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Torcida

‘Bombeiro’, Jair Ventura sugere que nova geração de treinadores se reinvente

Quase uma década depois, entre questionamentos e rótulos, ele vive uma nova fase elogiada na carreira desde que assumiu o Vitória em setembro do ano passado

Redação Jornal de Brasília

22/08/2026 17h48

jair ventura

Foto: Reprodução

KLAUS RICHMOND
SANTOS, SP (FOLHAPRESS)

Jair Ventura, 47, tinha só 38 anos em 2017 quando passou a ser apontado como o principal rosto de uma nova geração de treinadores capaz de mudar a arranhada imagem do país depois da derrota por 7 a 1 da seleção brasileira para a Alemanha, na Copa de 2014.

Naquele ano, o jovem técnico havia conseguido descolar a sua imagem da do pai, o ex-ponta Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970, graças a um trabalho surpreendente à frente de um Botafogo de recursos escassos –semifinalista da Copa do Brasil, chegou até as quartas da Libertadores, só caindo para o Grêmio, que seria campeão do torneio.

Quase uma década depois, entre questionamentos e rótulos, ele vive uma nova fase elogiada na carreira desde que assumiu o Vitória em setembro do ano passado. Já são 57 partidas, próximo de igualar o segundo trabalho mais longevo da carreira.

“Estou feliz com o meu novo momento, mas também não me iludo: a segurança é zero no futebol. A gente sabe como é a vida do treinador. Basta uma sequência de jogos negativos e as cobranças já vêm e já não presto de novo”, disse à Folha.

Estigmatizado por um longo período pela fama de retranqueiro durante as passagens principalmente por Santos e Corinthians, Ventura conduziu a equipe baiana a uma arrancada surpreendente em 2025, salvando-se do rebaixamento com um aproveitamento de 55% dos pontos disputados em 14 partidas –7 vitórias, 2 empates e 5 derrotas.

Este foi o quinto trabalho em que assumiu uma equipe na degola e teve êxito. Antes, já havia conseguido o feito com o Botafogo, em 2016, o Sport, em 2020, o Juventude, em 2021, e o Goiás, em 2022. Por isso, agora lida com um outro rótulo: o de ser visto como um “técnico bombeiro”.

“O que as pessoas pensam de mim não me define. Eu respeito a opinião de todo mundo, mas sei do meu tamanho e daquilo que sou capaz”, afirmou o técnico. “Se dizem que sou bombeiro, retranqueiro… está tudo certo. Que possam continuar esses rótulos e eu possa continuar fazendo o que mais amo com a qualidade que tenho entregado.”

Cumprida a meta inicial, neste ano o treinador conquistou o título da Copa do Nordeste e avançou às quartas de final da Copa do Brasil ao eliminar adversários de peso no cenário nacional, como Flamengo e Athletico-PR.

O novo bom momento contrasta com o de nomes antes citados como promissores, como Zé Ricardo, Maurício Barbieri, Alberto Valentim, Eduardo Barroca e outros, que passaram a ter seus potenciais em xeque, além de perderem espaço devido à chegada em massa de estrangeiros.

“Aquela nossa geração veio na leva da necessidade de reciclar o futebol brasileiro. Alguns estão mais sumidos de forma injusta, mas acho que a gente tem que se reinventar também. Se eu de repente não tivesse esses feitos, de entender novas formas de jogar para livrar times e conquistar acessos, para ser sincero, estaria mais sumido”, analisa.

“Hoje sou um treinador muito melhor do que o que começou em 2016, o que dirá do ano passado. Precisamos de mais ideias, às vezes as minhas vêm até treinando na academia, escutando música. Corro para o bloco de notas da comissão e anoto. Na última semana, criei um trabalho tático inédito que nunca havia feito em dez anos.”

A intensidade que Jair exibe na linha lateral do campo ajudou a construir uma forte identificação com a torcida no Barradão. Após a classificação diante do Athletico-PR –a equipe havia perdido o primeiro jogo por 2 a 0, e passou goleando por 4 a 0–, concedeu entrevista abraçado a um torcedor que invadiu o campo para comemorar.

A disputa também esquentou os ânimos inclusive com o técnico adversário, Odair Hellmann, com quem bateu boca à beira do gramado e depois respondeu após a classificação dizendo precisar estudar mais.

“Eu sou mais um torcedor ali na beira do campo, sou um cara que vibro, jogo junto. Lembro de um lance em que o jogador cabeceou para o gol e o torcedor me filmou cabeceando junto. Eu sou esse cara de coração, que se entrega, sente a derrota e comemora do mesmo jeito que a torcida.”

“Eu e o Odair somos contemporâneos, fizemos a licença da CBF juntos. Ali o que acontece no jogo fica no jogo, os dois querem vencer”, minimiza sobre a rusga com Hellmann. “Eu tenho respeito e carinho pelo Papito, amizade fora de campo. Ele também extravasa para caramba, como eu.”

O amadurecimento no extracampo foi moldado em passagens por cenários conturbados, como a gestão política do Santos e do Corinthians em 2018. Problema que ele conta não viver no Vitória, onde recebe, pela primeira vez, salários adiantados.

“Foi o único clube que vi fazer isso em dez anos. É difícil chegar para trabalhar com um jogador sem receber por três, quatro meses. O campo fica pesado, não tem jeito”, explica.

Apesar da chance de título na Copa do Brasil, o time luta na tabela do Brasileiro desde a volta da Copa do Mundo, tendo conquistado somente uma vitória em seis jogos disputados. Neste domingo (23), terá o clássico contra o Bahia no Barradão.

Ele diz não fazer mais projeções a longo prazo. Um dos sonhos que sempre revelou publicamente era o de treinar uma equipe fora do país. Agora brinca: “Se não me quiserem mais por aqui, ao menos já tenho quatro chances de um dos ameaçados ligar para o bombeiro”.

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