O Rio de Janeiro recebe, desde ontem, alguns dos melhores jogadores de tênis de mesa do mundo no WTT Contender. Hugo Calderano, atual quarto do mundo, é o principal nome entre os brasileiros. Mas há um atleta de Planaltina que começou a trilhar os seus desafios entre os profissionais. Trata-se de Abimael Menezes de Araújo, atleta de 16 anos, que fez ontem a sua estreia na categoria adulto por meio da etapa classificatória.
O brasiliense vem mostrando um enorme potencial à nível nacional. Atualmente, ele é o nono colocado do ranking brasileiro, hoje defendendo o Nipo de São Caetano do Sul (SP), cidade onde ele mora e treina. Ele também compete no Sub-19, sendo o vice-líder do ranking nacional, tendo conquistado três pódios neste ano, sendo o principal feito o vice-campeonato do Brasileiro Interclubes de São Paulo.
O resultado da estreia ficou em segundo plano nesse momento. A derrota por 3 a 0 para o belga Martin Allegro, 27 anos, número 73º do mundo, foi vista por Abimael como uma experiência. “Eu já sabia que era um adversário muito bom. Tentei dar o meu melhor, mas o nível adulto é diferente. Ele não é 73 do mundo à toa. Na hora do jogo tentei dar o meu melhor, fazer algo diferente. Consegui fazer um bom jogo, mas depois do jogo vi que não dava para vencê-lo. Mas para mim foi uma experiência muito boa. A questão é que um jogo se perder, já era. Por mais que eu tenha uma experiência no juvenil e no profissional nacional, é diferente”, disse o brasiliense após a partida.
Família
E um dos pilares para esse alto rendimento vem de sua família. Elenjuaite de Menezes, mãe do mesa-tenista, está sempre com Abimael nos eventos. No Rio de Janeiro não foi diferente. Apesar do brasiliense estrear apenas às 17h30 de ontem, ela chegou à Arena Carioca antes da 10h para torcer para os demais atletas brasileiros nas primeiras partidas do qualificatório.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, Elen, como gosta de ser chamada, falou um pouco da trajetória de Abimael ao longo dos últimos anos. E imaginar que tudo não começou com resquícios de ciúmes dela com o seu marido, o policial militar Fabio de Menezes. “Ele fica dizendo para todo mundo que eu mandava o Abimael [para os jogos] para vigiá-lo. Hoje em dia eu falo que valeu a pena”, diz mãe.
Após ser apresentado ao esporte, Abimael começou a mostrar que gostava. Ele usava a raquete do pai e as bolinhas para ficar treinando, jogando-a contra a parede. Mas foi durante as férias em Caldas Novas que jogo virou para a família. Durante uma competição local, o pai do atleta ficou sabendo que não havia fechado um número mínimo de participantes para a competição na categoria de Abimael.

“Ele estava brincando e o pai dele chegou dizendo que iria inscrevê-lo na competição. Nem roupa para jogo ele havia levado. O pessoal daquela época até lembra que ele chegou até descalço para participar. E o que era apenas para completar uma competição, ele terminou em segundo lugar. Aquela foi a virada de chave. Encontramos um esporte que ele gosta. Vai ser isso”, relembra. Antes do tênis de mesa, ele jogou futebol, natação e judô, mas os seus olhos brilharam mesmo com a bolinha.
Dali, ele começou a procurar locais para a prática do tênis de mesa no Distrito Federal. Foi quando encontrou a academia de Jorge Vieira, em um clube de Brasília. “Ele sempre gostava de ser desafiado, apesar de que não gostava muito de treinar”, brinca. “Mas eu percebia uma determinação muito grande vindo dele. Tanto que hoje, os técnicos dele tem que pedir para ele sair dos treinos, pois ele fica mais do que todos, querendo ficar na quadra mais tempo”, exalta o dono da FitPong, uma das primeiras academias que Abimael passou.
Mudanças
Assim como boa parte dos atletas brasileiros, todo o apoio vem por parte dos pais. “É um paitrocínio”, diz Elen. Com o seu desempenho nas competições do Brasil, Abimael começou a receber convites para treinar em grandes polos do país. Primeiro, passou por Joaçaba (SC). “Eu não queria ir. Ele ficou insistindo bastante até que aceitei. Foi difícil, pois ficou só eu e ele. Meu marido ficou em Brasília. Mas depois me acostumei. Cheguei a passar em concurso público da cidade e adorava lá”.
Até que veio uma nova proposta. Ir para São Paulo, onde há o centro de treinamento da seleção brasileira, em São Caetano do Sul.
“De novo eu não queria ir, mas era uma grande oportunidade”. Hoje, ela se dedica a acompanhar os filhos nas competições nacionais e internacionais. Além de Abimael, a sua irmã, Abigail também é atleta de tênis de mesa. Ela vai competir os Jogos Escolares Mundiais, a Gymnasiade, entre os dias 19 e 27 de agosto, também no Rio de Janeiro.
E as mudanças não devem parar por aí. Abimael já recebeu convites para treinar fora do país, na Alemanha – onde atualmente treina e joga Hugo Calderano. Mas, caso tudo se encaminhe para a ida para a Europa, Elen deve ficar no Brasil, desta vez acompanhando a caçula Abigail, de 14 anos.