por “Ainda Estou Aqui”, que trouxe ao país o seu primeiro Oscar, muitos dos artistas surpreenderam os próprios brasileiros.

Ele mesmo, que trabalhou com cineastas como Gabriel Mascaro, escreveu filmes como “Baby” e já viu a profissão ser confundida com a de preparadores de elenco, ganhou muita projeção nos últimos tempos.

Outro caso evidente é o de Tânia Maria, de 79 anos, que foi de figura alheia ao show business hollywoodiano à garota-propaganda de marcas como o Burger King. Costureira e artesã, ela foi descoberta pela equipe de Mendonça Filho ao longo das filmagens de “Bacurau” e aparecerá, além disso, em “Yellow Cake”, distopia nacional, com estreia programada para este ano, exibida no Festival de Roterdã.

Em sessões de “O Agente Secreto”, a indiscrição de sua personagem, junto à bondade de quem arrisca a vida para salvar vítimas da ditadura, caiu nas graças do público e da crítica. Já na internet, a atriz viralizou ao comparar o papel com traços pessoais, que enquadra entre o desejo de ajudar e o mal-humor eventual.

Os louros do elenco, todavia, não se resumem à artista, que há poucos meses sequer tinha ouvido falar no prêmio audiovisual. “O filme reúne personagens muito densas, pelas quais muitos têm sido hipnotizados. Tem sido hilário acompanhar o público elegendo os seus favoritos, muito diferentes uns dos outros”, diz Domingues, que entende o grupo como uma espécie de constelação de origens, costumes e sotaques.

Para ele, inclusive, a falta de diversidade pode explicar a ausência de “Valor Sentimental” —que recebeu três indicações a mais que “O Agente Secreto” apenas nas categorias de interpretações individuais— na disputa de melhor direção de elenco, que conta ainda com títulos como “Marty Supreme” e “Pecadores”.

“Apesar das atuações excelentes, as personagens de Joachim Trier são mais parecidas mais entre si. No nosso caso, temos uma refugiada portuguesa, uma dentista pernambucana, um frentista pernambucano e por aí vai. É uma gama vasta, e cada ser traz uma história mais absurda do que a outra.”

Entre rostos como o do mineiro Carlos Francisco —colaborador de diversos realizadores independentes e quase onipresente no calendário brasileiro— e o da potiguar Alice Carvalho, estrela da série “Cangaço Novo” e bastante elogiada por sua única cena no longa indicado ao Oscar, outro ator que virou figura carimbada nas notícias é o cearense Robério Diógenes, que dá vida ao duvidoso delegado Euclides.

Longe de ter o salafrário como primeiro papel de sua carreira, mas longe do eixo Rio-São Paulo, Diógenes abriu mão de se arriscar em um teste de elenco na época em que “Bacurau” foi filmado. Anos mais tarde, decidiu tentar a sorte com a produção da vez e foi recompensado por suas credenciais teatrais.

Segundo Domingues, o que saltou aos olhos foi o flerte do artista com a comédia e a palhaçaria, que trouxe a ele os atributos necessários para dar vida a um homem que, nas palavras de Mendonça Filho, tinha de ser bruto e absolutamente patético.

São condições quase opostas às que determinaram a seleção de Kaiony Venâncio como um matador de aluguel, que em certa altura é recrutado por mercenários cariocas. Dos ensaios às salas de cinema, a performance se destaca pela contradição —por trás do sangue frio, o assassino anda pelas ruas com olhar pacífico e calcula seus passos com toda a calma do mundo.

Diante desse universo vasto em personagens, o diretor de elenco destaca a riqueza de sotaques presente em “O Agente Secreto”. Se, por um lado, a filmografia de Mendonça Filho referencia americanos como John Carpenter, por outro também chama a atenção pela polifonia nacional.

Entre ouvidos americanos, distantes desse repertório de maneira geral, Domingues afirma acreditar que a multiplicidade de vozes não provoca estranheza. Já em solo brasileiro, onde a concentração de produções realizadas no Sudeste se mantém como realidade, tal aspecto pode subverter uma oralidade hegemônica.

Não por acaso, quando críticas negativas sucederam a primeira sessão paulistana de “O Agente Secreto”, alguns usuários disseram que “sudestinos tinham menos motivos para se conectar com o filme”. Outros, por sua vez, evitaram generalismos e reforçaram a importância de se destacar outras regiões brasileiras.

“Os sotaques adicionam significados metafóricos. Eles geram identificação e são importantes para o discurso do filme, que também tem chamado muita atenção por conta de suas pretensões políticas.”

Apesar dos diálogos da época representada por Mendonça Filho com as políticas agressivas de Donald Trump, a ressonância de títulos internacionais no Oscar exige campanhas de custos altíssimos. A vitória do longa e de Wagner Moura —cujo trabalho internalizado, diz Domingues, demonstra excelência junto de coadjuvantes expansivos— em cerimônias como o Globo de Ouro tem ampliado investimentos da Neon, e a distribuidora do longa.

“Estou consternado com a escala industrial que é fazer um desconhecido como eu existir publicamente”, afirma Domingues. “Todos os esforços para o reconhecimento dessa potência artística, que reúne a força humana que faz uma produção acontecer, estão sendo feitos.”

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