Até que ponto a intimidade de uma pessoa pública pode ser exposta? Temas de televisão, sites de notícias e redes sociais, as celebridades estão por toda parte. No entanto, de uns tempos para cá, famosos brigam pela sua privacidade. O imbróglio chegou à literatura e gerou uma grande polêmica em torno das biografias feitas sobre a vida das celebridades sem autorização.
Se por um lado, escritores e editoras lutam pela liberdade de expressão ao falar de censura, por outro, parte dos famosos defende ardorosamente a proibição de biografias não-autorizadas.
No começo do mês, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que libera a venda dessas biografias sem a prévia autorização. De autoria do deputado Newton Lima (PT-SP), o projeto permite a distribuição e venda de vídeos e textos que retratem pessoas com trajetórias de interesse à sociedade. Ou seja, as pessoas de dimensão pública. O PL ainda precisa passar pelo Senado e pelo crivo da presidente Dilma Rousseff para virar lei.
O debate em torno das biografias não-autorizadas não é de agora. A polêmica começou no final de 2006, quando o historiador e escritor Paulo César de Araújo lançou o livro Roberto Carlos em Detalhes, pela editora Planeta.
Fora das prateleiras
A biografia não-autorizada do músico chegou a figurar na lista das obras mais vendidas, mas precisou ser recolhida das prateleiras quando o cantor abriu um processo contra o autor e sua editora alegando querer manter sua vida íntima preservada. Foram vendidos mais de 22 mil exemplares até a proibição, determinada pela 20ª Vara Criminal da Barra Funda (SP). Na época, o historiador manifestou sua frustração por meio da mídia e garantiu que o prejuízo não era apenas no aspecto financeiro, mas também no âmbito emocional. Principalmente por saber da circulação livre pela internet.
Depois de anos em tramitação na Câmara dos Deputados (desde 2011), o projeto voltou aos holofotes em outubro do ano passado, quando artistas do grupo Procure Saber, formado por nomes como o próprio Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Gilberto Gil, defenderam a manutenção da proibição em torno dessas obras.
Divergência de opiniões
Escritores e editoras do Distrito Federal divergem em opiniões quando o assunto é o embate entre liberdade e privacidade. Editor e sócio da editora Kiron (Taguatinga Centro), Daniel Machado não concorda com a exposição sem a prévia autorização. Para ele, livros que tratam da intimidade e individualidade do famoso não deveriam ser publicados. “Os escritores têm outros meios e um universo rico para dar vida a boas histórias. O mercado da fofoca é agradável no sentido de vendas, mas adentra em um universo que pode ser muito pessoal”, justifica.
o escritor gaúcho Eugênio Giovenardi discorda e aprova o PL. Em Brasília há 42 anos, ele já escreveu 16 livros, dentre eles, sua autobiografia intitulada O Homem Proibido. O autor defende que o escritor é na sua essência anárquico e deve valer-se de liberdade e independência na hora de escrever. “Se a pessoa é pública, corre-se esse risco. O público tem o direito de saber como ela pega no garfo, quando ela fica triste. Quem quebra a intimidade é ela mesma ao se tornar pública”, opina. Segundo o escritor, o biógrafo pode ainda preservar certos detalhes da vida do biografado, o que chama de “caixinha preta”. Mas, afirma, que “se deixarem a porta aberta, as pessoas vão querer entrar”.
Ditadura
Presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Sônia Jardim afirma que o setor ficou satisfeito com o projeto de lei. “A necessidade de autorização prévia para publicação de biografias é um resquício da ditadura, injustificável no regime democrático. Em outros países, como os Estados Unidos, o direito à privacidade e à imagem são gradativamente reduzidos à medida que as pessoas se tornam públicas. Estou orgulhosa da aprovação na Câmara”, comemora.