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Ceilândia, o berço cultural do DF 

Da periferia para o mundo: a RA manifesta sua identidade, arte e resistência

Caroline Purificação

27/03/2026 5h00

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Grupo Eita Bagaceira – Foto: Magdiel Teodoro

Por muitos anos, Ceilândia foi marcada por estigmas que ultrapassaram gerações. Mas dentro da própria região movimentos culturais surgiram para derrubar essa narrativa e afirmar uma outra identidade visual, construída a partir da arte, da coletividade e do orgulho de pertencer. O território é representado por inúmeros segmentos, com a forte presença dos gêneros que vão desde o samba ao hip-hop. Além do movimento junino, hoje muito característico de Ceilândia. 

“Foram os coletivos culturais que fortaleceram essa cena em Ceilândia, ofertando oficinas culturais e atividades de formação para as suas comunidades. Podemos citar, por exemplo, a Casa Akotirene, o Espaço Cultural Águia Imperial de Ceilândia, a Escola de Samba da Comunidade, o Espaço Jovem de Expressão, o Instituto Cultural Menino de Ceilândia, entre outros espaços que contribuem diretamente para o fortalecimento da cultura em nossa região”, explica o produtor cultural e jornalista, Lucas Luz.

O produtor relatou ao Jornal de Brasília que apesar dos programas de incentivo à cultura, o investimento ainda não é suficiente.  Lucas esclarece que as dificuldades para o terceiro setor cultural ainda persistem, principalmente para conseguir espaços, apoio institucional para quem atua com culturas nas periferias.

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Lucas Luz. – Foto: Arquivo pessoal

“Ceilândia é fruto do rap, do hip-hop, de seus DJs, do forró, do repente e das diversas representações culturais que passeiam pela comunidade de Ceilândia. A periferia faz cultura, transmite cultura e vive cultura porque isso faz parte da nossa essência. Cultura faz parte de quem nós somos. Ceilândia respira cultura. Por isso, a cultura nasce aqui de forma muito enraizada, principalmente em territórios periféricos”, expôs ele.

A força do movimento junino 

Um dos pontos mais fortes na cultura da Ceilândia é o movimento junino. Foi nesse cenário rico em diversidade que nasceu o grupo de quadrilha da região, o “Eita Bagaceira”. A história começou na Paróquia Senhor Bom Jesus, no Setor O, e hoje atravessa gerações. “Quadrilha junina é algo muito natural para o Ceilandense, é algo muito nosso e temos grande identificação”, explicou Johnni Sousa, presidente do grupo. 

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Grupo Eita Bagaceira – Foto: Arquivo pessoal

Para Johnni, a quadrilha cumpre um papel social extremamente importante. O presidente contou que quem participa do grupo de dança encontra acolhimento e em muitos casos se afastam de situações de vulnerabilidade. Ele comenta ainda que celebrar o São João é um ato de resistência da comunidade. Hoje o grupo conta com 50 integrantes e os ensaios acontecem durante todo o ano. 

“Aqui, temos gerações que se encontram: são pais, filhos, jovens e adultos criando relações reais de amizade e confiança. Manter essa história viva nos orgulha muito. São tradições que levamos para diferentes palcos, são mais de 50 apresentações por temporada. No último ano, estivemos em Campina Grande, no Maior São João do Mundo, mas também seguimos dançando para nossos vizinhos, amigos e familiares nas ruas do bairro. Levar a cultura nordestina adiante e manter essa memória viva é, para nós, o mais gratificante”, citou. 

Pontos culturais para conhecer a Ceilândia 

A força cultural da cidade se espalha por diferentes espaços e manifestações onde a população do DF pode conhecer mais sobre a região administrativa. Um dos pontos principais, a Casa do Cantador foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e é voltada para a valorização da cultura nordestina no DF, muito importante para a RA. O espaço conta com apresentações de música, poesia e teatro. 

