Matheus Garzon
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Ser árbitro de futebol não é fácil e, no Distrito Federal, ainda mais desafiador. Pouca visibilidade no Campeonato Candango, recursos escassos da Federação e a necessidade vital de ter um segundo emprego remam contra o desejo de profissionais que pretendem seguir nesse ramo.
“Tem tratamento para vício de droga, de álcool, mas tratamento para vício de arbitragem? Não tem”, brinca Raimundo Lopo, presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol-DF e diretor da Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Distrito Federal.
Lopo é o responsável por apresentar a profissão na primeira aula do curso. De acordo com ele, homens e mulheres, velhos e jovens se interessam pela profissão. “É bem diversificado. Neste ano tem engenheiro civil, empresário e até ex-jogador”, conta.
Só que não bastassem os obstáculos iniciais desta profissão, há aqueles menos previsíveis. Entre eles, por exemplo, está o árbitro que se destaca demais. Lopo conta que a vida do juiz de futebol é parecida com a de um jogador: se quiser crescer na carreira, tem que ir para os grandes centros. “Um árbitro Fifa dificilmente vai ficar em campeonatos periféricos. Ele precisa evoluir e ir para campeonatos de ponta”, atesta.
Brasília segue esse roteiro à risca. Árbitro brasileiro da Copa do Mundo da Rússia, Sandro Meira Ricci deixou o DF, se filiou à Federação Pernambucana de Futebol (FPF-PE) e, posteriormente, à Federação Paulista de Futebol (FPF).
Outra face dessa dificuldade local é Wilton Pereira Sampaio. Destaque da capital federal, ele teve que se filiar à federação de Goiás para se destacar – o prêmio foi a “convocação” histórica para o Mundial de 2018 como um dos árbitros de vídeo.
Jornada dupla
Hoje, o DF tem dois sextetos de arbitragem que apitam jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. Um comandado por Sávio Pereira Sampaio – irmão de Wilton – e outro por Rodrigo Batista Raposo. Ambos, além de apitar, são funcionários públicos.
Hoje, Sávio Pereira Sampaio é categoria CBF A-B (credenciado a apitar jogos da Série A e B) e já apitou oito jogos neste Brasileirão, Mesmo assim, ele precisa bancar todo o seu treino por conta própria. “Treino cinco vezes por semana. Toda a parte de nutrição, personal trainer, sou eu quem pago.”
Rodrigo Raposo também é categoria A-B e acumula 20 jogos de Série A e 54 da B. Ele diz que o DF está em alta na arbitragem. “Brasília está na moda, a nossa escola é muito boa. Além disso, é um estado neutro. Dá para apitar jogos de qualquer time dos grandes centros”, elogia.
Wilton Pereira Sampaio defende utilização do VAR
Formado na Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Distrito Federal em 2001, Wilton Pereira Sampaio hoje é um dos grandes árbitros do País na atualidade. Em 2012, ele foi eleito o melhor juiz do Brasileirão e, em 2013, entrou para o quadro da Fifa. Na Copa do Mundo de 2018, ele teve a responsabilidade de ser o representante brasileiro do VAR (árbitro de vídeo).
Logo após apitar a vitória do Flamengo sobre o Vitória (1 x 0), na última quinta-feira, pelo Brasileirão, o árbitro conversou, por telefone, com o Jornal de Brasília, e falou sobre a experiência na Rússia. “Eu já estive na Coreia do Sul, no ano passado, com o Mundial Sub-20, e também no Mundial de clubes da Fifa, mas Copa tem mais visibilidade”, disse Wilton Pereira Sampaio, que participou da equipe de árbitro de vídeo em oito partidas na Rússia.
“Os meus jogos tiveram poucas interferências ao longo dos 90 minutos. Tudo o que foi apontado com o auxílio do VAR acabou sendo confirmado pelo árbitro”, lembrou Wilton Pereira Sampaio.
Ao falar sobre a implantação do VAR no Brasil, Wilton Pereira Sampaio se mostrou totalmente favorável à tecnologia. “Está sendo uma experiência muito boa. O VAR Permite que os árbitros trabalhem com mais tranquilidade”, afirmou o juiz. “O uso na Copa do Brasil será um grande exemplo para ampliar também para o Campeonato Brasileiro do ano que vem”, completou.
Diferenças
Wilton Pereira Sampaio apitou Santos x Cruzeiro, no jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil, e depois esteve à frente do VAR no duelo de volta, no Mineirão.
Ao falar sobre as diferenças entre estar no campo e atuar como VAR, ele foi taxativo. “O árbitro no campo tem muita coisa para observar e às vezes não está bem posicionado. São jogadas que ocorrem em velocidade. O VAR vem para ajudar em lances específicos”, explicou. “Não é facil estar lá na cabine, exige muita concentração”.
Wilton Pereira Sampaio negou que exista qualquer comunicação entre a cabine e o campo de jogo. “Não tem comunicação. Só para chamar a atenção do árbitro para o VAR”, revelou o juiz. “São conversas de trabalho em equipe, de jogo mesmo. Igual acontece entre árbitro e assistente. Mas procuramos interferir o mínimo possível”.
As aulas da Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Distrito Federal duram um ano. São mais de 300 horas em que o aluno passa a entender não só a teoria, mas também a prática. “Tem muita gente que acha que apitar é só ler o livro de regras e pronto. Não é”, ressalta Raimundo Lopo.
Nesse sentido, a escola tem uma parceria com a federação em que os aprendizes apitam jogos amadores. “Já no curso a gente vê quem pode vir a ter carreira. Buscamos potencializar isso”, afirma. Apesar das críticas frequentes, os árbitros do DF avaliam como muito boa a qualidade dos juízes brasileiros.