
Até pouco tempo, a comédia romântica representava uma espécie de reserva de dignidade dentro do cinema comercial americano. Era um gênero de filmes que, mesmo quando insatisfatórios, não envergonhavam a linhagem estabelecida com A Loja da Esquina (1940), de Ernst Lubitsch, e popularizada com Harry e Sally – Feitos um para o Outro (1989), de Rob Reiner.
Namoro ou Liberdade é de outra linhagem. Aquela pensada unicamente para celebrar as virtudes da monogamia e da ideia de príncipe encantado (não à toa o filme-referência é Jerry Maguire, um adoçante de bistrô).
Os casais enamorados – de preferência heterossexuais, pois o gênero respeita a condição patriarcal da sociedade – vão ao cinema e saem acreditando no amor eterno.
Estereótipos
Na trama, vemos três amigos que, movidos por desilusões amorosas e por um princípio hedonista, resolvem celebrar a galinhagem como principal meta de suas vidas.
Mas com meia hora de filme já sabemos que o destino final dos personagens é a união com o sexo oposto, que homens só se completam com mulheres, e vice-versa. Incluindo aí os medos e patologias inerentes à heterossexualidade masculina segundo esse tipo estereotipado.
Isso não é um problema em si, pois é regra no gênero essa previsibilidade, e também a maneira de lidar com estereótipos do macho e da fêmea.
O problema ocorre quando os mecanismos escolhidos para se mostrar tamanho determinismo emocional são os mais simplórios, como se acompanhássemos o destino de ratinhos de laboratório submetidos a algum teste de comportamento.
Nesse terreno estamos muito distantes dos testes explorados pelo falecido Alain Resnais em filmes como Meu Tio da América. Nesse caso, o racionalismo não impede a verdadeira emoção. Resnais, afinal, filma seres humanos com toda complexidade. Em Namoro ou Liberdade, o que temos? Emoções pré-fabricadas. Reações de cartilha que só fazem sentido para quem nunca se relacionou de verdade com o mundo.