Já a Praça do Cidadão é destaque no encontro de juventudes e da cultura urbana, com batalhas de rimas, grafite e dança. Outro espaço importante é o CEU das Artes Ceilândia, que oferece oficinas, atividades culturais e ações sociais voltadas para a comunidade. No Teatro Newton Rossi, do SESC da Ceilândia, a programação é variada e inclui peças, shows e outros. Para além dos espaços culturais, a produção artística também acontece nas ruas e nos bairros, com manifestações que mantêm viva a cultura popular e reforçam a identidade da cidade.

Casa do Cantador. – Foto: Andre Borges/Agência Brasília

10 curiosidades sobre a Ceilândia 

Com o auxílio da produtora cultural Flávia Nascimento, o Jornal de Brasília reuniu 10 curiosidades sobre a Ceilândia para celebrar os 55 anos da região. 

1. Origem do Nome 

O nome não veio do nada. Ele é uma combinação da sigla CEI (Campanha de Erradicação de Invasões) com o sufixo “lândia” (terra). A cidade foi criada em 1971 para assentar famílias que viviam em ocupações irregulares próximas ao Plano Piloto. 

2. Uma Potência Econômica 

Ceilândia não é apenas populosa; ela é rica. A cidade responde por aproximadamente 10% do PIB de todo o Distrito Federal (cerca de R$ 20 bilhões por ano). 

3. A Capital Feminina e Negra do DF

Estatisticamente, Ceilândia reflete a cara do Brasil. Segundo dados recentes (PDAD-A 2024), cerca de 52% da população é feminina e mais de 58% se autodeclara negra (pretos e pardos), sendo um dos maiores polos de identidade e resistência negra da região.

4. A “Terra dos Incansáveis”

Um dos apelidos mais carinhosos e respeitados da cidade é “Terra dos Incansáveis”. O termo celebra a força de vontade dos moradores, muitos dos quais atravessam o DF diariamente para trabalhar e ainda mantêm uma cena cultural e empreendedora pulsante à noite e nos fins de semana.

5. As 5 “Vilas” Originais

A Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) que deu origem à cidade removeu famílias de cinco ocupações principais: Vila do IAPI, Vila Tenório, Vila Esperança, Vila Bernardo Sayão e Morro do Querosene. Esses nomes ainda vivem na memória dos pioneiros da cidade.

6. “Asa Branca” em Concreto

A Casa do Cantador foi projetada por Oscar Niemeyer, mas o detalhe que chama atenção é que o mestre se inspirou na música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, para desenhar as curvas do monumento, homenageando a trajetória dos migrantes nordestinos. 

7. Números Gigantes da Caixa D’Água

O maior símbolo da cidade não foi barato nem simples de fazer. Para erguer a famosa Caixa D’Água de Ceilândia em 1974, foram utilizados 1.300 sacos de cimento, meia tonelada de ferro armado e uma tonelada de brita. Ela foi construída no exato local onde foi lançada a pedra fundamental da cidade. 

8. O “Hollywood” do DF

Ceilândia é um dos maiores polos de cinema independente do Brasil. O cineasta Adirley Queirós, morador da cidade, conquistou prêmios nacionais e internacionais com filmes como “Branco Sai, Preto Fica”, que usa a própria história da cidade e de seus moradores como cenário de ficção científica e crítica social.

9. A Resiliência como Identidade

Muitas das calçadas e infraestruturas iniciais da cidade foram feitas por meio de mutirões dos próprios moradores. Essa característica de “fazer com as próprias mãos” moldou a identidade ceilandense, criando um senso de comunidade e pertencimento muito mais forte do que em outras áreas do DF.

10. A Gastronomia da Feira Central

A Feira Central de Ceilândia é o lugar onde o Cerrado encontra o Sertão. É o melhor ponto do DF para encontrar iguarias autênticas como a panelada, o sarapatel e a buchada de bode preparada de forma tradicional, mantendo vivas as receitas das famílias que migraram para Brasília nos anos 70.

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