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Cinema com ela
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“100 Noites de Desejo” reinventa o conto feminista e transforma a palavra em arma política

Adaptação da graphic novel de Isabel Greenberg chega às telas nesta quinta-feira (04) com um universo visual exuberante, elenco de peso e uma narrativa que ecoa “Mil e Uma Noites” ao colocar a palavra feminina no centro da resistência

Tamires Rodrigues

04/06/2026 10h00

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Foto: Divulgação/Paris Filmes

O cinema de fantasia raramente encontra o equilíbrio entre o deslumbre estético e a urgência política. “100 Noites de Desejo”, dirigido por Julia Jackman, é uma das exceções que confirmam a regra. Desde os primeiros minutos, o filme convida o espectador a habitar um mundo construído por mãos femininas e depois tomado à força por um homem que achou o criado insuficiente. Não há subtexto nessa introdução. O patriarcado é apresentado como o que sempre foi: uma usurpação.

A estrutura narrativa é o coração pulsante da obra. Hero (Emma Corrin) é uma criada que, para proteger sua melhor amiga Cherry (Maika Monroe) das armadilhas de um hóspede sedutor, começa a contar histórias noite após noite. A operação é simples e genial: uma narrativa dentro de outra, um conto embutido no conto, até que o espectador perceba que não consegue mais distinguir onde começa a ficção e onde termina a realidade das duas mulheres. É Sherazade reimaginada em um mundo de figurinos extravagantes e cenários que parecem pintados à mão por alguém que odiava a sobriedade.

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Foto: Divulgação/Paris Filmes

O que Jackman faz com os personagens masculinos é igualmente perspicaz. Manfred (Nicholas Galitzine) chega como ameaça e vai sendo gradualmente desarmado pelas palavras. O homem que pretendia seduzir acaba seduzido pelo poder da narrativa, perdendo o senso do tempo e acordando com sonhos que não pediu. Há ironia fina nisso: a ferramenta que o sistema sempre negou às mulheres, a palavra, é precisamente o que o derrota sem que ele perceba.

Charli XCX interpreta Rosa, a personagem cujas histórias Hero narra, e entrega uma performance que surpreende pela contenção. A cantora já havia demonstrado capacidade de habitar outros mundos em seus trabalhos visuais, mas na tela ela encontra uma dimensão diferente. Rosa carrega o peso de uma mulher que sabe ler e escrever em um mundo que considera isso feitiçaria, e o olhar de XCX transmite essa consciência trágica sem precisar de uma linha de diálogo.

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Foto: Divulgação/Paris Filmes

A amizade entre Cherry e Hero é tratada com a seriedade que merece. Não são apenas patroa e criada ou simplesmente amigas: são duas mulheres que se reconhecem mutuamente em um sistema que as quer separadas, competindo por sobrevivência. A cumplicidade entre Maika Monroe e Emma Corrin tem a textura de algo construído ao longo de anos, e quando o romance entre as duas emerge na reta final do filme, a sensação não é de revelação súbita, mas de inevitabilidade. O que o roteiro faz de inteligente é mostrar que Cherry precisou de cem noites de histórias para entender que o mundo podia ser maior do que ela havia sido ensinada a imaginar.

A produção visual merece parágrafo próprio. Os figurinos e cenários operam em um registro deliberadamente exagerado, quase teatral, que funciona como distância crítica. Ao tornar o mundo evidentemente artificial, o filme libera o espectador para pensar em vez de apenas sentir. A estética não imita nenhuma época histórica específica: ela cria seu próprio anacronismo, misturando referências com a liberdade de quem sabe que o patriarcado também não tem endereço fixo na história.

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Foto: Divulgação/Paris Filmes

Richard E. Grant como Birdman, o deus construído pelo ego masculino, é uma escolha que beira o teatro do absurdo no melhor sentido. Grant entende exatamente o que o papel pede: não um vilão complexo, mas a representação de uma lógica, fria e tranquila na sua arbitrariedade. Ele não precisa gritar para ser aterrorizante porque os sistemas que ele encarna raramente precisam levantar a voz.

Conclusão

No desfecho, “100 Noites de Desejo” revela sua aposta mais ousada: mostrar que contar histórias não é entretenimento, é sobrevivência. O grupo de mulheres que surge nos minutos finais, preservando histórias para que não se percam, transforma o filme em manifesto. Não sobre o passado, mas sobre qualquer presente em que vozes sejam consideradas perigosas. Julia Jackman entrega uma obra que deslumbra, incomoda e permanece.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Julia Jackman;
Roteiro: Isabel Greenberg e Julia Jackman;
Elenco: Emma Corrin, Nicholas Galitzine, Maika Monroe, Amir El-Masry e Charli XCX;
Gênero: Drama, Romance;
Duração: 90 minutos;
Distribuição: Paris Filmes;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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