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Viva

Cineasta brasiliense está com a bala na agulha

Arquivo Geral

16/01/2014 8h01

Lúcio Flávio

Especial para o Jornal de Brasília

 

Foi um tiro no escuro. De repente, como num piscar de olhos, lá estavam eles no olho do furação, no meio da multidão, em pleno Complexo do Alemão. E bem que os seguranças avisaram: – Só pode virar para a direita. 

Para a esquerda, a gente não garante – alertou um deles. E assim, em clima de tensão e adrenalina pura, o cineasta José Eduardo Belmonte rodava mais uma cena de ação do filme Alemão, com o ator Cauã Reymond numa das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. A ideia quase suicida de mergulhar de peito aberto nas ruas do lugar foi do próprio Belmonte, que justificou: “Traficante no morro é celebridade, e eu precisava dar credibilidade a isso”, conta o cineasta em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília. Orçado em R$ 4 milhões, Alemão, que traz elenco estelar encabeçado por Antônio Fagundes e Gabriel Braga Nunes, tem estreia nacional prevista para o dia 14 de março. O filme é, na verdade, apenas um dos três projetos do diretor prontinhos para serem lançados no mercado ainda este ano. Um deles é o thriller de suspense Gorila, fita baseada em conto de Sérgio Sant’ Anna exibida na competição Première Brasil do Festival do Rio de 2012. O outro, com lançamento em DVD e nos cinemas previstos para abril, é um documentário musical que acompanha a turma dos rapazes do Móveis Coloniais de Aracaju em apresentações por 11 Regiões Administrativas do DF.

Você anda sumido de Brasília.

Da cidade, não. Do circuito, sim, e por uma questão dinâmica. Não estou reclamando porque acho isso muito chato, mas eu quase não tenho dinheiro de Brasília para filmar, nunca ganhei um edital na cidade. Ou seja, de certa forma foi uma saída pragmática, fui criando mecanismos fora da capital. Não foi uma opção íntima, mas estratégica. Eu adoro Brasília, me sinto como uma pessoa daqui. Tenho certeza disso porque meu filho está aqui.

Dessa nova geração de cineastas você foi o cara que abriu o caminho. Ainda é difícil fazer cinema aqui?

É uma pergunta filosoficamente complexa porque fazer cinema não é só ter dinheiro para filmar. Hoje, a gente tem muito mais dinheiro do que quando eu comecei em 1994. Não época, não tinha edital, não tinha FAC, não tinha nada. Dinheiro para filmar era muito mais difícil, mas você tinha uma turma de cinema mais integrada em Brasília. Hoje você tem mais dinheiro, mas não tem tanta saída fora da cidade, nem mesmo dentro do próprio festival de cinema, onde os filmes são vistos numa mostra paralela. E os filmes daqui têm poucas presenças em festivais importantes.

Por outro lado o número de filmes nacionais no mercado aumentou. Como você vê esse outro lado. 

São duas coisas: a proliferação das políticas culturais e tecnologias mais acessíveis. Antigamente se fazia filme em 35 mm e ainda tinha todo um maquinário que era pesado, hoje é tudo digital, pode fazer filme com muito pouca coisa, de forma muito mais simples. 

Como é sua relação com a turma cinematográfica de Brasília?

Tenho simpatia por alguns e outros nem tantos (rs). Estamos ainda num processo de iniciativas individuais, falta uma turma onde todo mundo se ajuda, sinto falta de uma unidade, as coisas são bem fratricidas. É uma relação realmente razoável. Tinha uma época em que eu ficava muito ressentido, meio bélico, hoje em dia, não. 

E o projeto Alemão? Como chegou até você?

Foi bem legal. A ideia foi do (produtor) Rodrigo Teixeira, com quem já tinha feito Gorila. A gente se dá super bem e ele confia no meu trabalho. Um dia ele me apresentou o projeto, disse que nunca tinha feito um filme de ação. Eu falei que também não tinha experiência. Resolvemos encarar o desafio e aconteceu. Alemão é todo feito com dinheiro de investimento. É um projeto menor justamente para dar retorno financeiro e fazê-lo foi uma experiência incrível porque de repente se montou um elenco muito bom, e tudo filmado muito rápido. 

