No mês das mulheres, o Cine Brasília abre espaço para um encontro direto com a obra de uma das cineastas mais influentes do cinema moderno. A mostra De Lá Pra Cá: Uma Mostra da Varda, começa nesta segunda (23) e segue até o dia 31, reunindo 20 títulos que atravessam mais de seis décadas de produção de Agnès Varda, entre longas e curtas que evidenciam a diversidade estética e temática de sua filmografia. A programação propõe não apenas uma retrospectiva, mas uma experiência de aproximação com um cinema que sempre transitou entre o documental, o ficcional e o ensaístico.
A iniciativa chega a Brasília a partir de uma parceria com o Grupo Estação, responsável pela curadoria da mostra. Segundo Rafaella Rezende, gerente de programação do Cine Brasília, a decisão de trazer a retrospectiva para a capital partiu do reconhecimento da relevância histórica da diretora e da potência de sua obra no debate contemporâneo. “A mostra chegou até nós com a seleção de títulos já definida, e optamos por realizá-la ao longo do mês de março justamente pelo significado que Agnès Varda tem como uma das grandes cineastas da história do cinema”, explica ao Jornal de Brasília.

Agnès Varda nasceu na Bélgica, em 1928, e construiu sua trajetória artística na França, onde iniciou sua relação com o cinema em um contexto ainda pouco aberto à presença feminina na direção. Seu primeiro longa, La Pointe Courte (1955), já indicava caminhos estéticos e narrativos que mais tarde seriam associados à Nouvelle Vague, movimento do qual se tornaria uma das figuras centrais e a única mulher entre seus principais nomes.
Ao longo da carreira, a diretora também desenvolveu uma forte relação com o documentário, linguagem que ampliou seu diálogo com o mundo e com as histórias do cotidiano. Obras como Os Catadores e Eu, As Praias de Agnès e Varda por Agnès, concluído pouco antes de sua morte, em 29 de março 2019, revelam uma cineasta interessada em memória, identidade e nos gestos mais simples da vida. Ao lado de uma trajetória marcada pela defesa do cinema independente e da criação livre, Varda recebeu, em 2017, um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra.

Considerada um dos nomes centrais da Nouvelle Vague, Varda construiu uma trajetória marcada por liberdade formal e por um olhar atento às transformações sociais, sobretudo no que diz respeito à representação feminina. Seus filmes frequentemente colocam mulheres no centro da narrativa, com autonomia e complexidade, ao mesmo tempo em que exploram o cotidiano, a memória e a própria linguagem cinematográfica. “A obra da Varda dialoga diretamente com esse debate porque ela construiu, desde o início, um cinema a partir de um olhar próprio, fora dos padrões dominantes”, afirma Rafaella.
A seleção apresentada no Cine Brasília evidencia esse caráter múltiplo. Clássicos como Cléo das 5 às 7 convivem com obras de caráter mais experimental, como os ensaios documentais que marcam diferentes fases da carreira da diretora. O percurso também inclui títulos que transitam entre ficção e realidade, como Os Catadores e Eu, além de produções em que a própria cineasta se coloca em cena, caso de As Praias de Agnès. Para a equipe do cinema, a organização da programação ao longo dos dias buscou justamente destacar essa pluralidade. “Pensamos a exibição como um percurso em que o público possa transitar entre diferentes formas de cinema, do mais clássico ao mais livre”, detalha.

Além de apresentar uma filmografia fundamental, a mostra reforça o papel do Cine Brasília como espaço de formação de público e difusão cultural. Como sala pública, o local mantém uma política de preços acessíveis e uma curadoria comprometida com a diversidade, o que amplia o alcance de obras que nem sempre chegam ao circuito comercial. “Isso permite que um público mais amplo tenha acesso não só aos lançamentos, mas também a retrospectivas e cinematografias que muitas vezes não circulam. Formar público passa por garantir esse acesso e também pela qualidade das exibições”, destaca Rafaella.
Para quem deseja iniciar o contato com a obra de Varda, alguns títulos funcionam como portas de entrada. Cléo das 5 às 7 se destaca pela construção narrativa em tempo real e pela força da personagem, enquanto As Praias de Agnès oferece um mergulho afetivo na trajetória da diretora. Já Os Catadores e Eu revela uma cineasta profundamente conectada ao presente, atenta às histórias invisíveis e aos gestos cotidianos. Juntos, esses filmes sintetizam a amplitude de uma obra que segue inspirando novas gerações.
PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA DE LÁ PRA CÁ: UMA MOSTRA DA VARDA
SEGUNDA-FEIRA, 23/03
18h50 — Mur Murs
20h30 — Panteras Negras (curta-metragem) + Os Regenerados
TERÇA-FEIRA, 24/03
18h10 — Jane B. por Agnès V.
20h20 — Ao Longo da Costa (curta-metragem) + Daguerreótipos
QUINTA-FEIRA, 26/03
17h00 — Kung-Fu Master!
SEXTA-FEIRA, 27/03
15h30 — Uma Canta, a Outra Não
18h10 — La Pointe Courte
SÁBADO, 28/03
20h00 — As Praias de Agnès
DOMINGO, 29/03
18h00 — Tio Yanco (curta-metragem) + Os Catadores e Eu
20h00 — A Ópera Mouffe (curta-metragem) + Cléo das 5 às 7
SEGUNDA-FEIRA, 30/03
16h00 — As Cento e Uma Noites
18h10 — Jacquot de Nantes
20h30 — Saudações, Cubanos! (curta-metragem) + As Criaturas
TERÇA-FEIRA, 31/03
16h30 — Ulisses (curta-metragem) + Documentira
SERVIÇO
O quê: “De Lá Pra Cá: Uma Mostra da Varda”
Onde: Cine Brasília – Asa Sul Entrequadra Sul 106/107 – Brasília, DF, 70345-400
Quando: 23 a 31 de março
Ingressos à venda na bilheteria ou pelo link: ingresso.com/cinema/cine-brasilia
Valores: R$20 (inteira) R$10 (meia)
Mais informações: cinebrasilia.com ou @cinebrasiliaoficial