A magia e a pureza do teatro de rua, com todas as suas surpresas e improvisos, é destaque da mais nova montagem da brasiliense O Hierofante Cia de Teatro, que foi buscar num clássico italiano elementos para recontar a história brasileira.Arlequim na colônia do Brasil é uma adaptação do mestre José Mapurunga de texto de Carlo Goldoni, escrito em 1745.
O projeto percorre regiões do Distrito Federal e segue durante todo o mês de maio, sempre aos sábados e domingos, às 11h e às 16h, com apresentações gratuitas das trupe pelas ruas do Plano Piloto, Paranoá, Riacho Fundo, fechando a temporada na cidade sede do grupo, Ceilândia.
“José Maria Mapurunga é amigo da Cia Hierofante desde 1998 quando nos presenteou com o texto O Auto da Camisinha”, entrega o diretor do espetáculo Wellington Abreu. “Estamos numa linha de pesquisa do teatro popular como forma de expressão e agora nos preparamos para a estreia de mais um estudo sobre a comédia popular com uma cara bem brasileira”, explica.Assim, recorrendo à farsa e às brincadeiras cênicas – característica da commedia dell’arte, teatro popular de improviso bastante comum na Europa medieval – o grupo Hierofante reinventa o Brasil pretendendo atingir todos os públicos de maneira simples e reflexiva. O nosso herói torto do século 21 aqui tem a cara do país, de Brasília e das Cidades Satélites. É um personagem popular que faz de tudo para ganhar um trocado e comer, por exemplo, um trio viçosa bem ali, na rodoviária do Plano, para sobreviver.“Ambos os autores falam da fome, das maracutaias que as pessoas pobres fazem para conseguir o que comer. Gente que serve até a dois amos se for preciso”, ironiza o diretor Wellington Abreu.A adaptação bem autêntica de José Mapurunga, que assina todas as músicas da montagem, arranjadas em estilo português, com fados, trovas e cantigas, conta ainda com os personagens shakespereanos Romeu e Julieta e uma vidente que ajuda a personagem Isabela a não cair nas garras de um governador corrupto. “São cantigas de escárnio e mal dizer. Era assim a pasmaceira no Brasil Colonial”, se diverte o diretor.