A história se passa na favela e fala de policiais infiltrados com traficantes. Bem diferente das coisas que você já fez.

Jamais me imaginei fazendo um favela movie, sempre tive um certo preconceito por ser de classe média. Era um universo distante de mim, achava que não saberia entender esse mundo. Acabei aprendendo muito.

Como foram as filmagens? 

Não deu para filmar tudo no Alemão. Quando chegamos lá, existia uma área que era das UPPs e outra do tráfico. Não me envolvi nas negociações, só tive a informação que de que em alguns lugares a gente não poderia ir. E isso foi louco porque eu tive uma experiência de filmar na rua, meio sem avisar. O personagem do Cauã (Reymond) é um traficante. Traficante no morro é uma celebridade, e eu precisava dar credibilidade a isso. Um dia, falei: “Vamos para rua, vamos filmar na guerrilha, você topa entrar no meio das pessoas como se fosse traficante?”. O pessoal da segurança também topou, mas avisou que a gente só poderia virar para a direita. Para a esquerda, eles não garantiriam. A gente filmou assim, na loucura, o Cauã no meio da rua.

Você ficou com medo? 

Não penso muito nisso senão não faço nada. Foi uma coisa meio de doido, na fé…

O filme tem uma pegada favela movie. Você não tem medo de comparações com Cidade de Deus, Tropa de elite…

Isso não vai ter jeito. O que fiz foi ir por um outro caminho, ou seja, não adotando o naturalismo de filmes do gênero, fui beber em outras fontes. Vai ser um filme clássico, um faroeste, a história é meio que um faroeste mesmo. 

E Gorila? O filme já está pronto, mas ainda não saiu.

É um filme muito estranho que ficou sem distribuidor até a Downtown entrar na jogada. Mas ela também vai distribuir Alemão, e filme comercial pede prioridade.

Você gostou do resultado? 

Foi uma das experiências mais interessantes da minha vida. Uma porque é uma dramaturgia nova, outra porque consegui filmar muito rápido. E o elenco realmente é incrível. 

Foi você quem escolheu o elenco? 

Não. Alguns atores queriam trabalhar comigo e outros os produtores queriam. Calhou de todos aqueles que contatamos fazer o filme. Só um que não entrou por causa de agenda. A Mariana Nunes (atriz de Brasília) fiz questão de escolher por uma questão política (rs). Ela está incrível no filme. 

Como foi o projeto com os Móveis Coloniais? 

Foi incrível. Eles são de outra geração, de uma outra Brasília que tem ligação com cerrado e o entorno. Outra mentalidade, bem diferente da minha que é lá da década de 1980, rock, uma Brasília mais urbana. Foi um dos meus filmes mais solares. Sempre quis fazer documentário de banda, um road movie musical. O filme acompanha a banda por todo o DF. Filme e DVD serão lançados em abril.

Depois de uma primeira fase existencial você passou a flertar por vários gêneros… 

O que aconteceu é que passei por uma fase muito pesada da minha vida e filmar era uma forma de sucumbir à essa crise e fui fazendo filme de forma totalmente estrambelhada. As angustias não tinham acabado. Então eu precisava ir para outro lugar porque é ruim ficar segmentado num lugar e fiz um movimento certo, mas de forma errada. Certo ao dialogar com o cinema comercial (Billi Pig), mas não na forma. Alemão acho que é o filme que comecei a entender isso. Tem muito de mim, da minha história, do meu aprendizado, pensado para uma grande plateia. 

Quais são seus projetos futuros?

O próximo passo é um road movie com Ingrid Guimarães, Alice Braga e Fábio Assunção. Vai se chamar A Magia do Mundo Quebrado e vamos começar a filmar no final de fevereiro. É uma comédia que conta a história de quatro operadoras de telemarketing que estão de férias.

 

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