Os clubes brasileiros tiveram aumento de 46% no endividamento líquido entre 2021 e 2025. O dado bateu R$ 14,3 bilhões em 2025, conforme análise da EY (antiga Ernest & Young) baseada nas demonstrações financeiras das agremiações.
Na análise do período de cinco anos, a evolução não é constante. Entre 2022 e 2023, o endividamento teve registro de queda de 3%. Entretanto, nos anos seguintes, o dado voltou a ter altas, inclusive superiores àquela observada entre 2021 e 2022 (12%).
Na comparação com 2024, o aumento foi de 15%. É um crescimento menor que de 2023 para 2024, que foi de 18%, o maior da série (veja o gráfico de evolução abaixo).
Dos R$ 14,3 bilhões de 2025, mais da metade (R$ 7,4 bilhões) é referente a dívidas por empréstimos e tributos. Nesses recortes, há diferentes tendências observadas. No caso de impostos, mesmo quando o endividamento líquido diminui (em 2023), o tributário aumentou 4% (veja o gráfico de evolução abaixo).
Nos dois casos, quando observado o período de 2021 a 2025, há aumento inferior ao do endividamento líquido. Por outro lado, na comparação com 2024, ambos têm aumentos superiores ao total (15%). As dívidas com crédito cresceram 34% em um ano. As tributárias, 41%.
O sócio de Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY para a América Latina, José Ronaldo Rocha, avalia que houve uma inflação na busca por reforços que não foi acompanhada pelo faturamento.
“Na busca por maior competitividade esportiva, observamos um aumento nos investimentos em direitos federativos de atletas e nas folhas salariais. Esse movimento inflaciona os custos operacionais do futebol. Como as fontes tradicionais de receitas (direitos de TV, patrocínios, bilheteria) possuem limites de expansão a curto prazo, muitos clubes recorrem a linhas de crédito para financiar esse descompasso no fluxo de caixa”, diz Rocha.
Segundo o especialista, a macroeconomia impacta diretamente neste tipo de dívida. “O desafio é que o empréstimo bancário tende a ser uma das fontes de financiamento mais onerosas, caracterizado por prazos mais curtos e taxas de juros elevadas, o que se agrava em cenários de política monetária restritiva com taxas de juros em patamares elevados. Isso compromete a geração de caixa futura dos clubes para o serviço dessa dívida”, comenta.
SAF não garante sucesso, analisa especialista da EY
Os líderes de endividamento são Atlético-MG (R$ 2,28 bilhões) e Botafogo (R$ 2 bilhões). O Corinthians vem na sequência, com R$ 1,53 bilhão. Esses valores são observados em relação às receitas sem transferências para verificar a capacidade de cada clube em honrar compromissos apenas com suas receitas recorrentes.
“No caso do Botafogo, embora 2025 tenha apresentado receitas recordes, uma parcela significativa decorreu da negociação de direitos econômicos de atletas. O balanço indica uma concentração de passivos no curto prazo, o que representa um desafio de liquidez para a gestão”, explica José Ronaldo Rocha, da EY.
No caso do Atlético-MG, mesmo com recorde de receitas, o custo financeiro e a necessidade de capital de giro indicam uma reformulação nos débitos. A SAF mineira prevê um aporte de R$ 500 milhões para enfrentar seus juros. “Aportes de capital, quando previstos e realizados, tendem a oferecer suporte para uma trajetória de recuperação orgânica”, comenta Rocha.
“A estrutura societária por si só não garante o sucesso financeiro. A eficiência depende fundamentalmente da qualidade da gestão. O diferencial, independentemente de ser SAF ou associação, reside na disciplina financeira, transparência e rigor na execução do planejamento”, analisa.
Exemplo disso é o Bahia, que teve uma diminuição de 80% das suas dívidas, indo de R$ 821 milhões em 2024 para R$ 168 milhões em 2025. Isso aconteceu graças a uma reestruturação contábil e societária específica da operação do clube, que pertence ao Grupo City.
“Anteriormente, uma parcela significativa de seu passivo correspondia a aportes realizados pelo acionista controlador, registrados como obrigações a pagar. Em 2025, parte substancial desses valores foi reclassificada para Adiantamento para Futuro Aumento de Capital (AFAC)”, conta o sócio da EY.
Esse movimento faz com que um montante deixe de transitar como dívida e passe a compor a estrutura de capital próprio da SAF. O que resta, portanto, são custos de operação do futebol, como aquisição de direitos federativos, luvas e bônus. “É um movimento natural em processos de maturação de SAFs capitalizadas, mas depende da capacidade e disposição do acionista em converter dívida em capital”, analisa Rocha.
Para Marcelo Damato, diretor-presidente da Pequi Consultoria de Regulação e Negócios e ex-assessor da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, o “boom” das bets fomentou um aumento nos custos dos clubes. Isso fez com que, ao fim das parcerias, essa elevação de despesas culminasse em dívidas.
“Houve booms de patrocínio. Quando esse boom cai, as dívidas explodem. Estamos vendo isso acontecer com Corinthians e Botafogo”, disse Damato, em participação no São Paulo Innovation Week. Ele ressalva que, nesses dois clubes, esse processo começou antes mesmo do fim do patrocínio.
Relatório aponta crescimento de receitas, mas concentração dos valores
As receitas totais dos clubes brasileiros superaram o endividamento, batendo R$ 14,9 bilhões, segundo análise da EY. É um aumento de 73% em relação a 2021 e de 33% na comparação de um ano atrás (2024).
Quase metade das receitas (49%), porém, se concentra em apenas cinco dos 20 clubes da Série A em 2025: Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense.
O top-3 (Flamengo, Palmeiras e Botafogo) representa 35% das receitas. Em comum, o trio tem grande verba oriunda de venda de atletas e a participação no Mundial de Clubes, que rendeu ainda mais em direitos de transmissão.
Mesmo que o Fluminense tenha sido o melhor brasileiro no torneio, indo até a semifinal, o clube tricolor não acompanhou os demais no faturamento junto ao mercado de transferências. Na comparação consigo mesma, porém, a equipe carioca conseguiu um aumento de 247% neste tipo de receita.
O impacto do Mundial é observado quando os quatro são agrupados na análise das receitas por direitos de transmissão e premiações. Os clubes da Série A somaram R$ 4,9 bilhões neste quesito. Botafogo, Flamengo, Fluminense e Flamengo representam 38% disso, com R$ 86 milhões vindo apenas do torneio da Fifa.
A outra alavanca, as transferências, bateu R$ 3,9 bilhões ao todo. O Botafogo lidera, com R$ 746 milhões, com destaque para as vendas do Thiago Almada, Luiz Henrique, Júnior Santos e Igor Jesus. Entretanto, o clube gastou muito e sofre com isso.
As altas vendas, aliadas à saúde financeira, são verificadas em Palmeiras e Flamengo. Os paulistas ampliaram as receitas com vendas de R$ 139 milhões para R$ 653 milhões.
As principais transferências envolvem as negociações de Vitor Reis (Manchester City), Estevão (Chelsea) e Richard Rios (Benfica). O trio rendeu R$ 509 milhões. O Flamengo se destacou com as negociações de Gerson (Zenit), Wesley (Roma) e Alcaraz (Everton). O faturamento das três vendas chegou a R$ 400 milhões.
Estadão Conteúdo